O passado é uma roupa que não me serve mais

Hoje vesti um vestido curto. Reclamei das minhas pernas. Fingi que não me ouvi. Reclamei de novo. E saí de casa cômoda, porque eu não ia me atrasar problematizando os culotes.

Comecei a usar vestido curto, short e saia, sem preconceito de mim, depois dos trinta anos. A primeira minissaia que comprei foi esse ano. Tive algumas na infância e a última aos treze anos que usei só uma vez, em casa. Nunca fui feliz com meu corpo, sempre tive pudores, mas mais encabulada com as pernas. Cabe dizer que não tenho necessidade exibicionista de querer ser notada. Quase sempre o apelo é o conforto ou o calor. Por isso usar shorts ou saias.

Esse post conta uma experiência que reverbera por muito tempo na autoimagem. Esse post é sobre identidade.

Quase no meu aniversário de treze anos, por qualquer motivo, meu pai, que morava conosco, brigou comigo. Estávamos apenas nós dois em casa. Parece que ele se irritou com alguma teimosia minha, parece que ele se alterou, eu estava tranquila, dizendo que ele poderia dar conta do que eu podia fazer, mas eu continuava achando que ele estava errado. Foi uma banalidade, um confronto entre o adulto e a recém adolescente. Sua raiva passou dos limites e ele me espancou com uma vassoura. Eu não disse nada depois. Não falei para a mãe, mas não quis assunto com ele. Talvez ele estivesse nervoso, talvez ele estivesse sob efeito de alguma substância, talvez ele tivesse alguma crise de alguma doença que nunca soube. De madrugada, o pai foi pedir desculpas, falou que eu não poderia ser mais teimosa — “olha como o pai fica!” — e eu não tinha nada a falar; ele disse que não poderia dormir sem meu perdão e sem saber que eu tinha aprendido a lição e respondi dizendo que estava desculpado e poderia dormir.

Um dia depois os hematomas vieram e eram enormes. Fiquei com muitos hematomas, alguns cujo tamanho superavam minha mão. Os vergões eram grossos e por todas as duas pernas. As ancas, as coxas, as panturrilhas tinham marcas da raiva do pai. Um ou dois dias depois era o fim de semana e fui para a casa da minha avó. Ela e minha tia mais nova repararam que eu estava estranha e perguntaram o que houve, disse que tinha brigado com o pai e elas tentaram contemporizar. Não falei do espancamento. Achei que era algum confronto de gerações e o episódio acabou. Isso era dezembro.

Passei o verão usando vestidos e saias compridas, calças jeans. Por muitos anos — até quase os trinta — só usei roupa curta na praia, geralmente para ir para o mar (era um sacrifício, de alguma forma, já que adoro mar). Na casa de praia, usava biquíni e canga como se fosse uma saia comprida. Por alguns anos, enxergava os hematomas que já tinham cicatrizado há anos nas minhas pernas.

A raiva de meu pai — um sujeito comum e pacífico — se transformou em trauma. O corpo poderia ser normal, mas desde então passo a vida tentando aceitar um corpo em que, por um lado, não me adapto; e, por outro lado, era, na minha fantasia, feito de um machucado. Um ano depois do episódio, antes de nos abandonar, o pai me levou para sair e pedir desculpas por qualquer coisa que eu não entendia. Talvez, até, um pedido antecipado de desculpas pela ausência que hoje dura mais de vinte anos. Não havia mais nada a desculpar. A relação com meu agressor nunca foi positiva ou de confiança desde a violência.

Anos depois, tentei recuperar alguma mágoa a superar e, não havia mais nada. O pai se tornou um estranho e isso está bom como deve ser. Sua escolha de não ser pai foi respeitada e ficamos com quem nos quis como família. Não há dores e problemas com sua ausência. Não há alívio tampouco. Sua lembrança já não suscita nada.

Esse episódio, ao contrário, ainda eclode porque lida com minha imagem. Durante anos, minhas pernas foram aqueles hematomas que chamei de varizes, celulites, culotes, pele seca, desbotadas. Chegar aos trinta anos e finalmente optar por vestir o que era mais cômodo não é uma vitória, é apenas conseguir enxergar a realidade e lidar com ela e com seu tamanho.

Agora, com quase 36 anos, vejo que há uma essência de mim que aceita a pessoa que fui na adolescência e está disponível a viver essa essência, boa e ruim. Os vinte e poucos, em alguma medida, vieram com alguma vergonha de mim, com alguma tentativa de ser aceita. Era muito calor e eu ainda usava calça jeans.

Não estou alheia à idade, a minha história, a minha imagem. Posso mostrar as pernas. As celulites, os culotes, a pele seca, tudo isso está lá. Mas os hematomas cicatrizaram e não voltam mais.

Sobre a violência de meu pai, posso dizer que não há monstruosidade nisso. Há impulso. A raiva pode consumir qualquer um de nós. A civilidade e a humanidade é que nós fazem parar. É uma pena que ele tenha perdido ali sua filha, no dia que, por impulso, a tratou como sua coisa.

É lógico também que o pai não premeditou nada, ele não quis machucar para que eu não gostasse de meu corpo; ele agrediu porque sentiu sua autoridade e sua masculinidade feridas. O que faço com essa memória também é problema meu. Embora não pudesse fazer nada na hora, elaborei a situação como pude. Queria usar a circunstância para ilustrar que nossas emoções e percepções sobre nós mesmos pode melhorar ou deformar em apenas uma experiência.

Esse foi o dia que entendi que eu e meu corpo não somos coisa. O processo de compreensão, porém, não terminou ainda. Pode parecer que estou só preocupada com o invólucro, com o corpo, com o exterior. Esse é o invólucro que desaparece nas multidões, que me leva aos lugares e que sinaliza — mesmo superficialmente — quem posso e consigo ser.

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A mediocridade como sucesso

Hoje minha professora de Pilates disse que sou rebelde, já que fujo das ocasiões sociais formais. E, pensando bem, fujo mesmo; não dou importância à forma.

Hoje levei uma turma para assistir ao ensaio do coro infantil da Escola. Poderia fazer um gancho com Língua Portuguesa, minha matéria, poderia falar sobre os idiomas que as crianças cantam. Não fiz nada disso, disse que tinham de ouvir música porque música é uma coisa sublime. Disse que eles mereciam música.

Esses dois exemplos ilustram uma tentativa em fazer de minha existência um tempo de significado. Obviamente sou medíocre a maior parte do tempo, mas sei lá o que acontece que fico tentando achar sentido para alguma coisa que pareça vida em mim.

Me incomoda profundamente o comportamento de manada: não que não faça, mas juro que gasto um tempo precioso da vida para não fazer por fazer. Quero uma profissão que me permita ser mais humana; quero pessoas próximas que consigam ser falhas, parceiras, honestas e bobas e que me permitam isso também; quero música; quero ler, ouvir, falar, reclamar, provocar, mudar de opinião, acolher, refutar.

Se me vejo no comportamento de manada, vou tentar deixar alguma marca de identidade ali. Não dá para fugir tanto das expectativas da sociedade, a menos que a pessoa viva bem com alguma esquizofrenia social. Não é meu objetivo, de todo modo. Sair de um extremo e ir para o outro talvez liberte a pessoa no sentido mais profundo, mas ainda me falta alguma inteligência, desprendimento e discernimento para isso.

Mas não posso ser injusta. Não é fácil ter uma vida mediana ou medíocre. E não há nada de irônico nisso. A pessoa é levada a isso, ok, por um lado, sim. Mas quem não deseja ter além de sua existência precisa fazer um esforço para ter uma vida normal. A pessoa precisa decidir em que vai se formar. E tem de ser logo. E se mudar de ideia, tudo bem, mas não gasta a grana da família com dúvidas. Nesse período, a pessoa pode ou não ter uma vida afetiva estável. Pode pegar todo mundo. Se for mulher, pode pegar evitando se expor, é melhor. Pode beber bastante e saber alguma coisa de cerveja artesanal. Pode fazer foto de jantar gourmet com vinho importado. Pode conhecer futebol americano e MMA, um pouco. Sendo mulher, pode ver uma ou outra luta ou jogo, mas melhor não opinar. Depois de se formar, pode ter um período ainda festeiro, mas não muito. Melhor ir encontrando aos poucos alguém para ficar. Os amigos começam a convidar os casais para churrasco. Não precisa se apaixonar, não precisa dividir sonhos, não precisa admirar. Pode ser uma pessoa legal, boa companhia. Então é bom que tu cresça no trabalho e consiga algo relativamente estável. E lucrativo. E exerça uma profissão aceita pelo mercado. E teus amigos vão se tornando teu network. Tu precisa mostrar que está ficando responsável, mora junto ou compra um apartamento ou te casa. Já tem carro ou dá mil explicações sensatas de por que não quis comprar um. Descobre que é hora de ter um filho. Se for mulher, explica que o desejo da maternidade é biológico: é o instinto gritando. Tem, acha lindo, ama a criança. Não entende muito bem que educar é uma bosta, cansa, dá trabalho e o retorno é mínimo. Quer só a parte do amor incondicional e delega para a escola resolver as manhas do piá. Trabalha mais e mais, é explorado mais e mais com a desculpa de que tem de dar para o piá tudo o que não teve. Faz um sacrifício para ser um infeliz numa vida que não escolheu.

E tudo isso é difícil. Quando alguém me conta sua saga, admiro muito. A pessoa está fazendo um puta esforço para aquilo que ela e todo mundo chama de sucesso.

Para nós, meninas, o percurso é levemente mais engessado do que para os meninos. Eu acho, pelo menos. Um guri festeiro, aos 30 e poucos, é ok. Não é tão ok (tem de dar conta do trabalho, tem de parecer ter senso de independência), mas há concessões. Todas as decisões que fugiram (um pouco, não muito) do script foram contestadas, quando aconteceu comigo. Quase sempre, por amigas mulheres. Amigas, isto é, pessoas de quem gosto e tenho alguma intimidade questionam que tenha sido um pouco (e um pouco, não muito) diferente do que está posto para mim. Por escolha, não por circunstância.

Quase sempre, quando tenho amigos homens e eles começam a namorar, acabo evitando-os. Geralmente é proposital. Se o amigo não quiser seguir a vida da manada, vai me procurar e continuar a ser meu amigo. E tudo bem. Se o amigo acha a vida mediana melhor, vai deixar de ser amigo, ou vai ser eventual. E tudo bem. Muitas vezes, me esforço para ser amiga da menina, para que ela perceba que posso ter como amigo seu companheiro. Esse é um exemplo bem tosco e muitíssimo reduzido da projeção que tentava explorar, é, é tosco mesmo. Mas foi, para mim, em boa medida, um esclarecimento sobre as escolhas que fazemos e não nos damos conta. Sobre a pessoa de sucesso, de responsabilidades e de poucos desejos que aos poucos vão (vamos?) se (nos?) tornando.

Quantas vezes eu mesma luto contra meus desejos para ter o conforto do comportamento de manada? Quantas vezes não tive o comportamento mediano só porque problematizei ser do contra? Quantas vezes optei pelo comportamento inesperado simplesmente porque me sentia alheia entre as opções esperadas e nem sabia escolher?

Nesse sentido, preciso ser honesta: às vezes, o que melhor podemos desejar é que a pessoa tenha uma existência medíocre, ou mediana. Não é fácil; não tem sido nem para mim, quando quero “seguir o baile”. Desejar e fazer escolhas exige alguma análise, alguma falta de maniqueísmo; exige ser (um pouco mais) sensível e decidir, de algum modo, sobre algum valor.

Para mim, a mediocridade é difícil. Confesso que muitas vezes preciso dela.

Não tenho nada contra levar a vida assim, como um script de cinema. Só acho que tudo deva fazer sentido para a pessoa que está vivendo. Só acho que a vida vivida tenha de ser uma escolha. Não é o script o problema, é encher de alma essa história. Precisamos de alguma sensibilidade, emoção, desejo, novas rotas ao longo do percurso.

Mas muitas vezes, a mediocridade é o que de melhor podemos esperar na vida de uma pessoa. É feio dizer: seja medíocre; seja mediano. Mas não deveria. Há esforço em reprimir desejos, ter uma opinião formada sobre tudo e saber o que quer de sua vida nos próximos dez anos. Bem, aqui há um pouco de ironia, sim.

 

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Meu querido diário

Nunca tive um diário. Tentei ter no início da adolescência, mas não havia nada naquele caderno que fosse “escondido” ou “secreto”, como quase tudo na minha vida, aliás.

Mas estou pensando muito nos últimos dias em como tem sido esse meu ano. Sucintamente, posso dizer assim: uma merda. Mas vou esmiuçar e expor, mesmo achando que não é importante, não vale nada mais do que uma elaboração (para mim). O texto, em última análise, é uma materialização. Talvez precise materializar para conseguir superar.

Nessa época do ano, há um ano, minha avó estava voltando do hospital a partir de um milagre. Descobrimos que ela estava tendo um AVC isquêmico importante e corria altíssimo risco de vida em função de um pneumonia. A febre dela começou na sala da emergência do hospital e esse foi o gatilho para que a cor de sua pulseirinha de triagem fosse laranja. Passei os dez dias com a vó e sua alta foi inesperada: ela voltou melhor, muito melhor do que antes de entrar no hospital. Muitos médicos falaram em milagre. Emocionada, escrevi um depoimento no Facebook de propósito, pois sabia que precisaria elaborar a morte, que estaria chegando.

O vinte de setembro do ano passado foi alívio. Fui encontrar pessoas, fui rir, fui beber e espairecer. De alguma maneira, entendi que precisaria respirar, já que estava exaurida. Os dias seguintes foram horríveis. A vó estava muito melhor, mas outra situação gravíssima estava se impondo. Uma pessoa de minha família estava há tempos sofrendo ameaças, mas, nesses dias, o teor da violência tinha agravado a um ponto que não sabíamos lidar. Tínhamos medo e pavor por nós todos. De toda sorte, tínhamos também de cuidar das pessoas mais frágeis da família.

Não estava com muito medo por mim, mas estava com aquela sensação de injustiça: o que eu, as pequenas, a vó temos com isso? Por que com a gente? Tinha entendido que precisava ser forte, que precisava olhar para frente, que não adiantaria alterar a voz. Fiquei numa frieza comigo mesma que me desumanizava. Claro, não era eu a pessoa que mais sofria; vamos ser empáticos com quem está mais ferrado, então, já que eu não era vítima de nada específico, estava envolvida pelas bordas, vivia o terror indiretamente. De todo modo, acho que fiz o que tinha de ser feito.

Com a situação se agravando mais e mais, dia a dia, houve um dia que fiz uma coisa muito estúpida e ridícula, que é tentar falar de mim, me abrir bem egoísta, dizer “que merda, estou desesperada, mesmo!” para uma pessoa querida, mas não próxima. Não queria conversar com as pessoas da família — todos mais nervosos do que eu — e não queria falar com os amigos porque tinha vergonha da situação chegar onde chegou (independentemente de não ter envolvimento direto). Claro que a pessoa que me ouviu se assustou. Claro que fui inadequada. Claro que o sigilo foi “a medias”. Claro que, acuadinha, eu não conseguia olhar adiante. Claro que tentei ser forte o quanto deu e transbordei da forma errada. Fico com pena do amigo que prestou ouvidos e só, mas enfim, essa era o que pude ser no referido momento, foi vexatório, e cada um só consegue ser o que pode.

Nesse ínterim tinha a saúde da vó. Precisava marcar médico, que era reconsulta após a alta e ficava esperando o tempo melhorar (chovia e estava friozinho, ainda), os ânimos melhorarem, todo mundo virar gente. Esse momento não aconteceu.

No início de outubro, a vó demonstrou ter compreensão de tudo que estava acontecendo, do risco que corriam, do medo que sentíamos, do terror que estávamos envoltos. Nunca falamos nada com ela. Nunca demonstramos nada a ela. Ela sabia de tudo. E nem fui capaz de lhe pedir colo. Quis ser — veja só — uma mulher forte. E ela estava ciente de tudo e nos orientou imponente.

Um dia depois, três de outubro, em torno das 18h, a vó pediu para deitar no sofá, estava cansada e queria tirar uma soneca. No fim da tarde, pouco antes, tinha começado a tossir forte (nunca sabíamos o teor das tosses da vó, fumante por setenta anos). Ela deitou, dormiu, convulsionou, entrou em coma, a ambulância não demorou sete minutos. Sem saber de nada que estava acontecendo (tudo tão rápido!) com ela, fui a sua casa sem avisar, porque achava que tinha de ir. Logo que vi a situação, chamei os filhos que estavam fora da cidade. Levei-a ao hospital. Disse a ela, desacordada, que tinha entendido, que ela havia se cansado. Tudo o que sabia, assim que falei com a plantonista: talvez AVC, mas seguramente pneumonia. De novo.

Dia quatro foi estranho. Sumimos com minha sobrinha, para que ela não visse o agravamento da situação violenta que rondava a casa. Vivi uma tarde de sonhos e diversão. Uma sandice no meio do caos. Isso até a hora da visita ao hospital, é claro. Isso até falar com um médico estúpido que disse que era grave e não tinha muito a falar.

Quarta-feira, dia cinco, fui ver a vó. Os valores de referência (já conhecia todos: pressão, oxigenação, temperatura e a porra toda) todos alterados. Eu perguntei a enfermeira o que aconteceu, por que o médico não fez isso ou aquilo e ela respondeu: “ele sabe como está, tá bom?”. Não. Não está bom. Como posso reclamar? Por que não fizeram ressonância? Onde está esse médico para eu xingar? E nada. Voltei para casa, almocei com o Dindo e a Bi, que tinham vindo de fora, e fui chamada para ir ao hospital com urgência. “Entuba ou não entuba? Não há mais nada o que fazer”. Assim, com essa cavalice que nem um equino faz.

No mesmo momento, a situação de violência tinha sido resolvida e punida. Estávamos salvos, por um lado.

A morte da vó foi questão de poucas horas.

Está tudo apaziguado agora, um ano depois. A situação não está periclitante, não há agitação e medo. Mas não há vó. E essa falta tem sido muito difícil. Não é só saudade, falta um pedaço meu. Para mim é isso: é quase uma falta física, como se fosse do meu corpo. Acho que, conforme a idade aumenta, a gente sabe lidar menos com a falta. Passamos muito tempo da nossa vida com a presença, daí a ausência se torna inexplicável, incompreensível, difícil.

Tentei desopilar nos dias que seguiram. Fiz festa, ia ao parque, saía de casa por qualquer motivo. Só me enganei. Quase todos os dias eu ia a casa da vó e, quando comecei a chegar em casa sem ter de ver a vó, um vazio me assombrava. Não era solidão. Não era incômodo. Era falta.

Ainda chego em casa à noite e fico perdida. Entendo o fenômeno e arrumo algo para fazer. Ainda dói. Não tenho esperança de que passe, sinceramente. Acho que estou resolvendo o mais dignamente possível tudo isso, até. E a palavra “tudo” não é por acaso, porque o tamanho dessa coisa chata que a gente carrega depois da perda é imensa, quase sempre maior do que a gente.

Minha sorte é que há algo em minha personalidade que teima em ser feliz, que teima em olhar para frente; até mesmo quando não sei para onde ir. Ainda que haja muita dor, não há remorso, não há arrependimentos, não há culpa.

Talvez tentar lidar com tudo isso seja parte do pacote de ser adulto. E não sei se estou pronta ainda.

 

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Essa foto fizemos em 26/04/2015, um dia após sua festa de 90 anos. Eu estava caindo de sono, como se pode perceber…

 

Pessoas que acham coisas sobre tudo

Uma das coisas interessantes na internet é a possibilidade de se ter opinião. Podemos ter opiniões sobre tudo, podemos refutar nossa antiga opinião, podemos ler mais e ir melhorando a perspicácia de nossa opinião. Isso é lindo.

Gosto de ler opiniões, gosto de refletir sobre o que leio, gosto de discordar educadamente, gosto de emitir opiniões também. Sou tolerante até com opiniões sem fundamentação, porque escrever a opinião — quando educada e respeitosamente, quando tem o mínimo de empatia–, obriga a pessoa a estruturar pensamento e isso, nós sabemos, não é trivial.

Obviamente, de alguém com alguma cultura (aqui como sinônimo de escolarização) a gente espera mais. Espera um discurso menos simplista, espera um pouco mais de reflexão e espera que não use rede social para emitir opinião do mesmo modo que emite no bar.

O texto escrito tem muito mais limites do que o texto falado, tem menos recursos, deve ser mais preciso — especialmente no julgamento de pessoas e situações. É muito fácil ser mal interpretado. Muito mesmo. Por isso opinar tem de ser sempre pisando em ovos, já que às vezes a gente pode ser grosseiro com uma convicção alheia que para a gente é mero detalhe. Além disso, um texto na rede social tem muito mais impacto do que numa conversa entre amigos.

Bem, enrolei o suficiente para dizer que, a medida que alguém tem escolaridade, deveria ter empatia, respeito e até humildade com sua opinião, já que hoje em dia todo mundo tem julgamento sobre tudo.

Há, contudo, uma geração (e a minha se inclui) de pessoas que pensa que “o que acha” é justo o suficiente para ser respeitado e valorizado. Em tese, parece correto, mas vamos refletir. Por exemplo, a pessoa é evangélica e é contra a teoria do Darwin. OK, sou capaz de respeitar, embora não entenda, respeito. Agora, a pessoa não apenas discorda: diz que acha uma bobagem, que nem precisariam ensinar na escola, etc. Não dá para aceitar. É Darwin. Darwin!!!! E tua opinião é de quem, mesmo? 😤 Qual teoria tu já defendeu? 😟 Ah, tá. A pessoa não se dá conta de que Darwin não deixará de ser Darwin apesar dela. A teoria dele está inteira, a opinião dela não importa a ninguém além de cinco pessoas que dão corda para ela na rede social.

Isso me aborrece.

Li essa semana mais de uma pessoa escrever que o Marx era um vagabundo, por isso o socialismo e o comunismo são pensamentos (assim, como se fossem ideias soltas) débeis e estúpidos. Por isso, segundo as “pessoas que acham coisas”, os seguidores de Marx seriam débeis e estúpidos por extensão. Vamos lá. Marx deixou teorias sociais aplicáveis e aplicadas até a atualidade. Qualquer pessoa pode discordar do enfoque, pode discordar da metodologia, da teoria, pode discordar, enfim. O que é meio infame é usar a vagabundagem do Marx para invalidar sua obra. Inclusive há vários outros intelectuais que tiveram algum comportamento reprovável e ninguém questiona suas obras. Grandes pensadores da e na atualidade ainda se baseiam em Marx para se constituírem. Por exemplo, o livro “O capital” revisitado no século XXI, do Piketti, best seller, fundamentou-se no Marx. Não gosta? Diz no teu grupo de amigos, no meio da cerveja, que Marx foi um trouxão, se assim deseja. Na rede social, seja esperto, humilde, respeitoso. Discorde e fundamente, mas não ateste burrice.

Parece que defendo o Marx como um bastião teórico que me constitui. Não é isso, mas o dano que a “pessoa que acha” causa costuma “atingir” os pensadores relacionados à esquerda e vai além: enquanto pensamos que podemos “achar” e opinar julgando moralmente grandes intelectuais, estamos desqualificando um cânone da cultura mundial, um patrimônio de saber, que nos constitui como Humanidade. Quer dizer, a pessoa pensa “vou estudar o que ‘acho’ legal e não vou conhecer nada além do que agrada minha opinião”. Esse hedonismo aparece especialmente no ranço das pessoas que se colocam contra a ideologia comumente associada à esquerda. Nunca vi ninguém ofender a honra de Adam Smith. Vi discordar, vi dizer que a teoria de Smith se constitui aqui e ali, li vários teóricos de esquerda, veja só, pautarem como evolui o pensamento social e político através de Smith. Dizer se foi um bêbado, se tratou bem a mulher, se era fofoqueiro não interessa e, se o achismo da “pessoa que acha coisas e opina” precisa julgar a partir daí, julgue a pessoa, não a teoria, como se faz com Marx, mas separe a pessoa do intelectual.

Os primeiros estudos do Comportamentalismo são superados em Psicologia, mas são um avanço à época. Sem eles o Comportamentalismo não teria evoluído e se apropriado de conceitos inclusive estranhos (inicialmente) a essa linha teórica. Alguns experimentos de John Watson, o precursor destes estudos, seriam atualmente questionáveis em vários departamentos de ética de várias universidades. Nunca vi ninguém ofender o Watson. Mas é o Marx “superado” (segundo as “pessoas que acham coisas”) e tantos outros grandes pensadores (Paulo Freire, Darcy Ribeiro, só para citar dois brasileiros de orientação sinistra), que consideraram ideologia em sua teoria, que foram rotulados como vagabundos, inaptos, toscos.

Claro, boa parte da pouca visão de quem critica reside no fato de julgar essas pessoas à luz de nossa época, que é uma bobagem (a briga sobre o escravagismo do Monteiro Lobato cabe aí: ele era escravagista? sim, era. mas a sociedade dele era e, apesar de isso ser reprovável, não o exclui do cânone historiográfico da Literatura Brasileira; ou seja, vamos dar a importância devida para o que acrescenta e para o que cabe em cada momento, embora hoje, lógico, essas ideias em sua literatura não façam mais sentido).

Daí não dá para aceitar “eu acho que”. Não dá para aguentar “discordo e não aceito”. Não é possível desqualificar a pessoa em detrimento da sua orientação ideológica. Discorde do Marx, do Engels, do Trotsky, do Castro, do Freire, da mãe, de quem quiser. Mas não seja o idiota que acha e qualifica conforme sua ótica, sua vida, sua contemporaneidade, sua civilidade. Esses autores tão cedo não passarão. Tua opinião, assim como a minha, assim como tudo escrito aqui, não acrescenta nada; exceto, talvez, numa mesa de bar. É uma opinião, só isso; uma leitura parcial, limitada, importante para o debate, mas pouco ou nada para a sombra que esses nomes fizeram na História.

Ser adulto é ser inteiro e é ser feliz (ou tentar, pelo menos)

Esse texto é inspirado no texto do Piangers desse fim de semana. O texto AQUI.

Sempre digo para as amigas que querem um relacionamento (e não têm) que a culpa não é delas. Elas me olham meio virado. Acredito que, sim, uma parte das escolhas erradas é quem topa uma relação meia boca e que elas podem ter alguma responsabilidade, talvez, em não ter uma relação legal. Mas e o outro lado? E quem não é por inteiro?

Prefiro um amigo ou uma amiga sofrendo de solidão do que apoiado em um relacionamento que esteja capenga, que seja para não ser solitário, que tente tapar uma carência afetiva ou que se mostre, ao longo dos anos, como única opção possível (porque a pessoa já não conhece outra forma de viver). Ser solitário num relacionamento é uma grande derrota. Amar por dois é uma estupidez. Há muitas relações em que as pessoas parecem pela metade: não podem ser quem são, não fazem o que querem, acatam a vontade de outro em nome do tempo juntos ou do patrimônio que de alguma maneira organizaram (é difícil se separar do outro, descobrir a si mesmo, depois de filhos, gatos ou empresa montada, não é mesmo?).

Uma grande parte dos meninos (e um número grande de meninas, também) não entra em relacionamento, “superficializa” a relação. Há, por outro lado, uma porção de relações fortes e profundas que nunca foram chamadas de relacionamento, inclusive. Mas, de forma geral, os meninos podem fazer o que querem sem serem pressionados, até vendo vantagens maiores na vida de solteiro (individual) do que na vida dividida (VIDA DIVIDIDA: morar com amigos, ter relacionamento, viver num poliamor, etc.). Há muitas vantagens na solidão — não há dúvida — mas esse estilo fast food de ser solitário e comer qualquer coisa fácil é um modo de vida (de homens e mulheres) já consagrado. Tem sido, na maior parte dos casos que vejo, uma escolha comum de homens e uma resignação comum de mulheres.

Por um lado, mesmo as pessoas que estão em relacionamento parecem resignadas, sem muita voz, numa dupla opressão. Por outro lado, também muitas pessoas sem relacionamento parecem resignadas, sem muita voz, esperando um amor de filme — que não existe. É verdade, em casos heterossexuais (os que mais conheço), que as meninas estão mais superficiais, tentando se parecer aos meninos. E os meninos, que ainda não se resignaram numa relação, estão ainda mais superficiais, sem querer ser adultos. É feio dizer isso, mas embora os casais da minha infância e adolescência não fossem (ou parecessem ser) tão felizes quanto alguns casais que conheço hoje, também não lembro de achar que houvesse tanta gente infeliz, oprimida e superficial nos relacionamentos, como vejo agora. Pode ser só um ponto de vista pessimista.

Mas acredito que o que o Piangers diz no texto anexo é um pouco disso: nossa geração não quer ser adulta. Ser adulto é tomar a decisão de ser feliz ou ir tentando ser feliz a medida que dá. Ser adulto é assumir riscos. Ser adulto é fazer escolhas. Ser adulto é assumir as escolhas não feitas. Ser adulto é pagar contas e também guardar dinheiro. Ser adulto é se comportar como dono do seu nariz. Ser adulto é respeitar a pessoa que tu só quer por uma noite e fazer dessa noite espetacular — porque tem de ser bom para si mesmo. Ser adulto é escolher se relacionar se a pessoa vale a pena e é dar o passo em falso, para errar de novo e tentar outra vez ou para desistir para sempre. Ser adulto é tentar cultivar amores e amizades, tentando cuidar do que lhe cabe. Ser adulto é saber começar. Ser adulto é saber terminar. Ser adulto é se esforçar para recomeçar.

Piangers fala das “frutas ruins do mercado” e ele que me permita ampliar esse mercado, porque temos uma pá de gente que não sabe ser adulta. No caso do texto dele, é claro que há milhares de mulheres incríveis que escolhem homens ainda infantis e ele bem observa da imensa dificuldade em se relacionar aí. E não é culpa da mulher. Mas manter uma relação incômoda, viver desconfortável e aceitar isso é falta de maturidade para levar sua vida sozinha. E não é o homem que faz a menina imatura.

Para ilustrar esse texto, deixo para vocês algumas frases que me ajudam a pensar todas as vezes em que me sinto dependente, em que preciso escolher ou quando não acho que sou dona de mim:

“I know I was born and I know that I’ll die / The in between is mine / I am mine”
(Eddie Vedder)
(“Eu sei que nasci e sei que vou morrer / O que existe no meio disso é meu / Eu sou meu“)

“I can’t get a life if my heart’s not in it”
(Noel Gallagher)
(“Eu não posso ter uma vida se meu coração não estiver nela“)

“Caminante, son tus huellas / el camino y nada más; / Caminante, no hay camino, / se hace camino al andar.”
(Antonio Machado)
(“Caminhante, são tuas pegadas / o caminho e nada mais; / Caminhante, não há caminho, / se faz o caminho ao andar.“)

peterpancomplex

Feia, e daí?

Olá, amig@ feminista, sei que tu já vais dizer: “para com isso, o fato de não ser padrão não significa que você seja feia! se ame, você é linda!”. Entendo perfeitamente teu raciocínio e acho importante falar sobre isso com TODAS as mulheres. Todas somos lindas? Não. Somos fortes, interessantes, diferentes, uma infinidade de coisas. Bonitas, ou melhor, fisicamente bonitas, não. E tudo bem. Outro detalhe importante: esse post não é para pedir a vocês, leitores, elogio. Esse post é uma desmistificação da beleza como valor e vou usar meu exemplo para mostrar minha tese.

Minha primeira questão sobre o tema, para explicá-lo, é que beleza é uma seara muito particular. Se há padrões de beleza, eles são particulares e individuais; logo, não há padrão. O “meu” padrão para definir o que é bonito é bem fora da expectativa do senso comum. O Bon Jovi velho, com rugas e cabelos brancos me parece muito mais bonito e interessante aos olhos do que ele quando jovem, por exemplo. E não tenho interesse por grisalhos (ou quase nunca). E não estou considerando que, na juventude, ele usava roupas de metal farofa (hoje consideradas bregas para car***o). Estou dizendo que as feições atuais parecem mais naturais e harmônicas e acho isso bem bonito.

Falando sobre mim mesma: sim, me incomoda ser gorda. Sim, me incomodam meus traços. Sim, há vezes que gosto deles, mas são poucas. Sim, me maquio eventualmente e acho que muitas vezes a maquiagem melhora — afinal é para isso que ela existe. Se tu me conheces, pode discordar das minhas opiniões. Já expliquei que o julgamento de beleza é intangível. Acho que lidar com isso — me acho feia, mas gosto de mim — pode causar estranhamento, mas entenda o ponto de vista. Há algumas coisas que posso fazer para melhorar meu aspecto para mim mesma (estou fazendo exercícios regularmente e cuido minha alimentação, por exemplo, embora não ache que ser gordo ou magro sejam questões necessariamente ligadas à beleza física), mas o aspecto geral não me torna bonita, ou não me sinto bonita. Devo dizer, ainda, que não há complexos em ser feia, ou em não ser bonita. Nunca tive problemas para me relacionar ou nunca fui complexada com minha figura, seja para flertar, seja para ir à praia (dilemas tão difíceis para as meninas de outrora e de hoje).

Não gostar dos seus traços é uma questão de… gosto. E só. Para mim, para meus padrões, há uma gradação que vai dos extremos: de lind@ a horrível. Acho que isso é comum a todo mundo. No meio da minha classificação virtual, está o limbo, de pessoas normais, que não chamam atenção por nenhum dos extremos. É lógico que uma pessoa legal, divertida, aprazível vai ficando mais bonita à medida que convivemos com ela e o contrário também pode ocorrer. Mas na minha classificação virtual, fisicamente, estou no limbo para mais feinha. Me sinto até normal, embora com pouca harmonia. Acho que sou bem na média e, conseguindo comprar roupas que combinem (como encontrar uns vestidos frescos no verão e uns casacos interessantes no inverno — veja bem, isso nem sempre foi fácil), está de bom tamanho.

As vezes que me sinto mais bonita ou menos feia não têm relação com a roupa que visto, por exemplo. Já me senti melhor vestindo só moletom (ou andando como uma mendiga em casa) ou com jeans e camiseta, quase sempre de cara lavada. Quando vou a festas, me maquio e uso roupas de festa, mas aquela não sou eu. Não me reconheço ali. Pode ser que às vezes fique melhor do que seja naturalmente, pode ser que não. Bem, percebe-se que a vaidade não é minha marca. Mas a vaidade também não é condição para beleza ou para feiura. Em geral, a vaidade acaba sendo uma forma extra de cuidar de si, seja física, seja emocionalmente. A vaidade pode mudar a percepção que uma pessoa tem de si, mas, honestamente, conheço poucas pessoas que ficam muito mais bonitas porque são vaidosas.

Há algumas coisas em que me sinto muito bonita. Assim, como pessoa, sou imodestamente muito bonita. Acho que tenho empatia, que sou amiga dos amigos, que não meço ninguém pela minha régua, que sou acolhedora, que sou humana, que sou espirituosa, que sou humorada e um pouco piadista. Claro que nem tudo sempre, mas penso que sou assim, como descrevi, em muitas ocasiões na vida. Não sou essencialmente humilde, mas não me vejo melhor do que ninguém. Acho que tudo isso me faz bonita. Não fisicamente bonita, mas bonita. Não sou vaidosa com o que é palpável, mas sou orgulhosa da vida que levo. Essa beleza não física tampouco é tangível, é um jeito de ver beleza com um olhar particular, ora, como se vê qualquer beleza. Aqui não é uma compensação de mim comigo mesma, é uma forma de se julgar, apenas. Neste caso, é minha forma particular de avaliar minha beleza particular. Há pessoas lindas por dentro e por fora, há o contrário e há uma infinidade de possibilidades entre esses dois extremos.

Olhar fisicamente pessoas bonitas, lógico, é super bom. Pessoas bonitas são fisicamente interessantes e isso, para mim, não está diretamente ligado a flerte ou a sexualidade. Já vi homens lindos, de parar para ficar admirando, mas que não me via nem chegando perto para ser amiga, porque o interesse era apenas plástico. Uma pessoa bonita pode ser tão plástica e artística como uma obra do Picaso (sem piadas cubistas, por favor), uma sinfonia de Beethoven, uma peça de Shakespeare, um solo de Pepeu Gomes.

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LOTERIA

Estava me dando conta de que, desde que a vó faleceu, a MegaSena é um fenômeno totalmente inexistente da minha vida. Mesmo quando a vó não pedia, eu acabava jogando os números dela, numa insistente obediência burra. Quer dizer, por amor fazemos coisas insanas, mesmo. E chamo de insano não no sentido de criticar jogar numa loteria, mas de fazer uma coisa sem simplesmente saber por que faz e continuar fazendo.

Muito bem. A vó morreu e eu parei de jogar na loteria, como que magicamente.

E daí? E daí fiquei tentando achar significado para a vó querer passar a vida tentando ganhar na loteria e eu não. Bem, o sentido da loteria na vida da vó não tenho como precisar. Poderia divagar sobre isso, mas vou tentar divagar sobre por que isso já não faz parte de mim.

E descobri. Porque sou rica. Porque ganho um pouco na loteria todos os dias. Passei um finde ótimo, regado a risadas com amigos: ouvimos boa música, bebemos boa cerveja, comemos boa comida. Passei um dia com minha ex-aluna, que é minha amiga, que me conta a vida, que divide confidências, que entende que a vida é bonita apesar de tudo, que gosta de ficar perto. Mateei, cantei, amei e tenho feito muito disso nos últimos dias.

As pessoas têm me encontrado e sido generosas não porque perdi uma referência de vida e estão com pena (quer dizer, não quero acreditar nisso, na verdade, porque que de última para ambas as partes, né?), mas porque estão dando o que têm de melhor e tenho aprendido a receber. Citei esses últimos dias apenas porque lembrei de relacionar à loteria da vó, mas tenho sido acolhida imensamente, amorosamente e divertidamente. Há vários dias, de vári@s querid@s.

O bom humor, para mim, é a coisa mais deliciosa na vida e acho que as pessoas me entendem. Não adianta, para mim, querer me consolar do que não há consolo. Então dou e recebo o que se pode: bom humor, amor, sorriso. Tenho uma teimosia quase infantil em ser feliz.

Nenhuma situação incômoda ou desconfortável sobrevive no meu corpinho (corpanzil, melhor): o que não serve tem de ser mudado; se não consigo mudar imediatamente, aprendo a conviver até modificar e deixo de ser infeliz. A infelicidade e a tristeza não habitam minha vida: nem por escolha, por natureza minha, mesmo; por inatismo. Todo mundo nasce para brilhar e, como diz a canção, “this little light of mine / I’m going to let it shine”. Não que eu seja iluminada, mas há alguma coisa de bonito que eu, aqui, humildemente, posso compartilhar. E só quero se for bonito. E só quero se for feliz. Menos que isso não é para mim. Menos do que isso não serve para ninguém.

A felicidade está ao meu lado, a um toque de telefone, num abraço, a três horas de ônibus, numa lembrança, num vídeo, num timtim… E ela não me abandona, por teimosia, mesmo. Para que MegaSena?

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