Respeito?

Nós, pessoas de esquerda, temos penado nos últimos anos. Vocês sabem. Temos evitado conflitos nos nossos meios sociais e tateamos muito até saber se o amigo é sinistro e se com ele poderemos compartilhar ideias. A gente só rebate as ofensas; usa o motivo da ofensa alheia para chamar o outro de coxinha; evitamos a briga gratuita. Isso não é à toa. Funcionamos pela reação desde que nos constituímos como esquerda e — pasmem — acreditamos na diversidade do pensamento e no contraste das ideias porque sabemos que durante muito tempo os que militaram antes de nós se ferraram. Por entendermos que nosso desafeto momentâneo tem raízes profundas, evitamos o engodo. Porém, também nunca quisemos ser hegemônicos, porque sabemos que isso é falso. Todos somos assim? Não. Mas, dentro da nossa diversidade há alguma unidade, ou melhor, há pontos em comum para um número significativo de sujeitos e o espírito democrático ou radicalmente democrático (em que a democracia não seja tratada apenas como um momento que ocorre a cada dois anos, durante a eleição) perpassa quase todos nós. Enfim, queremos pobre na universidade, queremos trabalhador no aeroporto, queremos que a doméstica compre carro e queremos isso tudo porque entendemos que esse conjunto de medidas: a) é direito; b) enriquece a sociedade como um todo; c) ganham todos os envolvidos pessoalmente; d) diminui a desigualdade; e e) beneficia direta e indiretamente o país como um todo. Esses são nossos argumentos e nunca nos omitimos de discuti-los, aprimorá-los, repensá-los, conjecturá-los. Nós, diversos entre aS esquerdaS, aceitamos o debate, mas ele foi, pouco a pouco, parando de fazer sentido quando começaram a nos chamar de petralhas, defensores de corruptos e outros “apelidos” que surgiram, exatamente, para acabar com o debate. Diante desse simplismo burro, não há argumentos e silenciamos.

Tudo bem. Fomos nos resignando e resignando até demais. Denunciamos o golpe, resistimos a ele como conseguíamos, mas não sabíamos como lutar contra “o Supremo e com tudo”, como disse, profeticamente, Romero Jucá. Sua conspiração foi explicada minuciosamente em rede nacional e totalmente esquecida por quem não é “petralha” ou “defensor de corrupto”. Esse mise-en-scène do impeachment tinha um objetivo maior que é tirar Lula da eleição. É óbvio que, se Lula, o maior líder popular do mundo nesse momento, tivesse 2% nas pesquisas, sua prisão não aconteceria, já que seu processo é péssimo na sua constituição jurídica (e não adianta dizer que ele passou por muitas instâncias e por isso é correto, pois se tem uma coisa que não é imparcial no país é a “Justiça” e tu sabes disso). Lula é preso político e, de certa forma, uniu as esquerdas em nome da legalidade.

Nós, daS esquerdaS, temos essa opinião. Mas não pedimos para vocês — os contra “tudo” que está aí (que duvido que saibam definir o que é “tudo” ) — apoiarem Lula. Nunca lhes pedimos nada. Não convidamos vocês para manifestações. Não enviamos “piadas” para o grupo da família do WhatsApp em que chamam nossos antagonistas de burros ou doentes mentais (piadas? no meu tempo tinham outro nome) em nome de partido nenhum — a maioria de nós nem filiada a partido é, acredita?!?. Não pedimos defesa ao Lula. Não pedimos defesa à Dilma. Não dizemos que compre o que é considerado o melhor arroz da América Latina, o arroz produzido pelo MST. Alguns de nós pode ser mais bélico e menos tolerante. Mas a grande maioria de nós não ofende vocês. Por acreditar no espírito democrático — que vocês parecem desconhecer, dado o comportamento fascista –, não queremos silenciar vocês.

Ontem, pacificamente, Lula foi para a prisão nos braços do povo. Uma cena linda e triste, do ponto de vista do que significam nossas lutas. É o único político que representa tão bem quem nós somos que pode sair nos braços das pessoas. Ele cresceu nesse momento. Vocês nos chamam de burros e de idólatras. Na verdade, não. Nós fomos os críticos mais severos de Lula, sabemos de seus defeitos e achamos que ele e Dilma fizeram pouco, porque, para nós, tudo seria muito pouco depois de quinhentos anos de exploração. Não fomos implacáveis, pois tínhamos a solidariedade e a empatia que nosso campo político ensinou a ter, valores que os antagonistas não aprenderam, infelizmente. Lula representa um coletivo, representa a chance do povo. Uma chance que, na verdade, esse povo (ok, eu sei que tu não te consideras povo por se achar de classe média, mas tu és também) não tem, mas acredita. Lula não é um líder. Lula é uma projeção genuinamente brasileira e a projeção de vocês, infelizmente, vem de uma ficção elitista estadounidense. Tudo bem. Temos visões diferentes e sempre tivemos.

O que não dá para engolir são essas mensagens de respeito que vocês estão exigindo. Agora? Depois de nos avacalhar entre os nossos durante tanto tempo? Uma hora depois de nos ofender com suposta piada no WhatsApp pedem paz? Nesse momento, inclusive, aprendam a ter respeito na rede social e no WhatsApp, na mesa do bar e falando com o motorista de Uber. Não cobrem de nós o que nunca nos deram. Quem fez “piada” que pudesse gerar ódio foram vocês, não nos culpem pela comoção e pelo inconveniente social. Se não querem a antipatia, não poderiam semeá-la. Deveriam, por outro lado, ter respeitado seus filhos, pais, amigos e colegas que pensam diferente. Nós ainda acreditamos que as diferenças podem enriquecer, quando civilizadas. Guardem sua falta de gosto primitiva para vocês. Não falo sobre as supostas piadas à toa: elas têm sido o maior guarda-chuva dos covardes que fogem do debate, mas precisam alfinetar as esquerdas (na figura de Lula, especialmente) sem assinar embaixo. Sua covardia aparece na irresponsabilidade e na falta de inocência do “foi só um meme”, “era só uma piada”.

Não ofendo o contraditório. Nunca ofendi. Mas também não posso nutrir respeito pela discórdia, pela falta de empatia e pela própria falta de respeito. Não há como estar perto de quem não se coloca minimamente no lugar do outro, mesmo que esse outro seja um próximo muito próximo, mas divergente. Funcionamos pela reação. E nós, das esquerdas, suportamos muito antes de reagir.

 

no sufras
porque ganaremos,
ganaremos nosotros,
los más sencillos
ganaremos,
aunque tú no lo creas,
ganaremos
(Pablo Neruda, “Ode al hombre sencillo”)

 

“Artigo 5º”, de Ian Ramil

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“Horizontes”

Nasci em Porto Alegre, mas fui muito cedo morar em São Paulo. Voltamos e eu, com sete anos,  já comemorava que estava de volta ao lar. Porque minha família próxima estava aqui e aqui achava que eu era eu (sei que é difícil nomear essa sensação de pertencimento tão jovenzinha, mas é isso).

Voltei num momento em que a cidade estava, de alguma forma, recomeçando. Era uma das primeiras experiências do PT nas capitais (vivi a da Erundina em São Paulo e, mesmo bem pequena, me lembro e lembro o boicote que ela tinha para governar) e foi tão bem sucedida que as governanças se repetiram. A cidade como um coletivo estava me recebendo, não apenas minha família.

Na escola, aprendi a canção “Horizontes” (“Há muito tempo que ando / nas ruas de um Porto não muito Alegre / e que, no entanto, me traz encantos / e um pôr-de-sol me traduz em versos“) e estava muito feliz por não ter vivido esses tempos ruins aí da música. Achava, honestamente, que tínhamos aprendido a ser felizes, porque a cidade me dava muito. Ia ao parque, tinha escola boa, íamos a vários shows regionais e nacionais grátis, minha família tinha suporte — o que meu pai, paulista, chamava de “gente demais se metendo na nossa vida” era uma base sólida de apoio e de amor que eu adorava entre os “gaúchos”. Meus irmãos, paulistas de nascimento, achavam lindo ser gaúchos. Não tenho muito saudosismo e não vejo minha vida infantil muito boa, na verdade (devo confessar que, pessoalmente, nunca fui tão feliz como sou agora; minha infância, em função dos conflitos com meu pai e da dificuldade de minha família administrar isso, foi uma bosta), mas a cidade, ah, a cidade era melhor.

Na adolescência, fiz muitas atividades de graça. A guria sem grana para trocar o único sapato furado fazia cursos de teatro, lia os autores da cidade, frequentava diversos espaços nos dias de passe livre, conhecia os museus, assistia shows, participava dos eventos na Feira do Livro, conversava com estrangeiros e abria sua mente nos Fóruns Sociais. Essa guria usufruía da cidade que a prefeitura dava. Elogiava, ufanista, sua cidade. Queria que todo mundo viesse morar aqui, porque a cidade estava se abrindo, tinha atividades e estava se ampliando. Participei de formações nos Fóruns de Educação e vi grandes pensadores mundiais (Saramago e Galeano discutindo “utopia”, por exemplo: olha o luxo!) sem gastar mais do que a passagem (a verdade é que onde eu morava ajudava muito, porque muitas atividades eram no “pátio de casa”, no Parque da Redenção, e eu sequer gastava a passagem).

Os governos do PT se esgotaram politicamente: não ofereceram novidades, as pessoas estavam acostumadas com vários direitos (e, logicamente, queriam mais), a crise financeira de repasses da União tinha iniciado e o nome de José Fogaça — que estava associado ao centro-esquerda — era visto como pouca mudança: “ele vai agregar ao que já temos”. Em alguma medida, essa mudança de rota não foi horrível, mas os espaços começaram a diminuir. A iniciativa privada estava bancando outro modelo de governança e ele tinha de devolver o investimento de campanha, ainda que aos poucos. Foi o que aconteceu. Em nome da “modernidade de gestão”, os espaços foram diminuindo e a cidade estava menor para nós, os cidadãos, a cada novo pleito.

Eu continuava iludida, porque achava que, sei lá, os espaços deveriam seguir existindo, talvez só fosse eu que não usasse mais. Não fui só eu a iludida, claro. Aos poucos fui percebendo que aquele espírito de solidariedade, civilidade e abertura estava se perdendo. Eu ainda dizia para meus amigos: “vem morar aqui, é bom! mas nós, gaúchos, nem sempre somos, veja bem, os mais hospitaleiros… ah, a cidade compensa!“. Uma prefeitura que não se importava com o desenvolvimento do cidadão em todos os bairros, de forma integrada, estava criando nichos. E, em algum momento, percebi que passei a ter vergonha de andar no Moinhos de Vento, por exemplo, porque era pobre.

A prefeitura foi desenvolvendo uma gestão, não um governo. As atividades pararam de serem criadas. Às vezes, casos como som alto em espaço público (a vizinhança reclamava, o espaço era inadequado) gerava um conflito que precisaria ser negociado; bem, mas isso é típico de uma cidade. E, aos poucos, então, tudo o que gerava discordância era minimamente mediado, mas a decisão, com maior ou menor demora, acabava sendo: “tá, vamos tirar esse evento daí, essa atividade daí, essa cultura daí, porque o cidadão está sendo afetado e está reclamando”. O cidadão, nessa perspectiva, passou a ser um cliente que tem de ser servido, afinal paga IPTU e a prefeitura tem de devolver serviço. Veja bem, essa não é uma leitura totalmente equivocada, mas mais do que agradar seus “clientes”, a prefeitura deveria fomentar que a cidade dê mais a todos os que nela vivem, mediando, negociando, ousando, regulamentando. Assim, a cultura foi pouco a pouco sendo delimitada, os espaços de convivência diminuíram e as diferenças da cidade não se viam mais, estavam cada vez mais nichadas.

De toda sorte, ainda havia respiros. A prefeitura ainda geria. Ainda fazia algum governo. Não do jeito que eu e mais um monte de gente acha certo, mas fazia. Agora, não. Agora fomos tomados pelo ranço. Fomos tomados pelo: “não tem dinheiro“, “não vamos fazer nada“, “tá incomodando, vamos acabar” — uma gestão à moda Rogerinho do Ingá [LINK] e [LINK], aliás, o personagem é bem mais tranquilo do que o destempero do “gestor”. Não há governo e isso não é incompetência, é projeto. Diminuir a prefeitura e sua atuação é o compromisso desse “governo”. O negócio de gerir, dentro dessa lógica, é dar apenas os serviços mínimos da forma mais mínima e barata possível, porque não há dinheiro. Governar uma cidade passou significar rifar esse espaço, fazer caixa indevidamente e bradar (quase que doentiamente) que não há recursos — mesmo com aumento significativo de arrecadação. Volto a dizer, pode parecer preguiça do município; não é, é projeto. A falta de zeladoria, a não comunicação com o cidadão (percebe que nem “cliente” o cidadão é mais?), o desrespeito com os mais pobres, o abandono das periferias, o descumprimento deliberado das leis, o aumento da população de rua, a manutenção de buracos nas vias, a negação de comida para as crianças da creche são só os exemplos mais grosseiros que aparecem no jornal — eles não estão apaziguados nem com a mídia local, que é, ainda, sua assessoria de imprensa mais fiel. A gente está saindo de uma gestão antipática com alguns setores para uma gestão que é ruim, é malvada, é canalha com a pessoa que mora em Porto Alegre.

Há duas semanas, acompanho uma briga da vizinhança do meu bairro — Cidade Baixa (CB), o bairro mais boêmio da cidade — com os blocos de carnaval. Os moradores reclamam da sujeira deixada pelos foliões e os estabelecimentos comerciais não querem aceitar “gente desse nível” em seus espaços. A periferia perdeu o carnaval. Perdeu, perdeu, mesmo. A prefeitura acabou com o desfile das escolas de samba de Porto Alegre. As tradicionais muambas já não vão acontecer. Não tem mais nada ocorrendo nos projetos de descentralização. Sobrou a CB. E nessas circunstâncias, com ou sem carnaval descentralizado: que venham para a CB. Esse virou o único espaço de carnaval da cidade, claro que as pessoas vão vir para cá. E, com isso, é lógico que mudou o público. Essas pessoas ficaram sem espaço e têm de ocupar a cidade que é delas. Nos anos anteriores, houve combinações prévias, reclamações dos moradores, apoio e patrocínio da prefeitura (com contrapartidas dos blocos, também), mas houve mediação e alguma negociação para que o carnaval acontecesse. Com reclamações (em muito maior escala do que nos anos anteriores, que sejamos justos), houve carnaval. Esse ano, está um caos. Entendo os moradores que reclamam da sujeira excessiva, da falta de dispersão, do barulho. Mas agora a prefeitura cobra patrocínio externo para os blocos passarem, os blocos passam e acabou. A parte de gerir a segurança, a limpeza e a organização do ambiente fica com ninguém; ou alguém acha que tem poder público na folia? O bloco, cliente desse (des)governo, fez a parte dele e lava as mãos. Nada mais é coletivo, o espaço não é de todos; embora, na hora da festa do bloco, pareça cinicamente que a rua é de todos. E a vizinhança fica puta. Essa (falta de) gestão do município deseja que o caos tome conta. E logo, logo, o carnaval da CB vai acabar, porque dá muito problema. E eles não vão precisar mais trabalhar e se incomodar. E quem tiver vontade de se divertir no carnaval que fuja da cidade — a verdade é que muita gente já faz isso há algum tempo. Nesse pensamento de gestão, não precisa ter convivência, não precisa de atividades coletivas. Quem não pode pagar, que não tenha. E não reclame. E não resista. E não mije no chão mesmo não havendo banheiros químicos suficientes e a festa dure cinco horas.

Essa alegoria que contei, tendo como pano de fundo o carnaval da CB, pode ser replicada para a Educação. Para a Saúde. Para a limpeza de bueiros. Para a Assistência Social. Para a mobilidade urbana. Para a festa do Ano Novo — que não existe mais e ninguém mais passa a virada em Porto Alegre (só eu, trancada em casa, porque me pélo de medo de sair nesses dias). O jeito “novo” de governar — que é, na verdade, dar de ombros à sociedade — está sendo aplicado igualmente em todas as demandas da cidade, não é fato isolado do carnaval. Estamos tão abandonados que não somos mais clientes. Nesse caso, não dá nem para dizer que alguém se beneficia, que a elite se mantém intacta. Até eles se fodem; mas menos, porque não dependem do fomento da governança local para se constituírem.

Percebe que não estou pedindo novos atrativos, geração de turismo, novidades culturais, cursos acessíveis? Não é essa nossa demanda atual. Mas deveria, porque deveríamos e merecemos ter mais. Nesse momento, estamos solicitando que devolvam nossa cidade. Que não tratem o cidadão com migalhas. Por isso, repito outra vez mais: ferrar o cidadão e tratá-lo com maldade é o projeto de governo.

No meu caso, estou ferrada duplamente, como municipária e como cidadã, que não foi embora dessa cidade porque tem aquela família do início do texto que dá suporte e amor e, também, porque já me fixei por aqui. Mas não quero que nenhum amigo venha morar aqui, não. Amo vocês e, por isso, fujam. Está uma merda, mesmo. Estou vivendo a época ruim da canção “Horizontes”. Estou sendo (os municipários em geral, mas pessoalizo, porque é assim que nos sentimos) tratada como grande culpada pelas finanças municipais e, se vissem em que condições (desde que entro no ônibus antes das sete da manhã, até chegar em casa à noite) vou trabalhar, iam dizer que, além de receber salário em dia, deveria ser indenizada mensalmente.

Queria escrever aqui que falta um governo municipal de esquerda, mas não. Faltam vários. Mas falta principalmente um governo. O que essa gente está fazendo contra a cidade é, literalmente, criminoso. Uma gestão não vai consertar quase nada. De todo modo, quero minha cidade de volta, nem que seja só para andar nela normalmente. Nem que seja só para ir e voltar do trabalho e viver um pouco. Nem que seja só para tomar água da torneira — isso já foi possível em Porto Alegre. Interessante dizer que há, inclusive, partidos participantes do atual governo avacalhando a gestão atual. Quer dizer, eles não conseguem agradar nem os seus pares. Não há para quem esteja bom, só para a meia dúzia que critica a falta de dinheiro do Paço — parece que seu trabalho é esse: reclamar doentiamente das impossibilidades do presente e gritar ensandecidos que não são culpados pelo passado.

Aquele meu ufanismo do início do texto era infantil e bobo, mas era melhor do que essa vergonha pela qual estamos passando. “Horizontes” (Flávio Bicca Rocha) parece que vai ficando atual, de novo. Meu arremedo de paródia, para a atualidade, poderia ser assim: “Dois mil e quatro, dois mil e seis / Dois mil e dezoito, um mau tempo talvez / Os anos dez, não deram pra ti / E, nos anos vinte, eu não vou me perder por aí”.

Juro, vou tentar não me perder e não perder mais ninguém por aí.

O passado é uma roupa que não me serve mais

Hoje vesti um vestido curto. Reclamei das minhas pernas. Fingi que não me ouvi. Reclamei de novo. E saí de casa cômoda, porque eu não ia me atrasar problematizando os culotes.

Comecei a usar vestido curto, short e saia, sem preconceito de mim, depois dos trinta anos. A primeira minissaia que comprei foi esse ano. Tive algumas na infância e a última aos treze anos que usei só uma vez, em casa. Nunca fui feliz com meu corpo, sempre tive pudores, mas mais encabulada com as pernas. Cabe dizer que não tenho necessidade exibicionista de querer ser notada. Quase sempre o apelo é o conforto ou o calor. Por isso usar shorts ou saias.

Esse post conta uma experiência que reverbera por muito tempo na autoimagem. Esse post é sobre identidade.

Quase no meu aniversário de treze anos, por qualquer motivo, meu pai, que morava conosco, brigou comigo. Estávamos apenas nós dois em casa. Parece que ele se irritou com alguma teimosia minha, parece que ele se alterou, eu estava tranquila, dizendo que ele poderia dar conta do que eu podia fazer, mas eu continuava achando que ele estava errado. Foi uma banalidade, um confronto entre o adulto e a recém adolescente. Sua raiva passou dos limites e ele me espancou com uma vassoura. Eu não disse nada depois. Não falei para a mãe, mas não quis assunto com ele. Talvez ele estivesse nervoso, talvez ele estivesse sob efeito de alguma substância, talvez ele tivesse alguma crise de alguma doença que nunca soube. De madrugada, o pai foi pedir desculpas, falou que eu não poderia ser mais teimosa — “olha como o pai fica!” — e eu não tinha nada a falar; ele disse que não poderia dormir sem meu perdão e sem saber que eu tinha aprendido a lição e respondi dizendo que estava desculpado e poderia dormir.

Um dia depois os hematomas vieram e eram enormes. Fiquei com muitos hematomas, alguns cujo tamanho superavam minha mão. Os vergões eram grossos e por todas as duas pernas. As ancas, as coxas, as panturrilhas tinham marcas da raiva do pai. Um ou dois dias depois era o fim de semana e fui para a casa da minha avó. Ela e minha tia mais nova repararam que eu estava estranha e perguntaram o que houve, disse que tinha brigado com o pai e elas tentaram contemporizar. Não falei do espancamento. Achei que era algum confronto de gerações e o episódio acabou. Isso era dezembro.

Passei o verão usando vestidos e saias compridas, calças jeans. Por muitos anos — até quase os trinta — só usei roupa curta na praia, geralmente para ir para o mar (era um sacrifício, de alguma forma, já que adoro mar). Na casa de praia, usava biquíni e canga como se fosse uma saia comprida. Por alguns anos, enxergava os hematomas que já tinham cicatrizado há anos nas minhas pernas.

A raiva de meu pai — um sujeito comum e pacífico — se transformou em trauma. O corpo poderia ser normal, mas desde então passo a vida tentando aceitar um corpo em que, por um lado, não me adapto; e, por outro lado, era, na minha fantasia, feito de um machucado. Um ano depois do episódio, antes de nos abandonar, o pai me levou para sair e pedir desculpas por qualquer coisa que eu não entendia. Talvez, até, um pedido antecipado de desculpas pela ausência que hoje dura mais de vinte anos. Não havia mais nada a desculpar. A relação com meu agressor nunca foi positiva ou de confiança desde a violência.

Anos depois, tentei recuperar alguma mágoa a superar e, não havia mais nada. O pai se tornou um estranho e isso está bom como deve ser. Sua escolha de não ser pai foi respeitada e ficamos com quem nos quis como família. Não há dores e problemas com sua ausência. Não há alívio tampouco. Sua lembrança já não suscita nada.

Esse episódio, ao contrário, ainda eclode porque lida com minha imagem. Durante anos, minhas pernas foram aqueles hematomas que chamei de varizes, celulites, culotes, pele seca, desbotadas. Chegar aos trinta anos e finalmente optar por vestir o que era mais cômodo não é uma vitória, é apenas conseguir enxergar a realidade e lidar com ela e com seu tamanho.

Agora, com quase 36 anos, vejo que há uma essência de mim que aceita a pessoa que fui na adolescência e está disponível a viver essa essência, boa e ruim. Os vinte e poucos, em alguma medida, vieram com alguma vergonha de mim, com alguma tentativa de ser aceita. Era muito calor e eu ainda usava calça jeans.

Não estou alheia à idade, a minha história, a minha imagem. Posso mostrar as pernas. As celulites, os culotes, a pele seca, tudo isso está lá. Mas os hematomas cicatrizaram e não voltam mais.

Sobre a violência de meu pai, posso dizer que não há monstruosidade nisso. Há impulso. A raiva pode consumir qualquer um de nós. A civilidade e a humanidade é que nós fazem parar. É uma pena que ele tenha perdido ali sua filha, no dia que, por impulso, a tratou como sua coisa.

É lógico também que o pai não premeditou nada, ele não quis machucar para que eu não gostasse de meu corpo; ele agrediu porque sentiu sua autoridade e sua masculinidade feridas. O que faço com essa memória também é problema meu. Embora não pudesse fazer nada na hora, elaborei a situação como pude. Queria usar a circunstância para ilustrar que nossas emoções e percepções sobre nós mesmos pode melhorar ou deformar em apenas uma experiência.

Esse foi o dia que entendi que eu e meu corpo não somos coisa. O processo de compreensão, porém, não terminou ainda. Pode parecer que estou só preocupada com o invólucro, com o corpo, com o exterior. Esse é o invólucro que desaparece nas multidões, que me leva aos lugares e que sinaliza — mesmo superficialmente — quem posso e consigo ser.

A mediocridade como sucesso

Hoje minha professora de Pilates disse que sou rebelde, já que fujo das ocasiões sociais formais. E, pensando bem, fujo mesmo; não dou importância à forma.

Hoje levei uma turma para assistir ao ensaio do coro infantil da Escola. Poderia fazer um gancho com Língua Portuguesa, minha matéria, poderia falar sobre os idiomas que as crianças cantam. Não fiz nada disso, disse que tinham de ouvir música porque música é uma coisa sublime. Disse que eles mereciam música.

Esses dois exemplos ilustram uma tentativa em fazer de minha existência um tempo de significado. Obviamente sou medíocre a maior parte do tempo, mas sei lá o que acontece que fico tentando achar sentido para alguma coisa que pareça vida em mim.

Me incomoda profundamente o comportamento de manada: não que não faça, mas juro que gasto um tempo precioso da vida para não fazer por fazer. Quero uma profissão que me permita ser mais humana; quero pessoas próximas que consigam ser falhas, parceiras, honestas e bobas e que me permitam isso também; quero música; quero ler, ouvir, falar, reclamar, provocar, mudar de opinião, acolher, refutar.

Se me vejo no comportamento de manada, vou tentar deixar alguma marca de identidade ali. Não dá para fugir tanto das expectativas da sociedade, a menos que a pessoa viva bem com alguma esquizofrenia social. Não é meu objetivo, de todo modo. Sair de um extremo e ir para o outro talvez liberte a pessoa no sentido mais profundo, mas ainda me falta alguma inteligência, desprendimento e discernimento para isso.

Mas não posso ser injusta. Não é fácil ter uma vida mediana ou medíocre. E não há nada de irônico nisso. A pessoa é levada a isso, ok, por um lado, sim. Mas quem não deseja ter além de sua existência precisa fazer um esforço para ter uma vida normal. A pessoa precisa decidir em que vai se formar. E tem de ser logo. E se mudar de ideia, tudo bem, mas não gasta a grana da família com dúvidas. Nesse período, a pessoa pode ou não ter uma vida afetiva estável. Pode pegar todo mundo. Se for mulher, pode pegar evitando se expor, é melhor. Pode beber bastante e saber alguma coisa de cerveja artesanal. Pode fazer foto de jantar gourmet com vinho importado. Pode conhecer futebol americano e MMA, um pouco. Sendo mulher, pode ver uma ou outra luta ou jogo, mas melhor não opinar. Depois de se formar, pode ter um período ainda festeiro, mas não muito. Melhor ir encontrando aos poucos alguém para ficar. Os amigos começam a convidar os casais para churrasco. Não precisa se apaixonar, não precisa dividir sonhos, não precisa admirar. Pode ser uma pessoa legal, boa companhia. Então é bom que tu cresça no trabalho e consiga algo relativamente estável. E lucrativo. E exerça uma profissão aceita pelo mercado. E teus amigos vão se tornando teu network. Tu precisa mostrar que está ficando responsável, mora junto ou compra um apartamento ou te casa. Já tem carro ou dá mil explicações sensatas de por que não quis comprar um. Descobre que é hora de ter um filho. Se for mulher, explica que o desejo da maternidade é biológico: é o instinto gritando. Tem, acha lindo, ama a criança. Não entende muito bem que educar é uma bosta, cansa, dá trabalho e o retorno é mínimo. Quer só a parte do amor incondicional e delega para a escola resolver as manhas do piá. Trabalha mais e mais, é explorado mais e mais com a desculpa de que tem de dar para o piá tudo o que não teve. Faz um sacrifício para ser um infeliz numa vida que não escolheu.

E tudo isso é difícil. Quando alguém me conta sua saga, admiro muito. A pessoa está fazendo um puta esforço para aquilo que ela e todo mundo chama de sucesso.

Para nós, meninas, o percurso é levemente mais engessado do que para os meninos. Eu acho, pelo menos. Um guri festeiro, aos 30 e poucos, é ok. Não é tão ok (tem de dar conta do trabalho, tem de parecer ter senso de independência), mas há concessões. Todas as decisões que fugiram (um pouco, não muito) do script foram contestadas, quando aconteceu comigo. Quase sempre, por amigas mulheres. Amigas, isto é, pessoas de quem gosto e tenho alguma intimidade questionam que tenha sido um pouco (e um pouco, não muito) diferente do que está posto para mim. Por escolha, não por circunstância.

Quase sempre, quando tenho amigos homens e eles começam a namorar, acabo evitando-os. Geralmente é proposital. Se o amigo não quiser seguir a vida da manada, vai me procurar e continuar a ser meu amigo. E tudo bem. Se o amigo acha a vida mediana melhor, vai deixar de ser amigo, ou vai ser eventual. E tudo bem. Muitas vezes, me esforço para ser amiga da menina, para que ela perceba que posso ter como amigo seu companheiro. Esse é um exemplo bem tosco e muitíssimo reduzido da projeção que tentava explorar, é, é tosco mesmo. Mas foi, para mim, em boa medida, um esclarecimento sobre as escolhas que fazemos e não nos damos conta. Sobre a pessoa de sucesso, de responsabilidades e de poucos desejos que aos poucos vão (vamos?) se (nos?) tornando.

Quantas vezes eu mesma luto contra meus desejos para ter o conforto do comportamento de manada? Quantas vezes não tive o comportamento mediano só porque problematizei ser do contra? Quantas vezes optei pelo comportamento inesperado simplesmente porque me sentia alheia entre as opções esperadas e nem sabia escolher?

Nesse sentido, preciso ser honesta: às vezes, o que melhor podemos desejar é que a pessoa tenha uma existência medíocre, ou mediana. Não é fácil; não tem sido nem para mim, quando quero “seguir o baile”. Desejar e fazer escolhas exige alguma análise, alguma falta de maniqueísmo; exige ser (um pouco mais) sensível e decidir, de algum modo, sobre algum valor.

Para mim, a mediocridade é difícil. Confesso que muitas vezes preciso dela.

Não tenho nada contra levar a vida assim, como um script de cinema. Só acho que tudo deva fazer sentido para a pessoa que está vivendo. Só acho que a vida vivida tenha de ser uma escolha. Não é o script o problema, é encher de alma essa história. Precisamos de alguma sensibilidade, emoção, desejo, novas rotas ao longo do percurso.

Mas muitas vezes, a mediocridade é o que de melhor podemos esperar na vida de uma pessoa. É feio dizer: seja medíocre; seja mediano. Mas não deveria. Há esforço em reprimir desejos, ter uma opinião formada sobre tudo e saber o que quer de sua vida nos próximos dez anos. Bem, aqui há um pouco de ironia, sim.

 

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Meu querido diário

Nunca tive um diário. Tentei ter no início da adolescência, mas não havia nada naquele caderno que fosse “escondido” ou “secreto”, como quase tudo na minha vida, aliás.

Mas estou pensando muito nos últimos dias em como tem sido esse meu ano. Sucintamente, posso dizer assim: uma merda. Mas vou esmiuçar e expor, mesmo achando que não é importante, não vale nada mais do que uma elaboração (para mim). O texto, em última análise, é uma materialização. Talvez precise materializar para conseguir superar.

Nessa época do ano, há um ano, minha avó estava voltando do hospital a partir de um milagre. Descobrimos que ela estava tendo um AVC isquêmico importante e corria altíssimo risco de vida em função de um pneumonia. A febre dela começou na sala da emergência do hospital e esse foi o gatilho para que a cor de sua pulseirinha de triagem fosse laranja. Passei os dez dias com a vó e sua alta foi inesperada: ela voltou melhor, muito melhor do que antes de entrar no hospital. Muitos médicos falaram em milagre. Emocionada, escrevi um depoimento no Facebook de propósito, pois sabia que precisaria elaborar a morte, que estaria chegando.

O vinte de setembro do ano passado foi alívio. Fui encontrar pessoas, fui rir, fui beber e espairecer. De alguma maneira, entendi que precisaria respirar, já que estava exaurida. Os dias seguintes foram horríveis. A vó estava muito melhor, mas outra situação gravíssima estava se impondo. Uma pessoa de minha família estava há tempos sofrendo ameaças, mas, nesses dias, o teor da violência tinha agravado a um ponto que não sabíamos lidar. Tínhamos medo e pavor por nós todos. De toda sorte, tínhamos também de cuidar das pessoas mais frágeis da família.

Não estava com muito medo por mim, mas estava com aquela sensação de injustiça: o que eu, as pequenas, a vó temos com isso? Por que com a gente? Tinha entendido que precisava ser forte, que precisava olhar para frente, que não adiantaria alterar a voz. Fiquei numa frieza comigo mesma que me desumanizava. Claro, não era eu a pessoa que mais sofria; vamos ser empáticos com quem está mais ferrado, então, já que eu não era vítima de nada específico, estava envolvida pelas bordas, vivia o terror indiretamente. De todo modo, acho que fiz o que tinha de ser feito.

Com a situação se agravando mais e mais, dia a dia, houve um dia que fiz uma coisa muito estúpida e ridícula, que é tentar falar de mim, me abrir bem egoísta, dizer “que merda, estou desesperada, mesmo!” para uma pessoa querida, mas não próxima. Não queria conversar com as pessoas da família — todos mais nervosos do que eu — e não queria falar com os amigos porque tinha vergonha da situação chegar onde chegou (independentemente de não ter envolvimento direto). Claro que a pessoa que me ouviu se assustou. Claro que fui inadequada. Claro que o sigilo foi “a medias”. Claro que, acuadinha, eu não conseguia olhar adiante. Claro que tentei ser forte o quanto deu e transbordei da forma errada. Fico com pena do amigo que prestou ouvidos e só, mas enfim, essa era o que pude ser no referido momento, foi vexatório, e cada um só consegue ser o que pode.

Nesse ínterim tinha a saúde da vó. Precisava marcar médico, que era reconsulta após a alta e ficava esperando o tempo melhorar (chovia e estava friozinho, ainda), os ânimos melhorarem, todo mundo virar gente. Esse momento não aconteceu.

No início de outubro, a vó demonstrou ter compreensão de tudo que estava acontecendo, do risco que corriam, do medo que sentíamos, do terror que estávamos envoltos. Nunca falamos nada com ela. Nunca demonstramos nada a ela. Ela sabia de tudo. E nem fui capaz de lhe pedir colo. Quis ser — veja só — uma mulher forte. E ela estava ciente de tudo e nos orientou imponente.

Um dia depois, três de outubro, em torno das 18h, a vó pediu para deitar no sofá, estava cansada e queria tirar uma soneca. No fim da tarde, pouco antes, tinha começado a tossir forte (nunca sabíamos o teor das tosses da vó, fumante por setenta anos). Ela deitou, dormiu, convulsionou, entrou em coma, a ambulância não demorou sete minutos. Sem saber de nada que estava acontecendo (tudo tão rápido!) com ela, fui a sua casa sem avisar, porque achava que tinha de ir. Logo que vi a situação, chamei os filhos que estavam fora da cidade. Levei-a ao hospital. Disse a ela, desacordada, que tinha entendido, que ela havia se cansado. Tudo o que sabia, assim que falei com a plantonista: talvez AVC, mas seguramente pneumonia. De novo.

Dia quatro foi estranho. Sumimos com minha sobrinha, para que ela não visse o agravamento da situação violenta que rondava a casa. Vivi uma tarde de sonhos e diversão. Uma sandice no meio do caos. Isso até a hora da visita ao hospital, é claro. Isso até falar com um médico estúpido que disse que era grave e não tinha muito a falar.

Quarta-feira, dia cinco, fui ver a vó. Os valores de referência (já conhecia todos: pressão, oxigenação, temperatura e a porra toda) todos alterados. Eu perguntei a enfermeira o que aconteceu, por que o médico não fez isso ou aquilo e ela respondeu: “ele sabe como está, tá bom?”. Não. Não está bom. Como posso reclamar? Por que não fizeram ressonância? Onde está esse médico para eu xingar? E nada. Voltei para casa, almocei com o Dindo e a Bi, que tinham vindo de fora, e fui chamada para ir ao hospital com urgência. “Entuba ou não entuba? Não há mais nada o que fazer”. Assim, com essa cavalice que nem um equino faz.

No mesmo momento, a situação de violência tinha sido resolvida e punida. Estávamos salvos, por um lado.

A morte da vó foi questão de poucas horas.

Está tudo apaziguado agora, um ano depois. A situação não está periclitante, não há agitação e medo. Mas não há vó. E essa falta tem sido muito difícil. Não é só saudade, falta um pedaço meu. Para mim é isso: é quase uma falta física, como se fosse do meu corpo. Acho que, conforme a idade aumenta, a gente sabe lidar menos com a falta. Passamos muito tempo da nossa vida com a presença, daí a ausência se torna inexplicável, incompreensível, difícil.

Tentei desopilar nos dias que seguiram. Fiz festa, ia ao parque, saía de casa por qualquer motivo. Só me enganei. Quase todos os dias eu ia a casa da vó e, quando comecei a chegar em casa sem ter de ver a vó, um vazio me assombrava. Não era solidão. Não era incômodo. Era falta.

Ainda chego em casa à noite e fico perdida. Entendo o fenômeno e arrumo algo para fazer. Ainda dói. Não tenho esperança de que passe, sinceramente. Acho que estou resolvendo o mais dignamente possível tudo isso, até. E a palavra “tudo” não é por acaso, porque o tamanho dessa coisa chata que a gente carrega depois da perda é imensa, quase sempre maior do que a gente.

Minha sorte é que há algo em minha personalidade que teima em ser feliz, que teima em olhar para frente; até mesmo quando não sei para onde ir. Ainda que haja muita dor, não há remorso, não há arrependimentos, não há culpa.

Talvez tentar lidar com tudo isso seja parte do pacote de ser adulto. E não sei se estou pronta ainda.

 

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Essa foto fizemos em 26/04/2015, um dia após sua festa de 90 anos. Eu estava caindo de sono, como se pode perceber…

 

Pessoas que acham coisas sobre tudo

Uma das coisas interessantes na internet é a possibilidade de se ter opinião. Podemos ter opiniões sobre tudo, podemos refutar nossa antiga opinião, podemos ler mais e ir melhorando a perspicácia de nossa opinião. Isso é lindo.

Gosto de ler opiniões, gosto de refletir sobre o que leio, gosto de discordar educadamente, gosto de emitir opiniões também. Sou tolerante até com opiniões sem fundamentação, porque escrever a opinião — quando educada e respeitosamente, quando tem o mínimo de empatia–, obriga a pessoa a estruturar pensamento e isso, nós sabemos, não é trivial.

Obviamente, de alguém com alguma cultura (aqui como sinônimo de escolarização) a gente espera mais. Espera um discurso menos simplista, espera um pouco mais de reflexão e espera que não use rede social para emitir opinião do mesmo modo que emite no bar.

O texto escrito tem muito mais limites do que o texto falado, tem menos recursos, deve ser mais preciso — especialmente no julgamento de pessoas e situações. É muito fácil ser mal interpretado. Muito mesmo. Por isso opinar tem de ser sempre pisando em ovos, já que às vezes a gente pode ser grosseiro com uma convicção alheia que para a gente é mero detalhe. Além disso, um texto na rede social tem muito mais impacto do que numa conversa entre amigos.

Bem, enrolei o suficiente para dizer que, a medida que alguém tem escolaridade, deveria ter empatia, respeito e até humildade com sua opinião, já que hoje em dia todo mundo tem julgamento sobre tudo.

Há, contudo, uma geração (e a minha se inclui) de pessoas que pensa que “o que acha” é justo o suficiente para ser respeitado e valorizado. Em tese, parece correto, mas vamos refletir. Por exemplo, a pessoa é evangélica e é contra a teoria do Darwin. OK, sou capaz de respeitar, embora não entenda, respeito. Agora, a pessoa não apenas discorda: diz que acha uma bobagem, que nem precisariam ensinar na escola, etc. Não dá para aceitar. É Darwin. Darwin!!!! E tua opinião é de quem, mesmo? 😤 Qual teoria tu já defendeu? 😟 Ah, tá. A pessoa não se dá conta de que Darwin não deixará de ser Darwin apesar dela. A teoria dele está inteira, a opinião dela não importa a ninguém além de cinco pessoas que dão corda para ela na rede social.

Isso me aborrece.

Li essa semana mais de uma pessoa escrever que o Marx era um vagabundo, por isso o socialismo e o comunismo são pensamentos (assim, como se fossem ideias soltas) débeis e estúpidos. Por isso, segundo as “pessoas que acham coisas”, os seguidores de Marx seriam débeis e estúpidos por extensão. Vamos lá. Marx deixou teorias sociais aplicáveis e aplicadas até a atualidade. Qualquer pessoa pode discordar do enfoque, pode discordar da metodologia, da teoria, pode discordar, enfim. O que é meio infame é usar a vagabundagem do Marx para invalidar sua obra. Inclusive há vários outros intelectuais que tiveram algum comportamento reprovável e ninguém questiona suas obras. Grandes pensadores da e na atualidade ainda se baseiam em Marx para se constituírem. Por exemplo, o livro “O capital” revisitado no século XXI, do Piketti, best seller, fundamentou-se no Marx. Não gosta? Diz no teu grupo de amigos, no meio da cerveja, que Marx foi um trouxão, se assim deseja. Na rede social, seja esperto, humilde, respeitoso. Discorde e fundamente, mas não ateste burrice.

Parece que defendo o Marx como um bastião teórico que me constitui. Não é isso, mas o dano que a “pessoa que acha” causa costuma “atingir” os pensadores relacionados à esquerda e vai além: enquanto pensamos que podemos “achar” e opinar julgando moralmente grandes intelectuais, estamos desqualificando um cânone da cultura mundial, um patrimônio de saber, que nos constitui como Humanidade. Quer dizer, a pessoa pensa “vou estudar o que ‘acho’ legal e não vou conhecer nada além do que agrada minha opinião”. Esse hedonismo aparece especialmente no ranço das pessoas que se colocam contra a ideologia comumente associada à esquerda. Nunca vi ninguém ofender a honra de Adam Smith. Vi discordar, vi dizer que a teoria de Smith se constitui aqui e ali, li vários teóricos de esquerda, veja só, pautarem como evolui o pensamento social e político através de Smith. Dizer se foi um bêbado, se tratou bem a mulher, se era fofoqueiro não interessa e, se o achismo da “pessoa que acha coisas e opina” precisa julgar a partir daí, julgue a pessoa, não a teoria, como se faz com Marx, mas separe a pessoa do intelectual.

Os primeiros estudos do Comportamentalismo são superados em Psicologia, mas são um avanço à época. Sem eles o Comportamentalismo não teria evoluído e se apropriado de conceitos inclusive estranhos (inicialmente) a essa linha teórica. Alguns experimentos de John Watson, o precursor destes estudos, seriam atualmente questionáveis em vários departamentos de ética de várias universidades. Nunca vi ninguém ofender o Watson. Mas é o Marx “superado” (segundo as “pessoas que acham coisas”) e tantos outros grandes pensadores (Paulo Freire, Darcy Ribeiro, só para citar dois brasileiros de orientação sinistra), que consideraram ideologia em sua teoria, que foram rotulados como vagabundos, inaptos, toscos.

Claro, boa parte da pouca visão de quem critica reside no fato de julgar essas pessoas à luz de nossa época, que é uma bobagem (a briga sobre o escravagismo do Monteiro Lobato cabe aí: ele era escravagista? sim, era. mas a sociedade dele era e, apesar de isso ser reprovável, não o exclui do cânone historiográfico da Literatura Brasileira; ou seja, vamos dar a importância devida para o que acrescenta e para o que cabe em cada momento, embora hoje, lógico, essas ideias em sua literatura não façam mais sentido).

Daí não dá para aceitar “eu acho que”. Não dá para aguentar “discordo e não aceito”. Não é possível desqualificar a pessoa em detrimento da sua orientação ideológica. Discorde do Marx, do Engels, do Trotsky, do Castro, do Freire, da mãe, de quem quiser. Mas não seja o idiota que acha e qualifica conforme sua ótica, sua vida, sua contemporaneidade, sua civilidade. Esses autores tão cedo não passarão. Tua opinião, assim como a minha, assim como tudo escrito aqui, não acrescenta nada; exceto, talvez, numa mesa de bar. É uma opinião, só isso; uma leitura parcial, limitada, importante para o debate, mas pouco ou nada para a sombra que esses nomes fizeram na História.

Ser adulto é ser inteiro e é ser feliz (ou tentar, pelo menos)

Esse texto é inspirado no texto do Piangers desse fim de semana. O texto AQUI.

Sempre digo para as amigas que querem um relacionamento (e não têm) que a culpa não é delas. Elas me olham meio virado. Acredito que, sim, uma parte das escolhas erradas é quem topa uma relação meia boca e que elas podem ter alguma responsabilidade, talvez, em não ter uma relação legal. Mas e o outro lado? E quem não é por inteiro?

Prefiro um amigo ou uma amiga sofrendo de solidão do que apoiado em um relacionamento que esteja capenga, que seja para não ser solitário, que tente tapar uma carência afetiva ou que se mostre, ao longo dos anos, como única opção possível (porque a pessoa já não conhece outra forma de viver). Ser solitário num relacionamento é uma grande derrota. Amar por dois é uma estupidez. Há muitas relações em que as pessoas parecem pela metade: não podem ser quem são, não fazem o que querem, acatam a vontade de outro em nome do tempo juntos ou do patrimônio que de alguma maneira organizaram (é difícil se separar do outro, descobrir a si mesmo, depois de filhos, gatos ou empresa montada, não é mesmo?).

Uma grande parte dos meninos (e um número grande de meninas, também) não entra em relacionamento, “superficializa” a relação. Há, por outro lado, uma porção de relações fortes e profundas que nunca foram chamadas de relacionamento, inclusive. Mas, de forma geral, os meninos podem fazer o que querem sem serem pressionados, até vendo vantagens maiores na vida de solteiro (individual) do que na vida dividida (VIDA DIVIDIDA: morar com amigos, ter relacionamento, viver num poliamor, etc.). Há muitas vantagens na solidão — não há dúvida — mas esse estilo fast food de ser solitário e comer qualquer coisa fácil é um modo de vida (de homens e mulheres) já consagrado. Tem sido, na maior parte dos casos que vejo, uma escolha comum de homens e uma resignação comum de mulheres.

Por um lado, mesmo as pessoas que estão em relacionamento parecem resignadas, sem muita voz, numa dupla opressão. Por outro lado, também muitas pessoas sem relacionamento parecem resignadas, sem muita voz, esperando um amor de filme — que não existe. É verdade, em casos heterossexuais (os que mais conheço), que as meninas estão mais superficiais, tentando se parecer aos meninos. E os meninos, que ainda não se resignaram numa relação, estão ainda mais superficiais, sem querer ser adultos. É feio dizer isso, mas embora os casais da minha infância e adolescência não fossem (ou parecessem ser) tão felizes quanto alguns casais que conheço hoje, também não lembro de achar que houvesse tanta gente infeliz, oprimida e superficial nos relacionamentos, como vejo agora. Pode ser só um ponto de vista pessimista.

Mas acredito que o que o Piangers diz no texto anexo é um pouco disso: nossa geração não quer ser adulta. Ser adulto é tomar a decisão de ser feliz ou ir tentando ser feliz a medida que dá. Ser adulto é assumir riscos. Ser adulto é fazer escolhas. Ser adulto é assumir as escolhas não feitas. Ser adulto é pagar contas e também guardar dinheiro. Ser adulto é se comportar como dono do seu nariz. Ser adulto é respeitar a pessoa que tu só quer por uma noite e fazer dessa noite espetacular — porque tem de ser bom para si mesmo. Ser adulto é escolher se relacionar se a pessoa vale a pena e é dar o passo em falso, para errar de novo e tentar outra vez ou para desistir para sempre. Ser adulto é tentar cultivar amores e amizades, tentando cuidar do que lhe cabe. Ser adulto é saber começar. Ser adulto é saber terminar. Ser adulto é se esforçar para recomeçar.

Piangers fala das “frutas ruins do mercado” e ele que me permita ampliar esse mercado, porque temos uma pá de gente que não sabe ser adulta. No caso do texto dele, é claro que há milhares de mulheres incríveis que escolhem homens ainda infantis e ele bem observa da imensa dificuldade em se relacionar aí. E não é culpa da mulher. Mas manter uma relação incômoda, viver desconfortável e aceitar isso é falta de maturidade para levar sua vida sozinha. E não é o homem que faz a menina imatura.

Para ilustrar esse texto, deixo para vocês algumas frases que me ajudam a pensar todas as vezes em que me sinto dependente, em que preciso escolher ou quando não acho que sou dona de mim:

“I know I was born and I know that I’ll die / The in between is mine / I am mine”
(Eddie Vedder)
(“Eu sei que nasci e sei que vou morrer / O que existe no meio disso é meu / Eu sou meu“)

“I can’t get a life if my heart’s not in it”
(Noel Gallagher)
(“Eu não posso ter uma vida se meu coração não estiver nela“)

“Caminante, son tus huellas / el camino y nada más; / Caminante, no hay camino, / se hace camino al andar.”
(Antonio Machado)
(“Caminhante, são tuas pegadas / o caminho e nada mais; / Caminhante, não há caminho, / se faz o caminho ao andar.“)

peterpancomplex

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