É tempo de amor. É tempo de dor.

Bem, nem todo mundo acompanha a atividade do blogue e do Facebook e muita gente, que nem sabe quem sou, cai aqui.

Em primeiro lugar, seja bem vind@, não importa de onde, não importa quando.

Mas você não sabe — ou sabe — que ando tendo dias de adaptação. Minha avó faleceu há dez dias e estou aprendendo a viver sem um pedaço fundamental da minha vida. Ela, logicamente, é fundamental (é, assim, no presente, porque embora não seja física, continua presente) pela referência de caráter, de pessoa, de afeto, de apoio que me deu ao longo dos 34 anos que ora apresento. Perder alguém que é insubstituível e preenchia minha vida não tem sido fácil e, por isso, tenho reaprendido a viver. Sabe por que “reaprendido”? Vou explicar. Nos últimos anos, minha rotina era ver a vó quase diariamente. Ver, saber, ouvir, perguntar, me preocupar, me ocupar, organizar as demandas dela, cuidar, olhar, tocar, mexer, enfim, minha avó me enevoava e, mesmo que isso soe cansativo para quem lê, olha: que delícia que era! Não troco a responsabilidade com minha avó pela tranquilidade de viver (um pouco) menos preocupada hoje.

E daí aparecem os amigos para aliviar a vida. Tenho saído, encontrado e procurado pessoas que me fazem bem em todos os últimos dias. Já tenho compromissos de trabalho e outros extras que vão me encher de atividade para que a falta da vó seja mais sentida, mas menos sofrida. Está bom fazer isso, porque há uma dor que só será curada com o tempo; porém, mesmo que o luto tenha de aparecer, não pode dominar a minha rotina. Um chorinho diário pode, mas não posso paralisar a vida por quem me deu vida em abundância junto com minha mãe e família. Saber colocar isso em prática requer exercício, requer se forçar a não ceder para o péssimo humor e requer solidariedade de quem está ao redor.

E daí aparece a arte para aliviar a vida. Hoje, logo que pensei na vó, de manhã cedo, veio uma canção do Baden Powell, que adoro, mas que fez mais sentido hoje do que nunca: “Ah, bem melhor seria / Poder viver em paz / Sem ter que sofrer / Sem ter que chorar / Sem ter que querer / Sem ter que se dar […] / O tempo de amor / É tempo de dor / O tempo de paz / Não faz nem desfaz / Ah, que não seja meu / O mundo onde o amor morreu”. Quer dizer, onde há amor, há conflito, há dor, há coisas a serem resolvidas. Então, o eu-lírico diz que prefere o conflito e a dor do que a paz, que é o vazio e o nada. Que tristeza viver no nada! E acho que o Baden tem razão: tenho dor, porque tenho amor; mas bem que eu gostaria de viver sem ter de sofrer, sem ter de chorar. Quando tem de se dar, ou seja, quando tem amor, tem fragilidade e é nesse espaço incerto que nos damos a conhecer.

Estou preferindo não ter paz. Tendo de sofrer. Tendo de chorar. Tendo que me dar para um amor a mais.

“Ah, que não seja meu / O mundo onde o amor morreu”

Adoro essa canção original, porém acho a versão do Herbie Hancock com a Céu es-pe-ta-cu-lar. Essa é do Imagine Project, um disco com versões lindas. Vale conferir:

 

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Ser feminista é uma urgência

Lá venho eu, (veja bem) de novo, escrever sobre o feminismo. E sempre escrevo como um fenômeno social e conjecturo e discuto como se ele tivesse a ver comigo, mas em tese. Não. Hoje vou escrever porque o feminismo é para mim, pessoalmente, é para me proteger. Sou feminista porque sou egoísta.

Queria escrever sobre o caso da Fabíola (que é óbvio que não assisti o vídeo e não tive maiores informações além de notícias), que é uma violência à mulher e, mais do que isso, a sua honra, já que ela foi denegrida nacionalmente, numa situação que poderia ter sido resolvida em família, com todas as dores e julgamentos que cabem, mas que não dizem respeito à vida social dos envolvidos. Aliás, ela e o homem que estava com ela eram comprometidos, mas ninguém sabe o nome do outro, só da Fabíola. Que merda. Mas hoje não vou defender a Fabíola. Não quero saber dela.

Quero saber de mim.

Uma pessoa próxima está sofrendo violência porque teve um relacionamento abusivo com um homem ignorante. Da relação, um filho. Desde o começo do namoro até hoje (separados há muitos anos), uma relação abusiva na potência dez. A mulher tenta reconstruir sua vida, mas vive com medo. Encontra outro parceiro — que não desenvolve um afeto totalmente saudável, mas ok, ele não a machuca fisicamente e isso já é vantagem — e esse parceiro não pode ter uma história linear com a mulher, porque afinal há um troglodita que pensa que pode mandar nela, que ela não deixou de ser sua propriedade.

É o horror. É O HORROR! Quem vive em volta, teme pela criança. Teme pela mulher. Teme pelo deboche que o homem tem da justiça. Teme o tempo inteiro e não consegue relaxar, porque a violência física, psicológica e simbólica rondam a mulher, a criança e as pessoas próximas. Mais triste é o quanto as pessoas julgam a mulher: “deveria ter feito isso”, “não poderia admitir aquilo”, “esperou tempo demais para entender que o relacionamento era abusivo” — e é lógico que todos estão certos — mas nada anula a doença da pessoa que acha que pode tratar a mulher como um ser humano inferior. Essa doença tem de ser combatida, denunciada, afetada. Nenhuma mulher tem de viver sob esse jugo, não importa o que tenham feito ou o que tenham negligenciado. Nenhuma, por mais errada que esteja, por mais vadia que seja, por mais mentirosa que seja. Nenhuma.

Fiquei chocada com a história da menina que foi estuprada por trinta homens no Rio. “Ah, mas ela era usuária de drogas”, “ah, mas ela tinha filho”, “ah, mas ela foi para o lugar onde esses meninos estavam” e não há nenhum “mas” que motive o estupro e a difamação da menina na internet. Ela poderia ser puta e poderia ter uma vida vacilante, isso não importa. Os problemas dela não explicam o estupro físico e simbólico. Ela foi violada porque existem violadores e o feminismo quer que violadores não existam.

Esses casos são extremos e, apesar disso, são comuns. Quase todos os homens que conheço já denegriram a imagem de uma mulher em algum momento, tenham saído ou não com ela. Quase todos julgam negativamente e em público, seja pela roupa, pela vida pregressa, pela forma que fala. Isso é ser abusivo e esse é o primeiro passo para que o violento exista. O exagero aparece onde a doença é naturalizada.

Que o caso próximo a mim e o caso do jornal sejam resolvidos com mais feminismo, o que significa mais igualdade e menos relação de poder. Que a gente fale mais sobre isso para conscientizar homens e mulheres e que todos entendam que são iguais em direitos e deveres.

Que eu pare de escutar esses casos. Que eu pare de viver no meio disso. Que isso pare de me afetar, porque é difícil. É difícil se sentir insegura e vulnerável, por uma escolha que sequer fiz: ser mulher.

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Monumento à Catia Abreu

Uma das coisas mais legais de morar onde moro é ter as vantagens de viver na Cidade Baixa, ter uma vida diurna e noturna relativamente vivas e, ao mesmo tempo, estar nos fundos de um prédio, bem no meio da quadra, onde se encontram os pátios dos térreos dos prédios ao redor, passando dias e noites em quase silêncio, não fosse o escarrador e sua vida afetiva exibicionista.

Meus vizinhos do térreo, senhores de muita experiência, têm um abacateiro frondoso, daqueles que a gente morre de inveja de não ter o pátio e a árvore e os frutos. A verdade é que o abacateiro até me dava certo medo, porque se um abacate caísse em um dos dois senhores, teríamos uma possível tragédia.

Mas a tragédia não vai acontecer. Acordei um feriado desses aí com o barulho de motosserras e pensei: “que bom que vão dar uma aparadinha”. Que nada. Fizeram um monumento à Catia Abreu, tosando a árvore e me tirando a primavera de passarinhos e caturritas (apelidadas de angry birds, por mim, dado seu canto idêntico ao jogo — ou seria o contrário?). Não que não tenham mais caturritas, mas elas estão distantes, agora, só escuto seus ecos. Não que o verde tenha sumido, ainda existe. Mas o abacateiro, não.

A Cidade Baixa tem deixado de ser a Cidade Baixa desde que me mudei para cá. Está insegura e, às vezes, não reconheço o perfil que havia logo que cheguei. Mas agora estão tirando meus passarinhos, quer dizer, de tudo, só está sobrando a pior parte — no caso, o escarrador.

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A moda da paternidade

Estou ensaiando escrever esse post há muito tempo, pois gosto de abordar as questões feministas pela ótica do homem. Veja bem, o feminismo não é o contrário do machismo, ou não é uma tendência que entende que mulheres devem ser contra homens. Entendemos — as feministas — que homens e mulheres devem compartilhar direitos e deveres, respeitados seus limites e diferenças físicas. Acreditamos que todos devemos ter o poder na cidadania tão igual quanto possível.

Compreendido esse pressuposto inicial, começo o texto, enfim. Com a moda da maternidade tão forte nos últimos tempos (ou simplesmente eu que cheguei na idade alvo e acho que todos procriam ao meu redor, mas é só um fenômeno da minha geração), não vejo muita gente falando sobre paternidade. Ao contrário, blogues com mulheres dando depoimentos sobre a maternidade tem aos baldes. Num mundo mais feminista, precisamos saber o que, então, o homem poderia fazer, especialmente nos espaços que nunca foram deles, ou ainda, está na hora de os homens ocuparem os lugares que eram, antes, apenas das mulheres.

Graças a uma tendência por metodologia, percebi que, ao longo das gerações, existiam, principalmente, três tipos de pais (os que não participam nem in praesentia da vida dos filhos não estarão na categoria “pais”, nesse texto): os provedores, os que ajudavam e os que dividiam as tarefas de cuidado. Geracionalmente, os provedores eram os mais comuns na época de minha avó e os mais “pra frentex” na época de minha mãe ajudavam. Cortando um pouco a linearidade que eu esperava, não observo como tendência atual o cara que divide as tarefas com a mãe. Na verdade, tenho a impressão de que houve uma estagnação entre essas gerações e o mais comum é um pai bobo, que não decidiu sobre a paternidade (a decisão de ter filhos é da mulher emancipada) e que “ajuda” quando a mulher, sei lá, precisa tomar banho.

Bem, aqui já deu para perceber que o tipo “que ajuda” é, para mim, o mais problemático, pois o que divide, ok, está de acordo com como penso e o provedor surge de um acordo machista entre ele e a mulher (e ninguém nesse caso parece se incomodar com esses papéis bem definidos). Para mim, o cara “que ajuda” é um idiota ou um cara idiotizado (sem ofensas), é um cara que foi escolhido para “quebrar um galho” e se acomoda em ser segundo plano, mas verbaliza outra coisa. Sempre tenho pena do cara quando escuto alguém perguntar para uma mãe: “e como fulano é como pai?” e ela responde: “nossa, ele me ajuda muito!”. Sinceramente, parece, para mim, que o cara vai lá ocupar seu lugar de coadjuvante e a mulher como responsável pela criança continua fazendo praticamente o mesmo que a mulher do provedor, mas com ares de modernidade e com a bobice de pegar no colo, jogar no ar uma vez e levar para a mãe, pois não sabe mais o que fazer com a criança.

O argumento para essa “ligação fortíssima” entre a mãe e o bebê é a amamentação. É verdade que é fácil gostar do seu alimento, principalmente quando se tem dias de vida. Mas a amamentação não precisa ser realizada apenas pela mãe: se o cara quiser, dá um incremento à natureza e participa do momento da alimentação. Daí falam que é uma relação primitiva a de mãe e bebê e fico procurando os tacapes da casa, por que, né? Acredito que a ligação fortíssima tem uma explicação, sim, e se chama “licença maternidade”, em que a mulher fica 24h com a criança nos seus primeiros seis meses e o pai fica esse tempo apenas na primeira semana. Mas para uma pessoa que “aceitou” ser o segundo plano na geração de uma nova pessoa e não decidiu exatamente sobre isso, essa falta de maturidade ou falta de ser adulto é, até, esperada; então, não será o tempo o único marcador de que o cara será um ajudante, não um co-protagonista.

Daí o cara vai ser pai. E quer ser tão protagonista dessa aventura quanto a mãe. O que fazer? Tem de aprender a ser pai. Nós somos ensinadas desde pequenas. Fico impressionada do quanto sei sobre gestações e questões relacionadas, só por ouvir dizer. Se ficasse grávida, mesmo que fosse tudo novo — e, provavelmente seria, pois as vivências são bem particulares — eu já teria tateado, ou já teria “ouvido falar” dos fenômenos relacionados. Homens não. Homens precisam de manual de instruções (se não quiserem ser ajudantes ou provedores), porque ninguém diz a eles o que acontece, o que fazer ou como fazer.

Para isso, louvo alguns trabalhos de divulgação da paternidade. Isso soa estranho, pois a paternidade existe desde que mundo é mundo. Ah, mas a paternidade ativa precisa fazer sentido, assim como a maternidade já faz há muito tempo. Por mais que muita gente ache piegas, o blogue português “Duas para um” é um bom exemplo de um cara que conta qual é esse negócio de ser pai e de querer participar da vida da criança. O link está AQUI. O Piangers fez livro, TED e faz grande divulgação de seus textos sobre a paternidade, evitando maniqueísmos e colocando dilemas reais (eu acho, sei lá) na vida do cara que decide dividir a tarefa de educar e criar um piá. O link do Piangers está AQUI.

Não sei o que é ser mãe e nunca saberei o que é ser pai. Mas acredito que o pessoal que deseja procriar deveria pensar ativamente em como ser um adulto efetivamente influente na vida da criança. Deve ser uma tarefa muito difícil. Hercúlea. Mas quem topa estar junto e não ser estátua só na formatura e nos aniversários diz que é uma experiência muito profunda e emocionante.

Fui encontrar os meus

Eu e tu, que fomos ao manifesto no último dia 18, estávamos lá para nos encontrar. Principalmente, para saber que não estávamos sozinhos. Porque temos passado dias difíceis.

Após o episódio do mensalão — que sabemos que não era prática isolada, que sabemos que caiu no colo do PT, que sabemos que o PT poderia (e deveria) ter dado outra volta no caso, que sabemos que não governaria se apertasse, enfim –, começamos a ficar acuados. Nossos parentes e conhecidos passaram a nos provocar e abaixamos nossas cabeças. Se levantávamos, era para defender o Bolsa Família ou o Minha Casa Minha Vida. E fomos nos cansando. E fomos nos afastando.

Sabíamos que não éramos do PT, mas de esquerda, e entendíamos que criticar era preciso. Não queríamos ser a Venezuela — embora a respeitássemos. Simpatizamos com o PSOL, analisamos a conjuntura e fomos ficando mais acuados. Assumimos que a luta tem de ser pacífica, não somos fascistas, somos democráticos, temos de ouvir o contraditório, aceitar o contraditório e cansamos de argumentar. Quisemos, enfim, ser ponderados e equilibrados. Nos afastamos mais. Nos desiludimos uns com os outros.

Até que veio a eleição de 2014. A direita já se impôs em “nós” e “eles”. Os contra e os a favor da corrupção. E passamos a não admitir Aécim apontando o dedo. Descobrimos que o problema era o sistema político, que no sistema atual não existem éticos. Entendemos que reforma política era necessária. Enfim concluímos que empresa não dá doação para campanha, ela investe (ou por que será que a Friboi doou 5 milhões para a Dilma, mais 5 para o Aécim e outros milhões para o Eduardo Campos?). Votamos na esquerda só para evitar o PSDB, mas demos mais um passo longe de nós mesmos. Votamos dando explicação. Caímos no jogo da direita.

O (não) pensamento fascista ou o reducionismo de direita é um movimento latente no mundo. Parece que estamos numa crise brasileira, mas estamos conectados. Também a direita quer que a gente pense que “isso só acontece no Brasil”, pois é mais fácil achar um salvador da pátria à moda antiga com cara de moderno. Não estamos sós, mas achamos que estamos.

Desde 2014, baixamos a cabeça e custamos a entender que éramos muitos. Quando Dilma tentou negociar, espinaframos. Não éramos base, não éramos militância. Aliás, só entendemos alguma coisa quando a situação do tudo ou nada — que vem desde 2013-2014 — passou a depender de jogadas finais. Cansamos de ver arbitrariedade atrás de arbitrariedade judicial. Vazamentos seletivos ad eternum. Aceitamos, finalmente, que política não é de bons e maus, é de gente boa e ruim ao mesmo tempo. Estamos acuados, não falamos mais nada na internet, queremos ficar de bem com todos, brigamos com os amigos. Chegou o momento do tudo ou nada. Polarizou. Todos perdemos. Pronto, vem o impeachment.

Foi por tudo isso que fomos encontrar os nossos na sexta, dia 18. Nos tornamos lulistas e dilmistas novamente porque a alternativa a isso é muito mais sacrificante, porque acaba com a Constituição, porque dá vitória à perda de humanidade e de cidadania. Cansamos ao longo dos anos, mas nos cansamos, também, de estarmos acuados. Pode ser que tenhamos acordado tarde, mas nos olhamos, sexta, sem medo, e percebemos que, se houver a concretização do golpe, haverá reação. Não estamos dispostos a aceitar qualquer coisa que fira a democracia. O golpe só não foi concretizado porque ainda somos resistentes, ainda vigiamos. Lula, se resolver, não vai resolver como gostaríamos, mas é nosso braço de luta, é, junto com Dilma, nossa jogada final para a manutenção da democracia. Não há meio termo, não há equilíbrio. Dia 31 vou, novamente, encontrar os meus. Porque sentia saudades.

 

Enquanto escrevia o post, fiquei pensando em uma canção: “Caçador de mim”, do Milton. Principalmente por causa desses versos: “Por tanto amor / Por tanta emoção / A vida me fez assim / Doce ou atroz / Manso ou feroz / Eu, caçador de mim […] Nada a temer senão o correr da luta / Nada a fazer senão esquecer o medo / Abrir o peito a força, numa procura”. Achei que fizesse sentido. se não fizer, podes ficar com o Milton, que é um chuchu e dispensa comentários.

 

365 perguntas

Há bastante tempo tenho notado que não passo praticamente NENHUM dia sem responder a pergunta:
— Quando tu vai ter filhos?

A verdade é que só não escuto esse tipo de pergunta nos dias que não saio de casa. Com o tempo, comecei a pensar que tinha de saber responder a essa pergunta e passei a tentar saber o que quero. Pensar sobre a maternidade é mais ou menos como pensar em religião — dadas as devidas proporções e dadas as devidas confusões –, pois, à medida que se pensa a respeito, menos tenho respostas.

No início, comecei a entender que as pessoas te perguntam esse tipo de coisa sem ter nenhuma intimidade. Perguntam sobre minha vontade de ter filhos, mas não perguntam se tenho vontade de fazer doutorado, por exemplo. E acho que perguntar sobre carreira é menos invasivo do que perguntar sobre um desejo ou projeto de vida, que, em alguns casos, pode não ser realizado e/ou independe da mulher.

A revolução sexual trouxe consigo a possibilidade do controle gestacional. Não, o controle gestacional não foi obra do advento da TV. As mulheres e os homens puderam se empoderar sobre a concepção e acho isso genial. Mulheres e homens conhecem a regra e podem manipulá-la. Pois é. Não. Na prática, muitos anos depois da liberdade sexual, mulheres manipulam a regra e homens parecem ser uns bobalhões, porque a eles nem o direito de escolher a paternidade é dado. Não estou diminuindo os homens, tampouco desconsiderando que escrevo uma generalização (que é sempre falha e não vê as particularidades), mas tento retratar como o papel masculino é dado, não como é realizado pelos homens.

O Luis Fernando Verissimo escreveu uma crônica em que ironicamente criticava o casamento gay. Não é que ele fosse contra o fato de gays casarem, mas ele diz que nos anos 1970, as vanguardas acreditavam que os gays seriam a força capaz de debochar da ideia tradicional de casamento e, com isso, romperiam alguns tabus que essa geração não conseguiu dar conta. Estamos nos anos 2010 e o casamento (ou a pompa e circunstância dele) está mais forte do que nunca, inclusive entre os gays. Para mim, o sonho do casamento é absolutamente legítimo e, diante do que temos e do que vivemos, mais legítimo ainda para os homossexuais, sobretudo se pensarmos nos direitos civis. Essa legitimidade se dá individualmente, pelos sonhos e desejos de cada um. Porém, pensando coletivamente, concordo com a linha de raciocínio do Verissimo. Sabe por quê? Porque frequentemente perguntam às garotas dos casais que vivem juntos: “e quando vocês vão casar?”, como se casados já não fossem, como se lhes faltasse algo, como se esse fosse um desejo feminino. Quem somos nós para questionar o que falta ou não em um casal ou em um amalgamado de relações? Nesse sentido, tenho percebido que, num casal heterossexual comum, o homem é a pessoa sem vontade, que (na maioria dos casos) topa fazer uma festa de casamento para realizar o sonho da mulher. Como disse o padre de uma cerimônia que eu fui, “essa é a realização de UM sonho” (o sonho da mulher).

Essas imposições e papéis ficam piores a medida em que a idade da mulher avança. Hoje em dia, na classe média, é aos 30 anos. Não importa se a pessoa tem ou não um relacionamento — e isso é bom, do ponto de vista de empoderamento feminino — ou se a pessoa está financeiramente estável. “Quando tu vai ter filhos?” Então, parece que todo o feminismo vai para o saco e o que sobra é algum primitivismo onde só constituem papéis importantes na sociedade as que “conseguem” parir. Geralmente, essa pressão é feminina, mesmo, o que parece ser uma certa crueldade entre as iguais. As pessoas podem pensar que estou exagerando por muitos motivos, mas peço a reflexão: é natural que pessoas diferentes, com intimidades diversas contigo, te perguntem todos os dias sobre tua reprodução e suscitem argumentos biológicos para opinarem em tua vida? Se tu pensas que sim, pode trocar de texto, que o meu não vai contribuir com esse argumento.

De toda a sorte, descobri que tenho respondido o que há de pior, porque causa certo estranhamento nas pessoas, mesmo.
— Quando tu vai ter filhos?
— Não sei.
— Mas tu quer ter, né?
— Não sei.

Passei dos 30 anos e não tenho o direito de não saber. Quando eu dizia “SIM”, ok, sou uma mulher aceita, sou maternal e tal, tudo normal. Quando eu dizia “NÃO”, causava algum desconforto, mas todos tinham algum bom argumento: “Ah, já sei. É porque tu trabalha com criança e já passa tempo demais cuidado das crianças dos outros…” E eu fazia cara de “Âhn?”

Nessas de tentar ser mais honesta comigo, comecei a responder a verdade, que não sabia, que não me sentia responsável o suficiente para decidir e que não tinha uma necessidade biológica e psicológica por passar por uma gestação (a verdade é que tenho certo medo, até). As pessoas já têm filhos demais, já erram demais (esse assunto é para outro post) e não sei se quero seguir o mesmo caminho, embora cada caminho seja único, seja particular. Bem, não saber sobre a maternidade parece pior, porque parece que desdenho essa “maravilha tão divina e fantástica” na vida das mulheres, parece que não sei que há tantas tentando, sofrendo e não conseguindo. Sei que as pessoas não se arrependem de ter filhos, mas sei que muitas os têm em momentos equivocados de suas vidas. Então, me dou o direito de não saber se quero filhos, apesar de ter 33 anos e a “idade pesar”, como tanto me falam. Se um dia decidir ter filhos e o corpo não permitir, posso adotar e meu desejo maternal vai ser realizado no momento certo. Ou se decidir não ter filhos, posso levar uma vida com menos rotina do que uma criança exige. Posso também decidir ter filho num ímpeto e carregar um rebento até o fim do ano. Mas não respondo hoje, que não sei realmente o que quero.

Aos homens, o direito à paternidade também é dado. Mais ou menos. Ninguém pergunta quando o homem — solteiro ou não — quer ter filhos. Se ser pai solteiro também é possível, por que poucos realizam? Por que poucos são encorajados? Por que a procriação é responsabilidade feminina — assim como o casamento? O Ricky Martin e o Cristiano Ronaldo queriam filhos oriundos de sua genética. Os dois contrataram barriga de aluguel e, por isso, foram rotulados de homossexuais (como se ser gay fosse defeito e/ou fosse condição para a “maternidade/paternidade”). Ricky Martin é gay e Cristiano Ronaldo, parece (não sei sobre sua vida afetiva, na verdade), não é, embora isso não importe. Importa que os dois se empoderaram (eita palavra da moda!) e decidiram eles mesmos sobre a paternidade, como tem de ser, como conquistada pela revolução sexual.

Aos que me perguntam sobre minha vontade de ter filhos, podem continuar perguntando. A pergunta não é ofensiva, nem me faz mal. Não acho que ninguém queira julgar as outras através dessa pergunta. O contexto, os implícitos e as imposições de papéis que a pergunta suscita, sim, esses acho que não fazem mal a mim, mas fazem mal à condição feminina. Sei que para muitos é difícil que alguém da minha idade não saiba sobre sua própria reprodução, mas não saber é o que tenho de mais honesto para responder.

Não vou responder a essa pergunta [sobre ter filhos estar entre as suas prioridades]. Não estou furiosa por terem feito essa pergunta, mas já disse diversas vezes: duvido que alguém faça esse tipo de pergunta a um homem.” (Zooey Deschanel)

Esse texto foi inspirado em alguns outros textos:

Felizes sem filhos

Não ter filhos por opção

10 coisas que toda mulher sem filhos já ouviu” (e é tudo real!)

O amor (qualquer amor) é esforço

Hoje eu li um artigo do El País que dizia uma coisa bem interessante: “Para se apaixonar por qualquer um, faça isso” [AQUI, na versão original]. Só de ler o título, o povo já pensa bobagem, desde “Oba, vou desencalhar facim” até “Não me meta nessa psicologia barata de jornaleco”. Como pensei nas duas bobagens — e nas variações entre os extremos — achei que valia o click e li.

A autora, Mandy Len Catron, explica como usou um experimento que promete amor fácil em sua vida. É bobo, mas ela faz alguns insights interessantes sobre as relações humanas. Primeiro, ela conhecia o desconhecido (o que o experimento não sugeria), embora só conhecesse, mesmo, não tinha nenhum tipo de proximidade. Depois, ela foi cheia de curiosidade científica sobre o experimento (vai saber qual era a intenção do outro, não é?) para saber se, POW!, o amor acontece. O experimento sugeria que o casal se fizesse 36 perguntas (que iniciavam de forma genérica e evoluíam para perguntas bastante pessoais) e, depois, se observasse, em silêncio, por quatro minutos, se encarando, mesmo. O fato é que estão namorando e blablabla whiskas sachê (para quem quer encurtar a história). Como na maior parte dos textos, o que me interessou nesse foi justamente o conjunto de observações que a pesquisadora fez, detalhando suas reflexões sobre esse desconhecido, o amor.

Se meu texto não te interessa mais, beleza, podes imprimir as 36 perguntas e ir à luta [AQUI as 36 perguntas].

Se ainda estás dispost@ a saber minhas considerações sobre o amor, ou a explicação, enfim, do título, senta aí, que vamos continuar a brincadeira. Mas com um pouco mais de prolixidade (sou eu, afinal).

Vamos começar com uma premissa: ao contrário da garota escrevente ao longo desse artigo, o amor, para mim, é necessariamente algo maior do que uma relação de casal; isso significa dizer que vou falar de AMOR(ES), porque amamos muito e amamos muit@s.

A primeira reflexão que a garota encontrou sobre o experimento é que o amor é ação. Ela disse isso em função de que havia uma predisposição dos dois em avaliarem o “experimento” e que a curiosidade e a vontade de se relacionarem com alguém motivou a ação do amor. Nesse sentido, o amor é voluntário, eles foram buscar conscientemente, com suas escolhas, o amor. Se apaixonaram porque quiseram.

Ao longo das perguntas e respostas do experimento, ela se deu conta de que, em pouco tempo, o nível de intimidade era alto e os dois se comportavam como adolescentes, ou seja, sem filtros. Parece que a falta de abertura que temos é, pouco a pouco, imposta pela idade e, pela minha observação, nossa tendência é limar a possibilidade de se dar a conhecer e de ser generoso e acessível aos demais. O estudo também sugere que, em algum momento, as duas partes envolvidas revelem três coisas que agradaram no outro, ou ainda, sugere que exista admiração, mesmo que provocada.

É lógico que ela se deu conta que eles “pularam etapas” de forma rápida, mas isso favoreceu o surgimento do relacionamento. No texto, a parte mais bonita é quando ela descreve o olho-no-olho, falando que as pupilas emocionam (e colocou o cronômetro, para fechar os quatro minutos do experimento). O sentimento dela é assim descrito: “Me sentí valiente y en un estado de asombro“. O cronômetro tinha motivo: olhar nos olhos aterroriza e, provavelmente, não haveria quatro minutos nessa brincadeira silenciosa — eu diria até que, num suposto caso brasileiro, as perguntas poderiam ser reduzidas pela metade e o olho-no-olho poderia ser de trinta segundos, já que (parece que) temos mais facilidade de nos apaixonarmos.

Agora, falando sério e retomando esses entendimentos de Dona Mandy, quando olhamos nos olhos? Quando nos damos a conhecer? Em geral, nos vejo como bobos, estúpidos e medrosos, em se tratando de nos mostrarmos abertos aos amores da vida. Somos, quase todos, aquela canção do Erasmo, “Minha fama de mau”. De outra forma, parece que nos enchemos de filtros ao conhecer as pessoas ou a medida que vamos ficando mais velhos. Não importa se nas relações de casal, de amigos, de família, de colegas; temos de ser duros na queda!

Cabe ressaltar que não sou exemplo para ninguém e, por ser meu blogue, faço minhas considerações sobre uma leitura reduzida às minhas experiências e absolutamente parcial. Vale dizer, ainda, que, para mim, todos os afetos são potenciais amores, embora poucos desses afetos tenham pesos e profundidades. Mas prefiro chamar de AMOR mesmo, porque as outras nomenclaturas estão (ainda mais) banalizadas e o AMOR ainda conta com um quê de sagrado (“está sacramentado / em meu coração“, como diria o Djavan).

Pessoalmente, sou bastante afetiva e, como qualquer pessoa, tive alguns reveses e acabei tentando manter minha fama de má. Com um pouco mais de idade, decidi ser honestamente eu, o que já era bem difícil. Embora ainda um pouco reticente, tento fazer com todas as pessoas que conheço o que diz o artigo de nossa querida Mandy: “esa especie de intimidad acelerada que recuerdo del campamento de verano […]. Con 13 años, […] parecía natural conocer a alguien tan deprisa”. Em outras palavras, tento me dar a conhecer e mostrar às pessoas que elas parecem divertidas (sim, pessoas bem-humoradas me fazem um bem!), legais, admiráveis, amáveis e isso é alegria para mim. Esse é o primeiro passo para qualquer amor, com qualquer pessoa que venha a fazer parte de minha vida.

É lógico que algumas vezes as pessoas confundem minha falta de filtros (ou simpatia gratuita) com puxa-saquismo barato e fogem de mim. Mas depois penso que, se não é para compartilhar, que não fique mesmo. Quero pessoas que não tenham medo de pessoas e que não tenham medo de ser gente. Às vezes, a falta de uma ou outra pode ser cruel, mas estar de bem consigo ainda é a melhor experiência de vida, pelo menos para mim.

Enfim, acho que o amor é fácil (e o experimento prova isso), mas as pessoas não. hearts unbrella

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