Feia, e daí?

Olá, amig@ feminista, sei que tu já vais dizer: “para com isso, o fato de não ser padrão não significa que você seja feia! se ame, você é linda!”. Entendo perfeitamente teu raciocínio e acho importante falar sobre isso com TODAS as mulheres. Todas somos lindas? Não. Somos fortes, interessantes, diferentes, uma infinidade de coisas. Bonitas, ou melhor, fisicamente bonitas, não. E tudo bem. Outro detalhe importante: esse post não é para pedir a vocês, leitores, elogio. Esse post é uma desmistificação da beleza como valor e vou usar meu exemplo para mostrar minha tese.

Minha primeira questão sobre o tema, para explicá-lo, é que beleza é uma seara muito particular. Se há padrões de beleza, eles são particulares e individuais; logo, não há padrão. O “meu” padrão para definir o que é bonito é bem fora da expectativa do senso comum. O Bon Jovi velho, com rugas e cabelos brancos me parece muito mais bonito e interessante aos olhos do que ele quando jovem, por exemplo. E não tenho interesse por grisalhos (ou quase nunca). E não estou considerando que, na juventude, ele usava roupas de metal farofa (hoje consideradas bregas para car***o). Estou dizendo que as feições atuais parecem mais naturais e harmônicas e acho isso bem bonito.

Falando sobre mim mesma: sim, me incomoda ser gorda. Sim, me incomodam meus traços. Sim, há vezes que gosto deles, mas são poucas. Sim, me maquio eventualmente e acho que muitas vezes a maquiagem melhora — afinal é para isso que ela existe. Se tu me conheces, pode discordar das minhas opiniões. Já expliquei que o julgamento de beleza é intangível. Acho que lidar com isso — me acho feia, mas gosto de mim — pode causar estranhamento, mas entenda o ponto de vista. Há algumas coisas que posso fazer para melhorar meu aspecto para mim mesma (estou fazendo exercícios regularmente e cuido minha alimentação, por exemplo, embora não ache que ser gordo ou magro sejam questões necessariamente ligadas à beleza física), mas o aspecto geral não me torna bonita, ou não me sinto bonita. Devo dizer, ainda, que não há complexos em ser feia, ou em não ser bonita. Nunca tive problemas para me relacionar ou nunca fui complexada com minha figura, seja para flertar, seja para ir à praia (dilemas tão difíceis para as meninas de outrora e de hoje).

Não gostar dos seus traços é uma questão de… gosto. E só. Para mim, para meus padrões, há uma gradação que vai dos extremos: de lind@ a horrível. Acho que isso é comum a todo mundo. No meio da minha classificação virtual, está o limbo, de pessoas normais, que não chamam atenção por nenhum dos extremos. É lógico que uma pessoa legal, divertida, aprazível vai ficando mais bonita à medida que convivemos com ela e o contrário também pode ocorrer. Mas na minha classificação virtual, fisicamente, estou no limbo para mais feinha. Me sinto até normal, embora com pouca harmonia. Acho que sou bem na média e, conseguindo comprar roupas que combinem (como encontrar uns vestidos frescos no verão e uns casacos interessantes no inverno — veja bem, isso nem sempre foi fácil), está de bom tamanho.

As vezes que me sinto mais bonita ou menos feia não têm relação com a roupa que visto, por exemplo. Já me senti melhor vestindo só moletom (ou andando como uma mendiga em casa) ou com jeans e camiseta, quase sempre de cara lavada. Quando vou a festas, me maquio e uso roupas de festa, mas aquela não sou eu. Não me reconheço ali. Pode ser que às vezes fique melhor do que seja naturalmente, pode ser que não. Bem, percebe-se que a vaidade não é minha marca. Mas a vaidade também não é condição para beleza ou para feiura. Em geral, a vaidade acaba sendo uma forma extra de cuidar de si, seja física, seja emocionalmente. A vaidade pode mudar a percepção que uma pessoa tem de si, mas, honestamente, conheço poucas pessoas que ficam muito mais bonitas porque são vaidosas.

Há algumas coisas em que me sinto muito bonita. Assim, como pessoa, sou imodestamente muito bonita. Acho que tenho empatia, que sou amiga dos amigos, que não meço ninguém pela minha régua, que sou acolhedora, que sou humana, que sou espirituosa, que sou humorada e um pouco piadista. Claro que nem tudo sempre, mas penso que sou assim, como descrevi, em muitas ocasiões na vida. Não sou essencialmente humilde, mas não me vejo melhor do que ninguém. Acho que tudo isso me faz bonita. Não fisicamente bonita, mas bonita. Não sou vaidosa com o que é palpável, mas sou orgulhosa da vida que levo. Essa beleza não física tampouco é tangível, é um jeito de ver beleza com um olhar particular, ora, como se vê qualquer beleza. Aqui não é uma compensação de mim comigo mesma, é uma forma de se julgar, apenas. Neste caso, é minha forma particular de avaliar minha beleza particular. Há pessoas lindas por dentro e por fora, há o contrário e há uma infinidade de possibilidades entre esses dois extremos.

Olhar fisicamente pessoas bonitas, lógico, é super bom. Pessoas bonitas são fisicamente interessantes e isso, para mim, não está diretamente ligado a flerte ou a sexualidade. Já vi homens lindos, de parar para ficar admirando, mas que não me via nem chegando perto para ser amiga, porque o interesse era apenas plástico. Uma pessoa bonita pode ser tão plástica e artística como uma obra do Picaso (sem piadas cubistas, por favor), uma sinfonia de Beethoven, uma peça de Shakespeare, um solo de Pepeu Gomes.

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LOTERIA

Estava me dando conta de que, desde que a vó faleceu, a MegaSena é um fenômeno totalmente inexistente da minha vida. Mesmo quando a vó não pedia, eu acabava jogando os números dela, numa insistente obediência burra. Quer dizer, por amor fazemos coisas insanas, mesmo. E chamo de insano não no sentido de criticar jogar numa loteria, mas de fazer uma coisa sem simplesmente saber por que faz e continuar fazendo.

Muito bem. A vó morreu e eu parei de jogar na loteria, como que magicamente.

E daí? E daí fiquei tentando achar significado para a vó querer passar a vida tentando ganhar na loteria e eu não. Bem, o sentido da loteria na vida da vó não tenho como precisar. Poderia divagar sobre isso, mas vou tentar divagar sobre por que isso já não faz parte de mim.

E descobri. Porque sou rica. Porque ganho um pouco na loteria todos os dias. Passei um finde ótimo, regado a risadas com amigos: ouvimos boa música, bebemos boa cerveja, comemos boa comida. Passei um dia com minha ex-aluna, que é minha amiga, que me conta a vida, que divide confidências, que entende que a vida é bonita apesar de tudo, que gosta de ficar perto. Mateei, cantei, amei e tenho feito muito disso nos últimos dias.

As pessoas têm me encontrado e sido generosas não porque perdi uma referência de vida e estão com pena (quer dizer, não quero acreditar nisso, na verdade, porque que de última para ambas as partes, né?), mas porque estão dando o que têm de melhor e tenho aprendido a receber. Citei esses últimos dias apenas porque lembrei de relacionar à loteria da vó, mas tenho sido acolhida imensamente, amorosamente e divertidamente. Há vários dias, de vári@s querid@s.

O bom humor, para mim, é a coisa mais deliciosa na vida e acho que as pessoas me entendem. Não adianta, para mim, querer me consolar do que não há consolo. Então dou e recebo o que se pode: bom humor, amor, sorriso. Tenho uma teimosia quase infantil em ser feliz.

Nenhuma situação incômoda ou desconfortável sobrevive no meu corpinho (corpanzil, melhor): o que não serve tem de ser mudado; se não consigo mudar imediatamente, aprendo a conviver até modificar e deixo de ser infeliz. A infelicidade e a tristeza não habitam minha vida: nem por escolha, por natureza minha, mesmo; por inatismo. Todo mundo nasce para brilhar e, como diz a canção, “this little light of mine / I’m going to let it shine”. Não que eu seja iluminada, mas há alguma coisa de bonito que eu, aqui, humildemente, posso compartilhar. E só quero se for bonito. E só quero se for feliz. Menos que isso não é para mim. Menos do que isso não serve para ninguém.

A felicidade está ao meu lado, a um toque de telefone, num abraço, a três horas de ônibus, numa lembrança, num vídeo, num timtim… E ela não me abandona, por teimosia, mesmo. Para que MegaSena?

É tempo de amor. É tempo de dor.

Bem, nem todo mundo acompanha a atividade do blogue e do Facebook e muita gente, que nem sabe quem sou, cai aqui.

Em primeiro lugar, seja bem vind@, não importa de onde, não importa quando.

Mas você não sabe — ou sabe — que ando tendo dias de adaptação. Minha avó faleceu há dez dias e estou aprendendo a viver sem um pedaço fundamental da minha vida. Ela, logicamente, é fundamental (é, assim, no presente, porque embora não seja física, continua presente) pela referência de caráter, de pessoa, de afeto, de apoio que me deu ao longo dos 34 anos que ora apresento. Perder alguém que é insubstituível e preenchia minha vida não tem sido fácil e, por isso, tenho reaprendido a viver. Sabe por que “reaprendido”? Vou explicar. Nos últimos anos, minha rotina era ver a vó quase diariamente. Ver, saber, ouvir, perguntar, me preocupar, me ocupar, organizar as demandas dela, cuidar, olhar, tocar, mexer, enfim, minha avó me enevoava e, mesmo que isso soe cansativo para quem lê, olha: que delícia que era! Não troco a responsabilidade com minha avó pela tranquilidade de viver (um pouco) menos preocupada hoje.

E daí aparecem os amigos para aliviar a vida. Tenho saído, encontrado e procurado pessoas que me fazem bem em todos os últimos dias. Já tenho compromissos de trabalho e outros extras que vão me encher de atividade para que a falta da vó seja mais sentida, mas menos sofrida. Está bom fazer isso, porque há uma dor que só será curada com o tempo; porém, mesmo que o luto tenha de aparecer, não pode dominar a minha rotina. Um chorinho diário pode, mas não posso paralisar a vida por quem me deu vida em abundância junto com minha mãe e família. Saber colocar isso em prática requer exercício, requer se forçar a não ceder para o péssimo humor e requer solidariedade de quem está ao redor.

E daí aparece a arte para aliviar a vida. Hoje, logo que pensei na vó, de manhã cedo, veio uma canção do Baden Powell, que adoro, mas que fez mais sentido hoje do que nunca: “Ah, bem melhor seria / Poder viver em paz / Sem ter que sofrer / Sem ter que chorar / Sem ter que querer / Sem ter que se dar […] / O tempo de amor / É tempo de dor / O tempo de paz / Não faz nem desfaz / Ah, que não seja meu / O mundo onde o amor morreu”. Quer dizer, onde há amor, há conflito, há dor, há coisas a serem resolvidas. Então, o eu-lírico diz que prefere o conflito e a dor do que a paz, que é o vazio e o nada. Que tristeza viver no nada! E acho que o Baden tem razão: tenho dor, porque tenho amor; mas bem que eu gostaria de viver sem ter de sofrer, sem ter de chorar. Quando tem de se dar, ou seja, quando tem amor, tem fragilidade e é nesse espaço incerto que nos damos a conhecer.

Estou preferindo não ter paz. Tendo de sofrer. Tendo de chorar. Tendo que me dar para um amor a mais.

“Ah, que não seja meu / O mundo onde o amor morreu”

Adoro essa canção original, porém acho a versão do Herbie Hancock com a Céu es-pe-ta-cu-lar. Essa é do Imagine Project, um disco com versões lindas. Vale conferir:

 

Ser feminista é uma urgência

Lá venho eu, (veja bem) de novo, escrever sobre o feminismo. E sempre escrevo como um fenômeno social e conjecturo e discuto como se ele tivesse a ver comigo, mas em tese. Não. Hoje vou escrever porque o feminismo é para mim, pessoalmente, é para me proteger. Sou feminista porque sou egoísta.

Queria escrever sobre o caso da Fabíola (que é óbvio que não assisti o vídeo e não tive maiores informações além de notícias), que é uma violência à mulher e, mais do que isso, a sua honra, já que ela foi denegrida nacionalmente, numa situação que poderia ter sido resolvida em família, com todas as dores e julgamentos que cabem, mas que não dizem respeito à vida social dos envolvidos. Aliás, ela e o homem que estava com ela eram comprometidos, mas ninguém sabe o nome do outro, só da Fabíola. Que merda. Mas hoje não vou defender a Fabíola. Não quero saber dela.

Quero saber de mim.

Uma pessoa próxima está sofrendo violência porque teve um relacionamento abusivo com um homem ignorante. Da relação, um filho. Desde o começo do namoro até hoje (separados há muitos anos), uma relação abusiva na potência dez. A mulher tenta reconstruir sua vida, mas vive com medo. Encontra outro parceiro — que não desenvolve um afeto totalmente saudável, mas ok, ele não a machuca fisicamente e isso já é vantagem — e esse parceiro não pode ter uma história linear com a mulher, porque afinal há um troglodita que pensa que pode mandar nela, que ela não deixou de ser sua propriedade.

É o horror. É O HORROR! Quem vive em volta, teme pela criança. Teme pela mulher. Teme pelo deboche que o homem tem da justiça. Teme o tempo inteiro e não consegue relaxar, porque a violência física, psicológica e simbólica rondam a mulher, a criança e as pessoas próximas. Mais triste é o quanto as pessoas julgam a mulher: “deveria ter feito isso”, “não poderia admitir aquilo”, “esperou tempo demais para entender que o relacionamento era abusivo” — e é lógico que todos estão certos — mas nada anula a doença da pessoa que acha que pode tratar a mulher como um ser humano inferior. Essa doença tem de ser combatida, denunciada, afetada. Nenhuma mulher tem de viver sob esse jugo, não importa o que tenham feito ou o que tenham negligenciado. Nenhuma, por mais errada que esteja, por mais vadia que seja, por mais mentirosa que seja. Nenhuma.

Fiquei chocada com a história da menina que foi estuprada por trinta homens no Rio. “Ah, mas ela era usuária de drogas”, “ah, mas ela tinha filho”, “ah, mas ela foi para o lugar onde esses meninos estavam” e não há nenhum “mas” que motive o estupro e a difamação da menina na internet. Ela poderia ser puta e poderia ter uma vida vacilante, isso não importa. Os problemas dela não explicam o estupro físico e simbólico. Ela foi violada porque existem violadores e o feminismo quer que violadores não existam.

Esses casos são extremos e, apesar disso, são comuns. Quase todos os homens que conheço já denegriram a imagem de uma mulher em algum momento, tenham saído ou não com ela. Quase todos julgam negativamente e em público, seja pela roupa, pela vida pregressa, pela forma que fala. Isso é ser abusivo e esse é o primeiro passo para que o violento exista. O exagero aparece onde a doença é naturalizada.

Que o caso próximo a mim e o caso do jornal sejam resolvidos com mais feminismo, o que significa mais igualdade e menos relação de poder. Que a gente fale mais sobre isso para conscientizar homens e mulheres e que todos entendam que são iguais em direitos e deveres.

Que eu pare de escutar esses casos. Que eu pare de viver no meio disso. Que isso pare de me afetar, porque é difícil. É difícil se sentir insegura e vulnerável, por uma escolha que sequer fiz: ser mulher.

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Monumento à Catia Abreu

Uma das coisas mais legais de morar onde moro é ter as vantagens de viver na Cidade Baixa, ter uma vida diurna e noturna relativamente vivas e, ao mesmo tempo, estar nos fundos de um prédio, bem no meio da quadra, onde se encontram os pátios dos térreos dos prédios ao redor, passando dias e noites em quase silêncio, não fosse o escarrador e sua vida afetiva exibicionista.

Meus vizinhos do térreo, senhores de muita experiência, têm um abacateiro frondoso, daqueles que a gente morre de inveja de não ter o pátio e a árvore e os frutos. A verdade é que o abacateiro até me dava certo medo, porque se um abacate caísse em um dos dois senhores, teríamos uma possível tragédia.

Mas a tragédia não vai acontecer. Acordei um feriado desses aí com o barulho de motosserras e pensei: “que bom que vão dar uma aparadinha”. Que nada. Fizeram um monumento à Catia Abreu, tosando a árvore e me tirando a primavera de passarinhos e caturritas (apelidadas de angry birds, por mim, dado seu canto idêntico ao jogo — ou seria o contrário?). Não que não tenham mais caturritas, mas elas estão distantes, agora, só escuto seus ecos. Não que o verde tenha sumido, ainda existe. Mas o abacateiro, não.

A Cidade Baixa tem deixado de ser a Cidade Baixa desde que me mudei para cá. Está insegura e, às vezes, não reconheço o perfil que havia logo que cheguei. Mas agora estão tirando meus passarinhos, quer dizer, de tudo, só está sobrando a pior parte — no caso, o escarrador.

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A moda da paternidade

Estou ensaiando escrever esse post há muito tempo, pois gosto de abordar as questões feministas pela ótica do homem. Veja bem, o feminismo não é o contrário do machismo, ou não é uma tendência que entende que mulheres devem ser contra homens. Entendemos — as feministas — que homens e mulheres devem compartilhar direitos e deveres, respeitados seus limites e diferenças físicas. Acreditamos que todos devemos ter o poder na cidadania tão igual quanto possível.

Compreendido esse pressuposto inicial, começo o texto, enfim. Com a moda da maternidade tão forte nos últimos tempos (ou simplesmente eu que cheguei na idade alvo e acho que todos procriam ao meu redor, mas é só um fenômeno da minha geração), não vejo muita gente falando sobre paternidade. Ao contrário, blogues com mulheres dando depoimentos sobre a maternidade tem aos baldes. Num mundo mais feminista, precisamos saber o que, então, o homem poderia fazer, especialmente nos espaços que nunca foram deles, ou ainda, está na hora de os homens ocuparem os lugares que eram, antes, apenas das mulheres.

Graças a uma tendência por metodologia, percebi que, ao longo das gerações, existiam, principalmente, três tipos de pais (os que não participam nem in praesentia da vida dos filhos não estarão na categoria “pais”, nesse texto): os provedores, os que ajudavam e os que dividiam as tarefas de cuidado. Geracionalmente, os provedores eram os mais comuns na época de minha avó e os mais “pra frentex” na época de minha mãe ajudavam. Cortando um pouco a linearidade que eu esperava, não observo como tendência atual o cara que divide as tarefas com a mãe. Na verdade, tenho a impressão de que houve uma estagnação entre essas gerações e o mais comum é um pai bobo, que não decidiu sobre a paternidade (a decisão de ter filhos é da mulher emancipada) e que “ajuda” quando a mulher, sei lá, precisa tomar banho.

Bem, aqui já deu para perceber que o tipo “que ajuda” é, para mim, o mais problemático, pois o que divide, ok, está de acordo com como penso e o provedor surge de um acordo machista entre ele e a mulher (e ninguém nesse caso parece se incomodar com esses papéis bem definidos). Para mim, o cara “que ajuda” é um idiota ou um cara idiotizado (sem ofensas), é um cara que foi escolhido para “quebrar um galho” e se acomoda em ser segundo plano, mas verbaliza outra coisa. Sempre tenho pena do cara quando escuto alguém perguntar para uma mãe: “e como fulano é como pai?” e ela responde: “nossa, ele me ajuda muito!”. Sinceramente, parece, para mim, que o cara vai lá ocupar seu lugar de coadjuvante e a mulher como responsável pela criança continua fazendo praticamente o mesmo que a mulher do provedor, mas com ares de modernidade e com a bobice de pegar no colo, jogar no ar uma vez e levar para a mãe, pois não sabe mais o que fazer com a criança.

O argumento para essa “ligação fortíssima” entre a mãe e o bebê é a amamentação. É verdade que é fácil gostar do seu alimento, principalmente quando se tem dias de vida. Mas a amamentação não precisa ser realizada apenas pela mãe: se o cara quiser, dá um incremento à natureza e participa do momento da alimentação. Daí falam que é uma relação primitiva a de mãe e bebê e fico procurando os tacapes da casa, por que, né? Acredito que a ligação fortíssima tem uma explicação, sim, e se chama “licença maternidade”, em que a mulher fica 24h com a criança nos seus primeiros seis meses e o pai fica esse tempo apenas na primeira semana. Mas para uma pessoa que “aceitou” ser o segundo plano na geração de uma nova pessoa e não decidiu exatamente sobre isso, essa falta de maturidade ou falta de ser adulto é, até, esperada; então, não será o tempo o único marcador de que o cara será um ajudante, não um co-protagonista.

Daí o cara vai ser pai. E quer ser tão protagonista dessa aventura quanto a mãe. O que fazer? Tem de aprender a ser pai. Nós somos ensinadas desde pequenas. Fico impressionada do quanto sei sobre gestações e questões relacionadas, só por ouvir dizer. Se ficasse grávida, mesmo que fosse tudo novo — e, provavelmente seria, pois as vivências são bem particulares — eu já teria tateado, ou já teria “ouvido falar” dos fenômenos relacionados. Homens não. Homens precisam de manual de instruções (se não quiserem ser ajudantes ou provedores), porque ninguém diz a eles o que acontece, o que fazer ou como fazer.

Para isso, louvo alguns trabalhos de divulgação da paternidade. Isso soa estranho, pois a paternidade existe desde que mundo é mundo. Ah, mas a paternidade ativa precisa fazer sentido, assim como a maternidade já faz há muito tempo. Por mais que muita gente ache piegas, o blogue português “Duas para um” é um bom exemplo de um cara que conta qual é esse negócio de ser pai e de querer participar da vida da criança. O link está AQUI. O Piangers fez livro, TED e faz grande divulgação de seus textos sobre a paternidade, evitando maniqueísmos e colocando dilemas reais (eu acho, sei lá) na vida do cara que decide dividir a tarefa de educar e criar um piá. O link do Piangers está AQUI.

Não sei o que é ser mãe e nunca saberei o que é ser pai. Mas acredito que o pessoal que deseja procriar deveria pensar ativamente em como ser um adulto efetivamente influente na vida da criança. Deve ser uma tarefa muito difícil. Hercúlea. Mas quem topa estar junto e não ser estátua só na formatura e nos aniversários diz que é uma experiência muito profunda e emocionante.

Fui encontrar os meus

Eu e tu, que fomos ao manifesto no último dia 18, estávamos lá para nos encontrar. Principalmente, para saber que não estávamos sozinhos. Porque temos passado dias difíceis.

Após o episódio do mensalão — que sabemos que não era prática isolada, que sabemos que caiu no colo do PT, que sabemos que o PT poderia (e deveria) ter dado outra volta no caso, que sabemos que não governaria se apertasse, enfim –, começamos a ficar acuados. Nossos parentes e conhecidos passaram a nos provocar e abaixamos nossas cabeças. Se levantávamos, era para defender o Bolsa Família ou o Minha Casa Minha Vida. E fomos nos cansando. E fomos nos afastando.

Sabíamos que não éramos do PT, mas de esquerda, e entendíamos que criticar era preciso. Não queríamos ser a Venezuela — embora a respeitássemos. Simpatizamos com o PSOL, analisamos a conjuntura e fomos ficando mais acuados. Assumimos que a luta tem de ser pacífica, não somos fascistas, somos democráticos, temos de ouvir o contraditório, aceitar o contraditório e cansamos de argumentar. Quisemos, enfim, ser ponderados e equilibrados. Nos afastamos mais. Nos desiludimos uns com os outros.

Até que veio a eleição de 2014. A direita já se impôs em “nós” e “eles”. Os contra e os a favor da corrupção. E passamos a não admitir Aécim apontando o dedo. Descobrimos que o problema era o sistema político, que no sistema atual não existem éticos. Entendemos que reforma política era necessária. Enfim concluímos que empresa não dá doação para campanha, ela investe (ou por que será que a Friboi doou 5 milhões para a Dilma, mais 5 para o Aécim e outros milhões para o Eduardo Campos?). Votamos na esquerda só para evitar o PSDB, mas demos mais um passo longe de nós mesmos. Votamos dando explicação. Caímos no jogo da direita.

O (não) pensamento fascista ou o reducionismo de direita é um movimento latente no mundo. Parece que estamos numa crise brasileira, mas estamos conectados. Também a direita quer que a gente pense que “isso só acontece no Brasil”, pois é mais fácil achar um salvador da pátria à moda antiga com cara de moderno. Não estamos sós, mas achamos que estamos.

Desde 2014, baixamos a cabeça e custamos a entender que éramos muitos. Quando Dilma tentou negociar, espinaframos. Não éramos base, não éramos militância. Aliás, só entendemos alguma coisa quando a situação do tudo ou nada — que vem desde 2013-2014 — passou a depender de jogadas finais. Cansamos de ver arbitrariedade atrás de arbitrariedade judicial. Vazamentos seletivos ad eternum. Aceitamos, finalmente, que política não é de bons e maus, é de gente boa e ruim ao mesmo tempo. Estamos acuados, não falamos mais nada na internet, queremos ficar de bem com todos, brigamos com os amigos. Chegou o momento do tudo ou nada. Polarizou. Todos perdemos. Pronto, vem o impeachment.

Foi por tudo isso que fomos encontrar os nossos na sexta, dia 18. Nos tornamos lulistas e dilmistas novamente porque a alternativa a isso é muito mais sacrificante, porque acaba com a Constituição, porque dá vitória à perda de humanidade e de cidadania. Cansamos ao longo dos anos, mas nos cansamos, também, de estarmos acuados. Pode ser que tenhamos acordado tarde, mas nos olhamos, sexta, sem medo, e percebemos que, se houver a concretização do golpe, haverá reação. Não estamos dispostos a aceitar qualquer coisa que fira a democracia. O golpe só não foi concretizado porque ainda somos resistentes, ainda vigiamos. Lula, se resolver, não vai resolver como gostaríamos, mas é nosso braço de luta, é, junto com Dilma, nossa jogada final para a manutenção da democracia. Não há meio termo, não há equilíbrio. Dia 31 vou, novamente, encontrar os meus. Porque sentia saudades.

 

Enquanto escrevia o post, fiquei pensando em uma canção: “Caçador de mim”, do Milton. Principalmente por causa desses versos: “Por tanto amor / Por tanta emoção / A vida me fez assim / Doce ou atroz / Manso ou feroz / Eu, caçador de mim […] Nada a temer senão o correr da luta / Nada a fazer senão esquecer o medo / Abrir o peito a força, numa procura”. Achei que fizesse sentido. se não fizer, podes ficar com o Milton, que é um chuchu e dispensa comentários.

 

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