“O feminismo é o contrário da solidão” e por que Tiburi está certa

Hoje ouvi a entrevista que Manuela D’Ávila fez, na semana passada, com a Marcia Tiburi e fiquei pensando tantas coisas sobre meu feminismo, em como ainda sinto tanta dificuldade de ser mulher e na falta de paciência com homem fazendo homice. Não é de hoje que relato isso, tenho sido até meio monotemática.

Mas, durante a entrevista, fiquei viajando em dois temas, que logo explico. O primeiro ponto é o peso da cultura sobre os desejos que nós, feministas empoderadas, tomamos, ou seja, podemos ser empresárias, donas de casa, enfermeiras, ter ou não filhos, ter ou não relacionamentos e essa liberdade é ótima, mas que muitas de nós desejam os sonhos femininos do patriarcado (casar, ser mãe, exibir um homem, enfim). Não quero dizer que a gente não possa nada disso, podemos, lógico, isso e muito mais. Mas a questão é por que, justamente em função de fazer parte do imaginário da mulher ideal, nós, que refletimos tanto sobre ser mulher, nos revolucionamos tanto tantas vezes, ainda desejamos formas do patriarcado. Em outras palavras, minha dúvida é como o feminismo pode imprimir uma verdadeira ruptura com essa cultura, para que nossos desejos e opções sejam mais livres e repitam menos esses padrões. “Ah, mas a mulher pode ser mãe, se quiser, não há mal nisso”, podem me dizer. Sim, eu sei, concordo. Não estou falando da mulher, estou falando de decidir por a ou por b, dentre tantas opções, a partir de um imaginário que a cultura sempre lhe impôs, após rever e repensar sua condição. A mulher pode tudo: inclusive escolher as formas típicas do patriarcado é conquista do feminismo; mas o quanto o feminismo mexe com nosso imaginário e nossos desejos mais profundos, além de sua produtividade, é algo que ainda não sei mensurar. Fiquei pensando nisso, enfim, e posso não ter entendido nada de feminismo, desculpa, gente.

A segunda coisa que pensei ouvindo a entrevista é a frase da Marcia no livro “Feminismo em comum”, um livro simples (até trabalhei partes dele com minhas alunas), que apresenta uma síntese impressionante: o feminismo é o contrário da solidão. Não tenho muito o que explicar sobre isso, porque essa síntese resolve boa parte dos problemas que tive com o meu feminismo. E, por essa frase, vou contar uma situação bem delicada pela qual passei em abril de 2019 e acho que é importante dividir para que as pessoas entendam o que significa ser feminista e não estar só.

A Escola em que trabalho foi pichada durante um fim de semana de abril de 2019 e o fato repercutiu um monte. Vou linkar a reportagem do Sul21, porque prefiro que tu clique lá do que na Record, no SBT ou na Gaúcha. A reportagem AQUI. Muitas coisas chocaram a comunidade, além, lógico, da insegurança: muitos dizeres sobre “Suzano voltará”, em referência ao massacre da escola em Suzano, São Paulo. Mas o que mais apareceu não foi sobre Suzano e, sim, sobre misoginia. Além de ofenderem As alunAs, três professoras e o diretor foram citados, em ameaças. Uma das professoras, eu: NINA VO TE COME. Antes de qualquer coisa, fiquei decepcionadíssima com a ortografia e disse: “Não pode ter sido meu aluno!”. Entrei na Escola, na segunda-feira, indo para a sala de aula, e alguém me parou no corredor para dizer todo o incidente e o que tinham pichado sobre mim na quadra. E eu fui dar aula. Não sei como, mas fui e achei que meu lugar era aquele mesmo.

A situação toda foi super trágica, os colegas com medo, todos muito nervosos e consternados, alguns colegas, totalmente sem clima para trabalhar, tiraram licença saúde. A comunidade em que trabalho é a campeã de incidência de violência contra a mulher em Porto Alegre. E, tonta e burra, eu não tive receio de nada. Todo mundo fragilizado, dizendo que eu poderia contar com a pessoa; e eu estava feliz de ter gente ao meu lado, mas não me sentia vulnerável. Entrei em todas as salas que tinha para entrar e disse, com o peito aberto: “não posso explicar um crime, porque não fui eu a criminosa”. Não tive medo. Fui altiva o tempo todo. Claro que minha reação inicial foi ingênua e desmedida, pois ficar apreensiva e fragilizada significa, dentre outras reações naturais, senso de sobrevivência. Ao longo da semana, tive de ir à delegacia, fizemos atividades para valorizar a paz e um monte de arranjos importantes para que as crianças e suas famílias fossem acolhidas e se sentissem melhor, porque todos nós fomos violados. Isso é super importante e acho que o coletivo de professores acertou. Gostaria de salientar que a violência sofrida foi uma violação: invadem um espaço coletivo, ameaçam as pessoas que ali convivem, continuam frequentando esse espaço (não todos, mas a maioria dos agressores eram alunos).

Mas esse movimento, para mim, naquele momento, era pensado e refletido sob a ótica profissional. Pessoalmente, estava bem, tinha coragem, me senti forte. Tive de falar sobre o assunto com cuidado com minha família, que realmente temia por mim. E, por causa das reações dos que estavam preocupados, passei a ter um pouco mais de cautela e de cuidado. Em função das pessoas próximas e dos conselhos do terapeuta e da polícia, achei prudente tirar uma semana de licença e assim o fiz. Expliquei aos alunos que essa era uma medida solicitada pelos profissionais da delegacia, mas que estava bem. Meus alunos me encheram de amor. O tempo todo. Tive afeto e admiração durante o tempo todo. E me senti uma mulher mais forte. Nem todos os colegas tinham esse aporte que tive, mas eu tive e, porque tive, fiquei em pé.

Um mês depois, com a ajuda do meu amigo Dani (que trabalha no mandato da Deputada Rosário), da Polícia, do DECA, acharam os quatro meninos envolvidos no crime — algumas pessoas chamaram o incidente de vandalismo, para mim, não, é crime, sem termos paliativos. Os meninos faziam ou fazem parte do movimento jovem de uma igreja evangélica e há boatos de que lideranças dessa comunidade avacalham os professores da Escola, especialmente os que têm opiniões. Esse, sim, foi um ponto delicado para que entendesse e questionava: a) o que faz uma igreja se colocar contra uma escola?; e b) por que eu?.

Seis meses antes, organizei um seminário para debater como as eleições funcionam (setembro de 2018) e por que a democracia é importante. UM membro dessa igreja (há várias outras no bairro e apenas essa confronta a Escola) se sentiu ofendido em função de achar que eu estava doutrinando e ameaçou (no Facebook e na SMED) As professorAs da Escola. Minha chefia pediu que eu deixasse de dar esse seminário, que não tensionaria com quem fez a crítica e ficou por isso. Embora tenha ficado incomodada com a postura covarde, entendi que não seria muito prudente me colocar na berlinda, especialmente sem respaldo.

Após o incidente da pichação, dois ou três meses depois, um grupo de alunas pediu para fazer um grupo de meninas fora da aula, para que eu “ensinasse a elas a serem feministas”. E minha primeira pergunta a elas foi: “de onde tiraram que sou feminista?”, já que, após o caso das ameaças no período antes da eleição, do caso das pichações e sabendo da violência recorrente às mulheres na comunidade, quase não me manifestava abertamente a tema algum e não falava tacitamente sobre feminismo. E elas disseram que elas sabiam que eu era, porque minha postura dizia isso. Saber disso foi um aconchego sem precedente.

Toda essa história — que até parece ser de superação, mas não é, é de alguém que foi acolhida e que, por isso, acha que entende um pouco sobre o que faz e sobre onde faz — contempla um episódio de uma mulher que, por seu feminismo, não se sentiu sozinha. E, por não se sentir sozinha, teve altivez. E, por ter altivez, serviu, um pouco que seja, de exemplo.

O feminismo é civilizatório. E, por ter saído desse episódio sem dores, mas com aprendizados (e minha reação foi considerada como a única “estranha” no grupo de professores), acho que fiquei bem (não darei crédito para os anos de terapia, hahahahaha). Em todas as vezes que me perguntaram como eu me sentiria se tivesse de ficar frente a frente com qualquer um dos que cometeram o crime, sempre achei que, ao me encarar, eles mijariam as calças.

Melhor do que isso: nenhum dos quatro garotos era meu aluno; eu estava certa, desde o primeiro dia. Ou seja, meu feminismo ecoa para além das paredes das salas em que trabalho e é por causa dele que não estou só.

*** Não estou contando uma história para dizer como sou forte, porque nem sou muito. É difícil me manter em pé, sei meus limites, tropeço muito e tento lidar com isso. Estou dividindo UMA situação de fragilidade em que o suporte afetivo foi o ponto de estabilidade e colabora com a prova da tese feminista sobre solidariedade.

Autor:

Dinda, tia e "sora". Uma mulher ordinariamente comum, que tem qualidades simples e defeitos reles.

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