Tinga, a igualdade e o ódio

Ontem houve uma situação muito triste no jogo do Cruzeiro, que foi a violência racista contra o jogador Tinga. O Tinga é gaúcho e fez uma linda história nos times grandes da capital do RS. Hoje, o Facebook e o Twitter apareceram cheios de mensagens solidárias e #FechadosComOTinga reverberou até nos tweets da presidenta. Tudo muito justo.

Image

O peso do racismo é algo que provavelmente nunca sentirei, quer dizer, não no Brasil. Como o Tinga falou de uma forma tão clara e profunda sobre isso, vale repetir sua declaração, para didatizar e tornar compreensível o sentimento: “Eu trocaria todos os meu títulos pelo fim do preconceito. Trocaria por um mundo com igualdade entre todas as raças e classes” (essa é a citação que o Estadão publicou).

É interessante perceber muitas nuances difusas nesse episódio. A primeira é que o racismo é muito combatido: nenhum veículo aprovou a atitude racista; mesmo os que são minas de ódio, divulgaram solidariedade ao Tinga e mostraram perplexidade com a situação. E é isso que esperamos dos veículos de comunicação, afinal.

O segundo aspecto que eu abordaria é decorrente do primeiro. Sabemos que vivemos em um país racista, todos repetem isso, mas existe uma tolerância ao racismo nos meios de comunicação — nos mesmos veículos que condenaram as atitudes da torcida no Peru. Penso que essa tolerância é ao racismo sutil, ao racismo misturado com preconceito social. Então, o racismo midiático, segundo essa lógica, quando é vestido de racismo, é feio; quando é vestido de segurança pública (para ficar num exemplo mais óbvio), é bonito.

Um parênteses para ilustrar o problema: no meio das discussões sobre cotas na universidade, me questionava sobre a necessidade ou não das cotas, porque realmente não entendia como a ação seria positiva e tal, além disso, temia que a educação básica fosse totalmente abandonada em função das cotas — já que a educação básica responde por muitos problemas de acesso à universidade. Houve um argumento que me fez compreender o problema. Uma pessoa próxima, formada em engenharia elétrica por uma universidade federal, me disse que ao longo do curso não teve nenhum colega negro. Tudo bem, o RS não tem um contingente de pessoas negras como tem a Bahia, por exemplo, mas NENHUM, em cinco anos, foi meio chocante para mim. Na universidade pública, fiz Letras. Tive duas colegas negras e uma nem brasileira era. E somente a partir da conversa mencionada, tive consciência desse racismo mudo; porque não é uma discriminação de uma pessoa contra outra, é uma discriminação de pessoas dentro de um sistema. Entendi, então, que as cotas não resolveriam o problema, mas não fazer nada pioraria ainda mais. Fecha parênteses.

Hoje, entendo que há uma luta de classes no nosso país. Éramos muito mais pacíficos quando as classes estavam lá, nos seus lugares, quando os oprimidos sonhavam em ser os opressores. Parece meio retrógrado pensar assim, mas estou visualizando cada vez mais essa luta, ainda que não seja tão dicotômica quanto pensa a maior parte das pessoas, ou como foi (transcrita) no passado. É uma luta dinâmica e diferente de como foi há algum tempo, porque estamos passando por uma situação sui generis, que é a diminuição da desigualdade social, ou o aumento de igualdade.

Em primeiro lugar, é lógico que o racismo contra o Tinga seja tão escandaloso: quando nos sentimos mais iguais, não aceitamos essa violência que salta aos olhos com tanta facilidade. Quando o Mussum era chamado de “cromado”, “azulão”, “grande pássaro” (esses eu vi na Wikipedia), é lógico que não havia ofensa direta à pessoa do Mussum, mas havia racismo; e as pessoas que viam Os Trapalhões assimilavam esse racismo como cultural, às vezes como piada cordial, inclusive. Não havia escândalo, porque a desigualdade era o que as pessoas estabeleciam como natural.

Essa luta de classes é multifacetada, pois não há um sujeito, um estereótipo. Há vários rostos — ainda que uns mais vulneráveis que outros — , de vários tipos, com várias histórias, sujeitos que “não são adequados” para pertencerem à classe média, de acordo com a “velha classe média”. Só que as pessoas com “menos classe” se tornaram consumidoras e boa parte de sua cidadania emergiu daí. Quer dizer, se a regra para a discriminação é a classe e se a classe é reflexo da saúde econômica do vivente, então os desiguais se aproximaram. Não estou dizendo que a desigualdade acabou. É lógico que não. Não estou falando, também, que ascensão só por via econômica soluciona os problemas que temos (em muitos casos, só torna um problema calado mais visível). Mas as tensões começam a aparecer, pois agora não é só a questão econômica que faz as classes diferirem  (ou o que isso hoje signifique).

A melhor situação para ilustrar esse mal-estar é o caso recente da professora da PUC-RJ ou “aeroporto ou rodoviária?” (diz o comentarista do Estado, José Roberto de Toledo: “Uma parte importante da sociedade brasileira incomoda-se com a novidade de um mercado de massa que nivelou o jogo via acesso quase universal ao consumo. Os incomodados não são os super-ricos, que continuam inalcançáveis. A aproximação dos que vêm de trás perturba quem já estava no meio e se sente igualado ou até superado por quem chegou agora e já quer sentar na janelinha“).

Pode parecer que eu esteja misturando maçãs com laranjas quando falo do racismo e da luta de classes. Nesse sentido, penso que o nosso país é muito difuso, que o problema de uma área tem comportamento semelhante em outra e que reações conflitantes podem ser observadas em grupos que eram — há algum tempo tratados — mais ou menos homogêneos. Os mesmos professores de universidades que gastavam sua verborragia em favor da igualdade, hoje dizem que não há mais glamour para voar. Ou seja, o lema para a “velha classe média” é de que queremos igualdade, mas não queremos com gente de “menor categoria”. A “nova classe média” são “os outros”, ou são “a gente diferenciada”, que dizia a moradora do Higienópolis. Nossa “nova classe média” realmente não leu Machado de Assis. Também não escutou Carmina Burana. Nunca viu Hamlet. A “velha classe média” tampouco fez tudo isso, mas age como se fosse muito erudita. E ainda por cima não quer dividir o assento no avião.

Para ilustrar essa “luta de classes”, basta ver a falta de cordialidade que a elite cultural paulistana reagiu à declaração (sincera!) do prefeito (bonitão 😛 ) Fernando Haddad: “Hoje, infelizmente, temos um poder econômico amesquinhado e empobrecido do ponto de vista espiritual, mas muito rico do ponto de vista material” (isso quem veiculou não foi o Estado, foi a BBC). Outro exemplo, mais divertido, é o tumblr “Classe Média Sofre” (que eu achava tão verossímil, mas tão verossímil, que custei a entender que era piada! mas é, tá?!)

O Tinga falou sobre uma coisa que está bem na moda no Brasil: a igualdade. Tão na moda, que a gente anda querendo em toda a parte que a gente vá. Que achamos absurdo quando ela não está lá, disponível. Mas quando vemos que a igualdade é exercício de humildade, de esforço, mesmo, percebemos uma legião de pessoas que não admite sair de seu pedestal sócio-econômico, que acha que é muito lindo ser “classe média” e não aceita que dela outros façam parte. Descobrimos, recentemente, que isso gera ódio e luta de classes. Minha digressão parece exagero? É absurdo? Não creio. Até os “nobres” deputados fazem incitação à violência contra “os outros” e isso não é mentira. Basta ver o vídeo AQUI  e a reportagem AQUI.

Como diz o José Simão, o brasileiro é cordial.

Anúncios