O homem frágil

Essa semana aconteceram alguns bate-bocas nos espaços legislativos sobre direitos que foram protagonizados por mulheres (ei-los: 1, 2, 3, 4). O feminismo sistematizado das décadas de 1960 e 1970, organizado teórica e civilizatoriamente, permite que hoje (quase) todas as meninas do ensino médio entendam mais sobre seus corpos e suas escolhas. Mais do que isso, permite que elas possam fazer (algumas) escolhas (pelo menos). Sempre faço ressalvas entre parênteses, porque sabemos que há locais em que essas ideias não chegaram e a desigualdade social também opera no âmbito do pensamento de sociedade que pode ser difundido. De toda sorte, esses episódios dos bate-bocas foram, para mim, salutares para mostrar que o futuro é feminista, ou não será. É óbvio que estou reduzindo, porque há um montão de outros predicativos do sujeito para completar essa oração. Nesse sentido, o futuro é antirracista, ou não será; o futuro é diverso, ou não será; o futuro é LGBT, ou não será; o futuro é sustentável, ou não será; o futuro é mais solidário, ou não será. Enfim, há vários predicativos, mas o que mais me cabe, ou do que mais me aproprio para falar é sobre o feminismo. (Tu não contava com uma aulinha de gramática aqui, hein, confessa.)

Quando escrevo sobre o homem frágil — e estou falando do homem heteroafetivo, aqui, é preciso explicar — tenho de mencionar esse homem que bate-boca com essa mulher e se mostra totalmente despreparado. Esse homem que precisa encontrar outros homens para serem chamados de “destemidos e honrados” e se reforçarem no grupo, porque têm medo de chorar, de vacilar e de serem qualquer coisa fora de um script minuciosamente desenhado. É tanto medo, mas tanto medo, que eles precisam ser o Johnny Bravo, não como uma piada de desenho para crianças, mas como se fossem reais: egocêntricos, vaidosos (sobre sua aparência ou não) e inseguros. Mas nossos Johnnys precisam, ainda, rechaçar o protagonismo feminino. Eles se irritam quando são refutados por um igual, mas não conseguem se controlar quando são refutados por uma mulher — que, na sua lógica, não são suas iguais — e ficam atordoados com chiliques. Esses homens fazem piadas machistas, acham graça de qualquer coisa que deprecie outra pessoa por temáticas sexuais e estão fragilizados, especialmente, porque, de muitas maneiras, pararam no tempo, não se desenvolveram e estão apegados a qualquer coisa prototípica de papéis e não conseguem ser diferentes. Deve ser torturante. Não falo sobre os relacionamentos afetivos desses homens, porque são, em alguma medida, uma pro forma para serem heterossexuais.

Há outro tipo de homem fragilizado pelo feminismo. É o homem que aceita o feminismo e reconhece a opressão causada à mulher. Sobre esse homem, cabe falar em relacionamento heteroafetivo, porque ele gosta de estar com mulheres, mas quer ser o menos escroto possível e se modifica pela relação e pela empatia. É um homem que não precisa de pro formas, mas de relações e quer entendê-las. Ele muda perspectivas e busca mulheres feministas para se relacionar. Essas mulheres dominam o discurso e, em boa medida, são protagonistas de suas vidas. Mas, pouco a pouco, esse homem que sabe que o espaço delas tem de ser garantido, se diminui. Ela decide pelos dois, ela estabelece os parâmetros, os sonhos do casal são dela, os encaminhamentos de futuro são dela. E ele acata. A decisão de casamento, de contrato afetivo, de filhos, de compra de bens, de viagens, de tempo conjunto são decisões delAs. Com o passar do tempo, homens feministas vivem a vida que não querem, assumem papéis que nunca desejaram, assistem o destino acontecer. Os papéis de opressão se repetem, mas pela balança da vingança.

Numa perspectiva histórica, é natural que as evoluções femininas e masculinas não andassem em par, o que licita muita gente dizer que “mulheres são mais evoluídas que homens”, na atualidade. De outra forma, há quem diga que, para haver equilíbrio, tem de haver algum desajuste, e esse é precisamente tal momento. Essa é uma perspectiva que não me autorizo a aceitar, em função de que a revolução feminista está em curso e atingindo a todos. Além disso, o tanto que o feminismo é capaz de atingir é bastante pessoal e singular, ora, nunca sabemos a capacidade de uma e um feminista ser feminista do ponto de vista prático, pois isso depende da permeabilidade do princípio de equidade do ponto de vista prático e teórico. E, por fim, entendo que o machismo é de todos, fomos criados a partir dele e todos temos de combater nosso machismo diariamente. A mulher que oprime não faz porque quer e ela não é femista de propósito: ela está encontrando seu espaço a partir de um desequilíbrio que ela já conhece: um lidera e oprime, o outro obedece e é oprimido. O homem que aceita isso também o faz por lógicas afetivas e advindas da experiência pessoal: “é preciso reparar o que fizemos às mulheres“.

Numa perspectiva parcialmente análoga, vejo que se fala muito na reparação ao racismo. Essa reparação tem de ser através de práticas individuais antirracistas, é óbvio; mas me parece (estou tateando uma hipótese) que a reparação social seja mais importante, mais necessária, mais contundente e mais efetiva do que a reparação individual. O vizinho racista só pode ser punido se os operadores das leis e o sistema o condenarem, se ele sofrer algum constrangimento oportunizado pelas instituições. De outra maneira, apenas se a situação privada se tornar pública e publicizada. Em alguma medida, acho que o maior reparador do machismo tem de ser, também, as instituições e a sociedade. Nesse sentido, penso que os casais que vivem o dilema de serem mais ou menos feministas têm razão, porque o problema é, também, íntimo; porém, no meu ponto de vista, precisam entender que a maior reparação que essa mulher pode ter não é ter a chance de oprimir ser parceiro, mas de ter oportunidades sociais e públicas da mesma ordem que seu parceiro.

O homem machista frágil é um produto desejável para o machismo. Seu controle e seu comportamento delimitados e prototípicos ajudam a manter oprimidos e opressores nos seus lugares, organizam a sociedade, estabilizam status. É mais fácil viver onde cada um sabe seu papel, afinal. Mas a vida não é assim e eles têm medo toda vez que algo foge a sua lógica. As feministas, ao longo de séculos, entenderam, de maneira geral, que as diferenças são inerentes à vida; elas nos dizem que homens e mulheres podem ser mais iguais ou mais diferentes, e tudo bem. Mas o homem feminista oprimido e sua companheira opressora operam a mesma lógica machista em suas casas; eles, na verdade, são subprodutos do machismo. Explico por que “subprodutos”: os papéis definidos e a lógica estável são produtos desejáveis e esperados pelo sistema machista. A versão ao contrário — a mulher opressora e o homem oprimido — é um produto indesejado, mas interessante para o sistema machista, porque apenas vira os papéis, mas organiza oprimidos e opressores em roteiros sociais; é por isso, portanto, que estou falando em “subprodutos”. Ora, o machismo existe, dentre outros motivos, para tornar essas noções de competição e opressão legítimas na vida comum, no âmbito social e privado.

O desafio, na minha humilde opinião, é criar relações pessoais (relacionamentos afetivos de vida conjugal ou de amizade) mais iguais e fugir de estereótipos: mulheres são “assim”, homens são “assim”. Mas muito mais do que isso, acredito que seja papel dos homens todos e das mulheres todas o desenvolvimento do protagonismo pela equidade. Feminista somos todos que, com esforço, tentamos acreditar sempre no outro (@ namorad@, @ amig@, @ amante, @ espos@) como um igual, dono de sua vida, responsável por suas escolhas e com direitos de ser, de estar, de ir e vir como quiser. @ feminista (e, aqui, usar “o” ou “a” faz sentido) considera o diverso, porque sabe que o confronto de desejos e sonhos, o confronto de caminhos e decisões é parte inerente à vida e o caminho é o consenso. É por isso que o feminismo é civilizatório: pois ele obriga a conversa e a conciliação; ele aceita o litígio e as diferenças irreconciliáveis pela via do diálogo. Então, acredito que essas sejam as reais revoluções que o feminismo é capaz de realizar na vida privada. E eu chamo de revoluções não à toa: modificar isso na vida íntima é realmente uma mudança de perspectiva em todas as relações, é se tornar outra pessoa.

Nós, @s feministas — inclusive esse casal machista que declama feminismo, de que tanto falei para ilustrar — devemos lutar mais, muito mais, pelo seu aspecto social: equiparação de salários, equiparação de licenças maternidade e paternidade, segurança e justiça para vítimas, enfim, pautas que podem modificar pessoas num nível mais amplo e, essas pessoas, quando normatizarem as diferenças de gênero e entenderem que, apesar dessas diferenças, o direito a ter direitos é comum, poderão pensar numa vida privada de mais equidade, porque estarão inseridas num espaço menos desigual e não poderão pensar em oprimir sua e seu parceir@, porque isso não fará mais sentido na sociedade.

 

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Alalaô I (e Porto Alegre)

Sábado de carnaval e houve carnaval de rua por aqui (Cidade Baixa, Porto Alegre, RS, Brasil). Foi um amontoado de gente e blocos: na mesma rua, dois blocos. Os blocos têm de ser registrados na prefeitura, têm de passar por um crivo técnico (?) e precisam arrumar patrocínio, o que penso que é até ok (há problemas, mas enfim). Há algum policiamento e alguma organização. Esse “algum” não é à toa: é o suficiente para dizer que ali havia poder público (quase nada, mas havia), mas insuficiente para a limpeza do espaço, presença de um efetivo da prefeitura para serviços e disponibilidade de banheiros públicos, enfim, essas coisas que qualquer carnaval demanda.

No dia seguinte, sempre a mesma notícia: vizinhança irritada com os foliões, sujeira em todos os lugares, barulho para o moradores e o poder público não faz a mediação de nada disso. As pessoas que frequentam a CB (Cidade Baixa) no carnaval não são os frequentadores do resto do ano, ou até são frequentadores eventuais, mas essas pessoas vêm para cá por um único motivo: não tem mais nada em Porto Alegre nesse período. Não tem. Os bares, os restaurantes, os raríssimos eventos ao ar livre, enfim, tudo, tudo, tudo fecha ou não existe. Só tem a CB. Só tem carnaval na CB, no período oficial de carnaval, sábado e terça, ou seja, não pode ter carnaval no domingo e na segunda de carnaval na cidade. As outras datas do carnaval de rua são os fins de semana entre fevereiro e março, mas não no carnaval. Não sei explicar os motivos disso, desculpa.

O que essa montanha de gente que quer se divertir faz no domingo de carnaval? Vai para a CB. E na segunda de carnaval? Vai, de novo, para a CB. Mas não tem programação oficial e não pode ter carnaval, então eles vão fazer botellón (na Espanha, grupos de jovens que não têm muito poder aquisitivo e juntam dinheiro entre si para comprar bebida em mercearias e dançam e bebem na rua, a noite inteira). Veja bem, a pessoa gostaria de ir ao bar da moda, mas ele está fechado (porque tudo, tudo, tudo fecha) ou porque não tem grana para os únicos dois abertos (e caros, lógico), então fica na porta de um bar mais ou menos que está fechado, dividindo bebida barata e de péssima qualidade com os amigos, para poder se divertir. Tudo justo e certo, se o poder público existisse e regulasse isso; se organizasse os espaços e fizesse mediação com a vizinhança. Mas não faz e acha que as pessoas não vão para a rua porque não tem evento “oficial”. Claro que a gurizada que não pôde sair da cidade fica na rua e faz botellón. E é claro que a vizinhança reclama para a polícia, que vai jogar gás de madrugada nas pessoas dispersas no meio da rua, que vai causar mais baderna e, enfim, todos se ferram.

O primeiro problema é não haver poder público. Não precisa ser esperto para prever que domingo e segunda de carnaval (sem nenhuma atividade de carnaval e com as mesmas pessoas de sábado e terça na cidade) serão dias de aglomeração na CB. Mas o poder público municipal não sabe, só manda avisar que não vai ter nada. E o único poder público que fica sabendo e age, só resolve na hora que o conflito está instaurado, usando bomba de gás (de efeito moral, adoro esse nome “efeito moral”).

Há outros problemas: uma porção de adolescentes menores de idade bebendo até cair no centro da cidade é uma situação gravíssima, porque não afeta só o desconforto do vizinho, mas se configura em um crime. O poder público municipal não se mete a debater isso, embora seja de sua competência. Os adolescentes não sabem (pasmem, isso é verdade) da proibição de que menores comprem e ingiram bebida alcoólica [anedota sobre o tema: uma vez avisei para alguns alunos que a escola não participaria de festa “open bar” de formandos de ensino fundamental, porque escola pública não poderia sequer apoiar uma festa em que está implícito que haverá consumo de bebidas por menores e um aluno começou a falar grosso comigo, dizendo que os pais dele autorizavam e ele ia levar autorização e ele queria ver eu barrar isso, daí mandei ler o ECA e entender que a professora não era coleguinha dele e tals, enfim, acontece]. Não há atividade de conscientização ou blitz para barrar menores ou atividade com conselhos tutelares. A prefeitura não se importa que sejam menores, não se importa que bebam na rua de madrugada, não se importa que vão passar mal com gás. Nem se importa com a reclamação dos vizinhos. Só quem se importa com os vizinhos é a Brigada Militar (polícia).

Esse ano, um dos jeitos para resolver foi mandar quase todos os blocos para a orla (fora do carnaval, lógico, porque, como já disse, blocos de carnaval, no carnaval, só sábado e terça, e são bloquinhos pequenos, de moradores, praticamente). Não é a solução ideal, pois gentrifica (gentrificar significa criar ordenadamente segregação urbana ao “expulsar” de regiões tradicionais seus moradores) o bairro cultural e carnavalesco da cidade. A CB é berço de todos os primeiros blocos de carnaval que existiram em Porto Alegre, especialmente pela quantidade de terreiros e quilombos presentes nessa região e esse é o motivo pelo qual o carnaval na orla deveria complementar o que a CB não suporta, não o contrário, ou seja, manter na CB os blocos menores e apenas organizados pelos moradores, como está fazendo a prefeitura. Existe, nesse meio, um robusto grupo de frequentadores do carnaval da CB que não é necessariamente morador do entorno, que está vinculado ao bairro e que deveria (eu acho) se manter no bairro (vide Bloco da Laje e Bloco da Diversidade).

Eleger a orla como o ponto de carnaval (sem discussão prévia) me parece um desrespeito pela história do carnaval e da cultura na cidade. A vizinhança tem razão em muitos motivos e, em vários casos (blocos muito grandes, por exemplo), a orla pode ser a melhor saída. Mas o cerne do problema não é o carnaval, a vizinhança, o botellón. O núcleo do problema é não haver poder público para intermediar os pontos de vista durante o processo e participar só na hora de jogar bomba de gás.

No caso espanhol, alguns botellones foram proibidos. Mas as prefeituras organizaram espaços adequados para que outros pudessem surgir com segurança, atendendo os lugares frequentados pelos jovens e de fácil acesso (nossa “gestão” da prefeitura pretendia fazer isso aos sábados de madrugada no Largo Glênio Peres — como chegar até lá?). A CB é o espaço para o carnaval e para o botellón, é onde os jovens podem se encontrar mais democraticamente. O que custa atender às demandas das populações da cidade, através de diálogo e sem esse viés totalmente segregador?

ADENDO (05/03/2019, terça-feira): Estou lendo os grupos virtuais de vizinhos da Cidade Baixa e só reclamam: barulho de gurizada, barulho de bomba e barulho de banheiro químico. Pedem um bairro calmo, sem festa, sem gente na rua, em que possam “tomar chimarrão na rua com sua família” (não inventei, juro). O que fica meio perdido nessa história é que a Cidade Baixa é mais segura porque TEM gente na rua, porque TEM festa e porque TEM movimentação, ou seja, toda essa função atrai mais policiamento e mais segurança de maneira mais coletiva. Se não, seria a Auxiliadora, a Glória ou o Teresópolis sem as ruas e avenidas principais e seus moradores estariam muito mais vulneráveis. Lógico que tem de organizar a bagunça. Mas a CB é a CB por causa dessa “bagunça”. Gente chata para C#$%2LHO!

(r)evolução

Sempre que começa o período de férias, venho dar uma passada por aqui, porque escrever, para mim, exige tempo, embora os textos sejam muito pensados, muitas vezes antes de começarem a existirem. E os textos são longos, porque não é só que eu seja complexa, é que sou prolixa. Muito prolixa.

Antes de escrever, me revisito.

E, esse ano, discordei de tantos pontos de mim mesma no passado que foi muito engraçado. Engraçado, porque quando isso acontecia em outros momentos, a minha tendência era ter vergonha de mim e querer apagar tudo, afinal, a que está retratada aqui não sou mais eu.

Pela primeira vez, estou aceitando que não sou mais eu em algumas coisas. Continuo eu em outras. E não vou apagar nada, porque tudo aqui tem data e tudo bem mudar com os anos.

A mudança é a única certeza. Cada olhar vai vendo um pedaço diferente de vida. E, finalmente posso dizer a mim mesma: tudo bem.

Tu já falou sobre aborto hoje?

Pois é, hoje todo mundo está falando sobre o aborto, já que está havendo audiências de uma ação no STF sobre sua descriminalização. Daí surge a pergunta: tu é a favor do aborto?

Não. Ninguém é, de cara, a favor, na verdade.

Acho que o tom do debate, pelo menos entre os “pró-vida”, os defensores da família (?!?), os religiosos, deveria começar por aí. O que está em jogo, nesse processo, é apenas UMA coisa: não permitir que mulheres sejam presas por terem praticado aborto.

Sou contra o aborto e, muito provavelmente, só recorreria a ele nos casos previstos por lei (e mesmo assim, correria muito o risco de ser presa, já que há relatos de mulheres que tiveram autorização e foram presas depois, porque outro juiz resolveu criminalizar). Mas o que faz com que tanta gente que sempre cagou para seu entorno — miséria, misoginia, violência — resolvesse, então, deliberar sobre o aborto e “defender a vida”?

Em primeiro lugar, poderíamos dizer que a lei, tal como está, é incompleta; afinal, o aborto costuma ser decidido (seja via abandono, seja via consenso) por duas pessoas, os responsáveis pela concepção — mas só uma tem chance (real) de ser presa. Ninguém “pró-vida” fala sobre isso. Sejamos honestos: ninguém.

Se a lei para de criminalizar, os “pró-vida” podem debater o aborto e atacá-lo no seu âmago com mais propriedade: o que leva uma pessoa a abortar?, onde está a rede de apoio para fazer a gestante realmente decidir?, que tipo de ajuda institucional há para quem opta por seguir a gestação e dar a criança para a adoção (vide JUNO)?, como superar o abandono paterno?, como uma mulher lidaria com uma criança advinda de um trauma (pode não haver estupro, mas há vários homens que ficam muito violentos quando descobrem a gestação)?

Quem quer discutir o aborto e “defender a vida”, tem de começar por aí. Ouvi falar sobre UMA paróquia no Rio que trabalha com aconselhamento de gestantes de baixíssima renda que cogitam abortar.

Isso, sim, é ser cristão: lida com o problema e tenta acolher a mulher vulnerável, sem apenas julgar. Porque, independentemente da classe social, uma mulher que deseja abortar (ou simplesmente cogita a hipótese) é uma mulher vulnerável. Os religiosos e moralistas não cuidam dela. Não cuidam do bebê. Julgam, mas não condenam os homens que abortam.

Mas se dizem “pró-vida”. Na verdade, não são.

São pessoas pró-concepção e pró-encarceramento.

Só acredito nos “pró-vida” tipo a Elba Ramalho, que poderia estar cuidando das filhas e cantando, mas, além disso, trabalha voluntariamente no aconselhamento e acompanhamento de mulheres gestantes que estão em vulnerabilidade social. Elba não vai a essa paróquia cagar regra para as gurias, vai ouvir, ajudar e acolher.

Ser contra o aborto passa por esse tipo de atitude. Se tu queres tanto pressionar politicamente para que o aborto não ocorra mais, cria coletivos de cuidados de gestantes, ajuda com um fundo de amparo financeiro e psicológico a elas, cria campanhas de conscientização de paternidade e de responsabilização do homem nesse processo, escuta-as, pressiona o judiciário para que facilite a adoção ainda no período de gestação. Um monte de coisa se pode fazer!

Isso, sim, é ser pró-vida, sem aspas.

Do contrário, tu és apenas alguém pró-encarceramento. E tudo bem. Mas poderia assumir, que fica menos feio.

Das desigualdades

Enquanto vivo, costumo me fazer muitas perguntas. Isso pode não ser bom, às vezes é meio catastrófico; mas viver, para mim, tem a ver com me questionar. Parece uma coisa muito linda essa de se questionar, mas geralmente não é. Juro que viver sem perguntas é melhor. Mas quem disse que eu consigo? Bosta. De novo.

Ultimamente ando pensando nos meus próprios preconceitos e, no extremo oposto aos meus preconceitos: no quanto me amo e me admiro. Peraí. Uma pessoa que se questiona deveria ser elevada, altruísta, um exemplo, não essa exibida aí. Mas isso não acontece sempre e posso garantir que se questionar tampouco é garantia de progresso. Adoro a pessoa que sou, às vezes adoro menos, mas costumo achar bem legal ser eu e, enfim, tenho admiração por algumas coisas em mim. Modéstia falsa não tem nesse blogue, não, já há muito tempo (LINK AQUI). Isso não significa dizer que pense que sou modelo para alguma coisa — NÃO SOU! — também não significa dizer que sou muito certa e muito lúcida — TAMBÉM NÃO SOU. Significa dizer apenas que estou ok na minha pele.

Cheguei aqui para dizer que essa postura não é boa sempre e que ela ainda me surpreende. Achar meu lugar no mundo, de alguma forma, me cega para algumas questões ao redor. Admirar quem me tornei por mim mesma acaba reforçando uma característica horrorosa e cínica que é a crença na meritocracia, da qual tento fugir avidamente. Às vezes, acho mesmo que tenho mérito. E esse texto é para dizer, dentre outras coisas, que erros são circunstanciais e acertos também, ou seja, há muito menos mérito do que acreditamos. Estou usando essa linha de pensamento para mostrar como funcionamos politicamente.

Politicamente? Sim. Desde o dia que inventei de pensar que sou tri, me coloco em uma situação (que pode ser moral, cultural, financeira, o que for) de elite. Só cheguei nesse ponto, na verdade, porque tive recursos. Pode ser que tenha subido alguns degraus que outras pessoas não quiseram ou sequer conseguiram, mas tive chances. Ser uma pessoa “melhor” (e o que é “melhor”, não é mesmo?) passa por ter oportunidades, recursos e chances. Alguém disse, há alguns anos, que não era para eu ficar com um colega porque ele não era “do meu nível”, referindo-se ao fato de que ele era meio galinha, eu acho (a adolescência já aconteceu há taaaaanto tempo…). Hoje estou observando o fenômeno e, honestamente, talvez eu tenha tido exemplos, explicações, chances de pensar que poderia ficar com garotos “meio galinhas”, mas não investiria em namoro, porque, sei lá, eu “merecia” coisa melhor.

Estou referindo uma situação pessoal para que todo mundo entenda onde quero chegar no “merecimento”. Todos “merecem” ser pessoas melhores, mas será que dependem exclusivamente de seu esforço? O quanto somos realmente capazes de modificar nossas rotas e conseguimos evoluir? Acho que nossa capacidade de sermos melhores parte das ferramentas de que dispomos. O que será que conseguia o colega “meio galinha”? Quais eram seus repertórios de relacionamento para ele ser “melhor”? Quem nunca teve nada, nada pode oferecer e talvez — muito provavelmente — também mereça ser feliz e viver bem.

Bem, esse é um texto político, afinal. Vamos tentar, então, materializar na ideia dos recursos financeiros essa noção de merecimento. O que uma pessoa que nada tem, que nasceu não tendo nada, que viveu sem conhecer nada, que não teve proteína para realizar sinapses, o que essa pessoa merece? Porque essa é uma concepção prévia que tenho: essa pessoa não tem nada. E passa sua vida achando que merece nada. E chama o que nós dizemos que é “nada” de “tudo”.

Com frequência me pergunto por que ainda milito e por que ainda sou de esquerda — já que tão moderada me comporto. Ultimamente, acho que sou de esquerda porque não tenho mais suportado as desigualdades. E vivo um paradoxo, pois também sei que a igualdade é uma ficção. Tenho entendido que meu pavor é o abismo social, não alguma desigualdade. Quando tivermos desigualdade, volto a pensar nisso. Mas eu sou de esquerda e milito e acredito e sofro com isso porque é pavoroso viver num mundo de abismo social. Porque eu gostaria de ter o direito de reclamar que minha vida é uma merda, mas tenho banho quente e ar condicionado. Porque eu queria dizer que sou uma mulher foda, mas tive carne e comida farta ao longo de quase toda vida, isto é, realizei sinapses.

A pessoa que pode menos do que eu não se esforçou menos. Ou melhor, pode até ter se esforçado menos, mas ela tem os mesmos direitos de ser uma pessoa tri, como eu tento ser. Ela deveria ter muito mais chances do que eu. Ela deveria se sentir muito mais foda do que eu às vezes me sinto. Quero dizer que, além de ela ter o direito de ser nutrida fisicamente, de ter direito de comer e ter saneamento básico, ela deveria ter o direito de não ser carente de nenhuma maneira. E quero dizer que desejar diminuir drasticamente a desigualdade é formar uma sociedade melhor, porque quem come realiza sinapses e pensa em si e pode ser uma pessoa melhor.

A desigualdade — ou melhor, o abismo — social é nossa maior chaga como país, como civilização. Essa mácula faz alguns de nós acreditarem que são melhores, têm mais méritos, deveriam ter mais sucesso do que outros. A imensa desigualdade social produz pessoas ricas em dinheiro que reclamam da falta de conforto e, essas mesmas pessoas, acabam sendo pobres de espírito: acreditando numa direita burra ou gananciosa contra o povo. Eu continuo sendo de esquerda, mesmo sabendo que muitas revoluções devem acontecer dentro de mim, ainda. Continuo de esquerda porque tento ser solidária e porque sinto que esse “merecimento” dos que nada têm é uma desculpa para o desumano e para a barbárie.

É prepotente dizer isso, mas tive oportunidades de pensar sobre e hoje acho que luto, mesmo, assim como tantos antes de mim e ao meu lado, “pelo belo, pelo justo e pelo melhor do mundo”, que poderia ser chamado de “luta pela civilidade” e “pela humanização das pessoas”. Alguns vão dizer que isso não é ser “de esquerda”, mas nesse mundo louco que estamos, é sim — não é a direita que está defendendo o ser humano e não há, nesse momento histórico, “direita progressista”, por exemplo, para que a gente tivesse condições de dialogar ou, até, de relativizar o papel fundamental da esquerda.

Continuo à esquerda. (E como dizem os companheiros, os camaradas e os coleguinhas — porque não tenho nomenclatura, mesmo:) Seguimos.

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Los que comen bien, duermen bien y tienen buenas casas, posiblemente piensen que el Gobierno gasta demasiado en políticas sociales.” Pepe Mujica

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“Bella ciao” não é à toa.

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A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.” Eduardo Galeano citando Fernando Birri
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Respeito?

Nós, pessoas de esquerda, temos penado nos últimos anos. Vocês sabem. Temos evitado conflitos nos nossos meios sociais e tateamos muito até saber se o amigo é sinistro e se com ele poderemos compartilhar ideias. A gente só rebate as ofensas; usa o motivo da ofensa alheia para chamar o outro de coxinha; evitamos a briga gratuita. Isso não é à toa. Funcionamos pela reação desde que nos constituímos como esquerda e — pasmem — acreditamos na diversidade do pensamento e no contraste das ideias porque sabemos que durante muito tempo os que militaram antes de nós se ferraram. Por entendermos que nosso desafeto momentâneo tem raízes profundas, evitamos o engodo. Porém, também nunca quisemos ser hegemônicos, porque sabemos que isso é falso. Todos somos assim? Não. Mas, dentro da nossa diversidade há alguma unidade, ou melhor, há pontos em comum para um número significativo de sujeitos e o espírito democrático ou radicalmente democrático (em que a democracia não seja tratada apenas como um momento que ocorre a cada dois anos, durante a eleição) perpassa quase todos nós. Enfim, queremos pobre na universidade, queremos trabalhador no aeroporto, queremos que a doméstica compre carro e queremos isso tudo porque entendemos que esse conjunto de medidas: a) é direito; b) enriquece a sociedade como um todo; c) ganham todos os envolvidos pessoalmente; d) diminui a desigualdade; e e) beneficia direta e indiretamente o país como um todo. Esses são nossos argumentos e nunca nos omitimos de discuti-los, aprimorá-los, repensá-los, conjecturá-los. Nós, diversos entre aS esquerdaS, aceitamos o debate, mas ele foi, pouco a pouco, parando de fazer sentido quando começaram a nos chamar de petralhas, defensores de corruptos e outros “apelidos” que surgiram, exatamente, para acabar com o debate. Diante desse simplismo burro, não há argumentos e silenciamos.

Tudo bem. Fomos nos resignando e resignando até demais. Denunciamos o golpe, resistimos a ele como conseguíamos, mas não sabíamos como lutar contra “o Supremo e com tudo”, como disse, profeticamente, Romero Jucá. Sua conspiração foi explicada minuciosamente em rede nacional e totalmente esquecida por quem não é “petralha” ou “defensor de corrupto”. Esse mise-en-scène do impeachment tinha um objetivo maior que é tirar Lula da eleição. É óbvio que, se Lula, o maior líder popular do mundo nesse momento, tivesse 2% nas pesquisas, sua prisão não aconteceria, já que seu processo é péssimo na sua constituição jurídica (e não adianta dizer que ele passou por muitas instâncias e por isso é correto, pois se tem uma coisa que não é imparcial no país é a “Justiça” e tu sabes disso). Lula é preso político e, de certa forma, uniu as esquerdas em nome da legalidade.

Nós, daS esquerdaS, temos essa opinião. Mas não pedimos para vocês — os contra “tudo” que está aí (que duvido que saibam definir o que é “tudo” ) — apoiarem Lula. Nunca lhes pedimos nada. Não convidamos vocês para manifestações. Não enviamos “piadas” para o grupo da família do WhatsApp em que chamam nossos antagonistas de burros ou doentes mentais (piadas? no meu tempo tinham outro nome) em nome de partido nenhum — a maioria de nós nem filiada a partido é, acredita?!?. Não pedimos defesa ao Lula. Não pedimos defesa à Dilma. Não dizemos que compre o que é considerado o melhor arroz da América Latina, o arroz produzido pelo MST. Alguns de nós pode ser mais bélico e menos tolerante. Mas a grande maioria de nós não ofende vocês. Por acreditar no espírito democrático — que vocês parecem desconhecer, dado o comportamento fascista –, não queremos silenciar vocês.

Ontem, pacificamente, Lula foi para a prisão nos braços do povo. Uma cena linda e triste, do ponto de vista do que significam nossas lutas. É o único político que representa tão bem quem nós somos que pode sair nos braços das pessoas. Ele cresceu nesse momento. Vocês nos chamam de burros e de idólatras. Na verdade, não. Nós fomos os críticos mais severos de Lula, sabemos de seus defeitos e achamos que ele e Dilma fizeram pouco, porque, para nós, tudo seria muito pouco depois de quinhentos anos de exploração. Não fomos implacáveis, pois tínhamos a solidariedade e a empatia que nosso campo político ensinou a ter, valores que os antagonistas não aprenderam, infelizmente. Lula representa um coletivo, representa a chance do povo. Uma chance que, na verdade, esse povo (ok, eu sei que tu não te consideras povo por se achar de classe média, mas tu és também) não tem, mas acredita. Lula não é um líder. Lula é uma projeção genuinamente brasileira e a projeção de vocês, infelizmente, vem de uma ficção elitista estadounidense. Tudo bem. Temos visões diferentes e sempre tivemos.

O que não dá para engolir são essas mensagens de respeito que vocês estão exigindo. Agora? Depois de nos avacalhar entre os nossos durante tanto tempo? Uma hora depois de nos ofender com suposta piada no WhatsApp pedem paz? Nesse momento, inclusive, aprendam a ter respeito na rede social e no WhatsApp, na mesa do bar e falando com o motorista de Uber. Não cobrem de nós o que nunca nos deram. Quem fez “piada” que pudesse gerar ódio foram vocês, não nos culpem pela comoção e pelo inconveniente social. Se não querem a antipatia, não poderiam semeá-la. Deveriam, por outro lado, ter respeitado seus filhos, pais, amigos e colegas que pensam diferente. Nós ainda acreditamos que as diferenças podem enriquecer, quando civilizadas. Guardem sua falta de gosto primitiva para vocês. Não falo sobre as supostas piadas à toa: elas têm sido o maior guarda-chuva dos covardes que fogem do debate, mas precisam alfinetar as esquerdas (na figura de Lula, especialmente) sem assinar embaixo. Sua covardia aparece na irresponsabilidade e na falta de inocência do “foi só um meme”, “era só uma piada”.

Não ofendo o contraditório. Nunca ofendi. Mas também não posso nutrir respeito pela discórdia, pela falta de empatia e pela própria falta de respeito. Não há como estar perto de quem não se coloca minimamente no lugar do outro, mesmo que esse outro seja um próximo muito próximo, mas divergente. Funcionamos pela reação. E nós, das esquerdas, suportamos muito antes de reagir.

 

no sufras
porque ganaremos,
ganaremos nosotros,
los más sencillos
ganaremos,
aunque tú no lo creas,
ganaremos
(Pablo Neruda, “Ode al hombre sencillo”)

 

“Artigo 5º”, de Ian Ramil

“Horizontes”

Nasci em Porto Alegre, mas fui muito cedo morar em São Paulo. Voltamos e eu, com sete anos,  já comemorava que estava de volta ao lar. Porque minha família próxima estava aqui e aqui achava que eu era eu (sei que é difícil nomear essa sensação de pertencimento tão jovenzinha, mas é isso).

Voltei num momento em que a cidade estava, de alguma forma, recomeçando. Era uma das primeiras experiências do PT nas capitais (vivi a da Erundina em São Paulo e, mesmo bem pequena, me lembro e lembro o boicote que ela tinha para governar) e foi tão bem sucedida que as governanças se repetiram. A cidade como um coletivo estava me recebendo, não apenas minha família.

Na escola, aprendi a canção “Horizontes” (“Há muito tempo que ando / nas ruas de um Porto não muito Alegre / e que, no entanto, me traz encantos / e um pôr-de-sol me traduz em versos“) e estava muito feliz por não ter vivido esses tempos ruins aí da música. Achava, honestamente, que tínhamos aprendido a ser felizes, porque a cidade me dava muito. Ia ao parque, tinha escola boa, íamos a vários shows regionais e nacionais grátis, minha família tinha suporte — o que meu pai, paulista, chamava de “gente demais se metendo na nossa vida” era uma base sólida de apoio e de amor que eu adorava entre os “gaúchos”. Meus irmãos, paulistas de nascimento, achavam lindo ser gaúchos. Não tenho muito saudosismo e não vejo minha vida infantil muito boa, na verdade (devo confessar que, pessoalmente, nunca fui tão feliz como sou agora; minha infância, em função dos conflitos com meu pai e da dificuldade de minha família administrar isso, foi uma bosta), mas a cidade, ah, a cidade era melhor.

Na adolescência, fiz muitas atividades de graça. A guria sem grana para trocar o único sapato furado fazia cursos de teatro, lia os autores da cidade, frequentava diversos espaços nos dias de passe livre, conhecia os museus, assistia shows, participava dos eventos na Feira do Livro, conversava com estrangeiros e abria sua mente nos Fóruns Sociais. Essa guria usufruía da cidade que a prefeitura dava. Elogiava, ufanista, sua cidade. Queria que todo mundo viesse morar aqui, porque a cidade estava se abrindo, tinha atividades e estava se ampliando. Participei de formações nos Fóruns de Educação e vi grandes pensadores mundiais (Saramago e Galeano discutindo “utopia”, por exemplo: olha o luxo!) sem gastar mais do que a passagem (a verdade é que onde eu morava ajudava muito, porque muitas atividades eram no “pátio de casa”, no Parque da Redenção, e eu sequer gastava a passagem).

Os governos do PT se esgotaram politicamente: não ofereceram novidades, as pessoas estavam acostumadas com vários direitos (e, logicamente, queriam mais), a crise financeira de repasses da União tinha iniciado e o nome de José Fogaça — que estava associado ao centro-esquerda — era visto como pouca mudança: “ele vai agregar ao que já temos”. Em alguma medida, essa mudança de rota não foi horrível, mas os espaços começaram a diminuir. A iniciativa privada estava bancando outro modelo de governança e ele tinha de devolver o investimento de campanha, ainda que aos poucos. Foi o que aconteceu. Em nome da “modernidade de gestão”, os espaços foram diminuindo e a cidade estava menor para nós, os cidadãos, a cada novo pleito.

Eu continuava iludida, porque achava que, sei lá, os espaços deveriam seguir existindo, talvez só fosse eu que não usasse mais. Não fui só eu a iludida, claro. Aos poucos fui percebendo que aquele espírito de solidariedade, civilidade e abertura estava se perdendo. Eu ainda dizia para meus amigos: “vem morar aqui, é bom! mas nós, gaúchos, nem sempre somos, veja bem, os mais hospitaleiros… ah, a cidade compensa!“. Uma prefeitura que não se importava com o desenvolvimento do cidadão em todos os bairros, de forma integrada, estava criando nichos. E, em algum momento, percebi que passei a ter vergonha de andar no Moinhos de Vento, por exemplo, porque era pobre.

A prefeitura foi desenvolvendo uma gestão, não um governo. As atividades pararam de serem criadas. Às vezes, casos como som alto em espaço público (a vizinhança reclamava, o espaço era inadequado) gerava um conflito que precisaria ser negociado; bem, mas isso é típico de uma cidade. E, aos poucos, então, tudo o que gerava discordância era minimamente mediado, mas a decisão, com maior ou menor demora, acabava sendo: “tá, vamos tirar esse evento daí, essa atividade daí, essa cultura daí, porque o cidadão está sendo afetado e está reclamando”. O cidadão, nessa perspectiva, passou a ser um cliente que tem de ser servido, afinal paga IPTU e a prefeitura tem de devolver serviço. Veja bem, essa não é uma leitura totalmente equivocada, mas mais do que agradar seus “clientes”, a prefeitura deveria fomentar que a cidade dê mais a todos os que nela vivem, mediando, negociando, ousando, regulamentando. Assim, a cultura foi pouco a pouco sendo delimitada, os espaços de convivência diminuíram e as diferenças da cidade não se viam mais, estavam cada vez mais nichadas.

De toda sorte, ainda havia respiros. A prefeitura ainda geria. Ainda fazia algum governo. Não do jeito que eu e mais um monte de gente acha certo, mas fazia. Agora, não. Agora fomos tomados pelo ranço. Fomos tomados pelo: “não tem dinheiro“, “não vamos fazer nada“, “tá incomodando, vamos acabar” — uma gestão à moda Rogerinho do Ingá [LINK] e [LINK], aliás, o personagem é bem mais tranquilo do que o destempero do “gestor”. Não há governo e isso não é incompetência, é projeto. Diminuir a prefeitura e sua atuação é o compromisso desse “governo”. O negócio de gerir, dentro dessa lógica, é dar apenas os serviços mínimos da forma mais mínima e barata possível, porque não há dinheiro. Governar uma cidade passou significar rifar esse espaço, fazer caixa indevidamente e bradar (quase que doentiamente) que não há recursos — mesmo com aumento significativo de arrecadação. Volto a dizer, pode parecer preguiça do município; não é, é projeto. A falta de zeladoria, a não comunicação com o cidadão (percebe que nem “cliente” o cidadão é mais?), o desrespeito com os mais pobres, o abandono das periferias, o descumprimento deliberado das leis, o aumento da população de rua, a manutenção de buracos nas vias, a negação de comida para as crianças da creche são só os exemplos mais grosseiros que aparecem no jornal — eles não estão apaziguados nem com a mídia local, que é, ainda, sua assessoria de imprensa mais fiel. A gente está saindo de uma gestão antipática com alguns setores para uma gestão que é ruim, é malvada, é canalha com a pessoa que mora em Porto Alegre.

Há duas semanas, acompanho uma briga da vizinhança do meu bairro — Cidade Baixa (CB), o bairro mais boêmio da cidade — com os blocos de carnaval. Os moradores reclamam da sujeira deixada pelos foliões e os estabelecimentos comerciais não querem aceitar “gente desse nível” em seus espaços. A periferia perdeu o carnaval. Perdeu, perdeu, mesmo. A prefeitura acabou com o desfile das escolas de samba de Porto Alegre. As tradicionais muambas já não vão acontecer. Não tem mais nada ocorrendo nos projetos de descentralização. Sobrou a CB. E nessas circunstâncias, com ou sem carnaval descentralizado: que venham para a CB. Esse virou o único espaço de carnaval da cidade, claro que as pessoas vão vir para cá. E, com isso, é lógico que mudou o público. Essas pessoas ficaram sem espaço e têm de ocupar a cidade que é delas. Nos anos anteriores, houve combinações prévias, reclamações dos moradores, apoio e patrocínio da prefeitura (com contrapartidas dos blocos, também), mas houve mediação e alguma negociação para que o carnaval acontecesse. Com reclamações (em muito maior escala do que nos anos anteriores, que sejamos justos), houve carnaval. Esse ano, está um caos. Entendo os moradores que reclamam da sujeira excessiva, da falta de dispersão, do barulho. Mas agora a prefeitura cobra patrocínio externo para os blocos passarem, os blocos passam e acabou. A parte de gerir a segurança, a limpeza e a organização do ambiente fica com ninguém; ou alguém acha que tem poder público na folia? O bloco, cliente desse (des)governo, fez a parte dele e lava as mãos. Nada mais é coletivo, o espaço não é de todos; embora, na hora da festa do bloco, pareça cinicamente que a rua é de todos. E a vizinhança fica puta. Essa (falta de) gestão do município deseja que o caos tome conta. E logo, logo, o carnaval da CB vai acabar, porque dá muito problema. E eles não vão precisar mais trabalhar e se incomodar. E quem tiver vontade de se divertir no carnaval que fuja da cidade — a verdade é que muita gente já faz isso há algum tempo. Nesse pensamento de gestão, não precisa ter convivência, não precisa de atividades coletivas. Quem não pode pagar, que não tenha. E não reclame. E não resista. E não mije no chão mesmo não havendo banheiros químicos suficientes e a festa dure cinco horas.

Essa alegoria que contei, tendo como pano de fundo o carnaval da CB, pode ser replicada para a Educação. Para a Saúde. Para a limpeza de bueiros. Para a Assistência Social. Para a mobilidade urbana. Para a festa do Ano Novo — que não existe mais e ninguém mais passa a virada em Porto Alegre (só eu, trancada em casa, porque me pélo de medo de sair nesses dias). O jeito “novo” de governar — que é, na verdade, dar de ombros à sociedade — está sendo aplicado igualmente em todas as demandas da cidade, não é fato isolado do carnaval. Estamos tão abandonados que não somos mais clientes. Nesse caso, não dá nem para dizer que alguém se beneficia, que a elite se mantém intacta. Até eles se fodem; mas menos, porque não dependem do fomento da governança local para se constituírem.

Percebe que não estou pedindo novos atrativos, geração de turismo, novidades culturais, cursos acessíveis? Não é essa nossa demanda atual. Mas deveria, porque deveríamos e merecemos ter mais. Nesse momento, estamos solicitando que devolvam nossa cidade. Que não tratem o cidadão com migalhas. Por isso, repito outra vez mais: ferrar o cidadão e tratá-lo com maldade é o projeto de governo.

No meu caso, estou ferrada duplamente, como municipária e como cidadã, que não foi embora dessa cidade porque tem aquela família do início do texto que dá suporte e amor e, também, porque já me fixei por aqui. Mas não quero que nenhum amigo venha morar aqui, não. Amo vocês e, por isso, fujam. Está uma merda, mesmo. Estou vivendo a época ruim da canção “Horizontes”. Estou sendo (os municipários em geral, mas pessoalizo, porque é assim que nos sentimos) tratada como grande culpada pelas finanças municipais e, se vissem em que condições (desde que entro no ônibus antes das sete da manhã, até chegar em casa à noite) vou trabalhar, iam dizer que, além de receber salário em dia, deveria ser indenizada mensalmente.

Queria escrever aqui que falta um governo municipal de esquerda, mas não. Faltam vários. Mas falta principalmente um governo. O que essa gente está fazendo contra a cidade é, literalmente, criminoso. Uma gestão não vai consertar quase nada. De todo modo, quero minha cidade de volta, nem que seja só para andar nela normalmente. Nem que seja só para ir e voltar do trabalho e viver um pouco. Nem que seja só para tomar água da torneira — isso já foi possível em Porto Alegre. Interessante dizer que há, inclusive, partidos participantes do atual governo avacalhando a gestão atual. Quer dizer, eles não conseguem agradar nem os seus pares. Não há para quem esteja bom, só para a meia dúzia que critica a falta de dinheiro do Paço — parece que seu trabalho é esse: reclamar doentiamente das impossibilidades do presente e gritar ensandecidos que não são culpados pelo passado.

Aquele meu ufanismo do início do texto era infantil e bobo, mas era melhor do que essa vergonha pela qual estamos passando. “Horizontes” (Flávio Bicca Rocha) parece que vai ficando atual, de novo. Meu arremedo de paródia, para a atualidade, poderia ser assim: “Dois mil e quatro, dois mil e seis / Dois mil e dezoito, um mau tempo talvez / Os anos dez, não deram pra ti / E, nos anos vinte, eu não vou me perder por aí”.

Juro, vou tentar não me perder e não perder mais ninguém por aí.