Pessoas que acham coisas sobre tudo

Uma das coisas interessantes na internet é a possibilidade de se ter opinião. Podemos ter opiniões sobre tudo, podemos refutar nossa antiga opinião, podemos ler mais e ir melhorando a perspicácia de nossa opinião. Isso é lindo.

Gosto de ler opiniões, gosto de refletir sobre o que leio, gosto de discordar educadamente, gosto de emitir opiniões também. Sou tolerante até com opiniões sem fundamentação, porque escrever a opinião — quando educada e respeitosamente, quando tem o mínimo de empatia–, obriga a pessoa a estruturar pensamento e isso, nós sabemos, não é trivial.

Obviamente, de alguém com alguma cultura (aqui como sinônimo de escolarização) a gente espera mais. Espera um discurso menos simplista, espera um pouco mais de reflexão e espera que não use rede social para emitir opinião do mesmo modo que emite no bar.

O texto escrito tem muito mais limites do que o texto falado, tem menos recursos, deve ser mais preciso — especialmente no julgamento de pessoas e situações. É muito fácil ser mal interpretado. Muito mesmo. Por isso opinar tem de ser sempre pisando em ovos, já que às vezes a gente pode ser grosseiro com uma convicção alheia que para a gente é mero detalhe. Além disso, um texto na rede social tem muito mais impacto do que numa conversa entre amigos.

Bem, enrolei o suficiente para dizer que, a medida que alguém tem escolaridade, deveria ter empatia, respeito e até humildade com sua opinião, já que hoje em dia todo mundo tem julgamento sobre tudo.

Há, contudo, uma geração (e a minha se inclui) de pessoas que pensa que “o que acha” é justo o suficiente para ser respeitado e valorizado. Em tese, parece correto, mas vamos refletir. Por exemplo, a pessoa é evangélica e é contra a teoria do Darwin. OK, sou capaz de respeitar, embora não entenda, respeito. Agora, a pessoa não apenas discorda: diz que acha uma bobagem, que nem precisariam ensinar na escola, etc. Não dá para aceitar. É Darwin. Darwin!!!! E tua opinião é de quem, mesmo? 😤 Qual teoria tu já defendeu? 😟 Ah, tá. A pessoa não se dá conta de que Darwin não deixará de ser Darwin apesar dela. A teoria dele está inteira, a opinião dela não importa a ninguém além de cinco pessoas que dão corda para ela na rede social.

Isso me aborrece.

Li essa semana mais de uma pessoa escrever que o Marx era um vagabundo, por isso o socialismo e o comunismo são pensamentos (assim, como se fossem ideias soltas) débeis e estúpidos. Por isso, segundo as “pessoas que acham coisas”, os seguidores de Marx seriam débeis e estúpidos por extensão. Vamos lá. Marx deixou teorias sociais aplicáveis e aplicadas até a atualidade. Qualquer pessoa pode discordar do enfoque, pode discordar da metodologia, da teoria, pode discordar, enfim. O que é meio infame é usar a vagabundagem do Marx para invalidar sua obra. Inclusive há vários outros intelectuais que tiveram algum comportamento reprovável e ninguém questiona suas obras. Grandes pensadores da e na atualidade ainda se baseiam em Marx para se constituírem. Por exemplo, o livro “O capital” revisitado no século XXI, do Piketti, best seller, fundamentou-se no Marx. Não gosta? Diz no teu grupo de amigos, no meio da cerveja, que Marx foi um trouxão, se assim deseja. Na rede social, seja esperto, humilde, respeitoso. Discorde e fundamente, mas não ateste burrice.

Parece que defendo o Marx como um bastião teórico que me constitui. Não é isso, mas o dano que a “pessoa que acha” causa costuma “atingir” os pensadores relacionados à esquerda e vai além: enquanto pensamos que podemos “achar” e opinar julgando moralmente grandes intelectuais, estamos desqualificando um cânone da cultura mundial, um patrimônio de saber, que nos constitui como Humanidade. Quer dizer, a pessoa pensa “vou estudar o que ‘acho’ legal e não vou conhecer nada além do que agrada minha opinião”. Esse hedonismo aparece especialmente no ranço das pessoas que se colocam contra a ideologia comumente associada à esquerda. Nunca vi ninguém ofender a honra de Adam Smith. Vi discordar, vi dizer que a teoria de Smith se constitui aqui e ali, li vários teóricos de esquerda, veja só, pautarem como evolui o pensamento social e político através de Smith. Dizer se foi um bêbado, se tratou bem a mulher, se era fofoqueiro não interessa e, se o achismo da “pessoa que acha coisas e opina” precisa julgar a partir daí, julgue a pessoa, não a teoria, como se faz com Marx, mas separe a pessoa do intelectual.

Os primeiros estudos do Comportamentalismo são superados em Psicologia, mas são um avanço à época. Sem eles o Comportamentalismo não teria evoluído e se apropriado de conceitos inclusive estranhos (inicialmente) a essa linha teórica. Alguns experimentos de John Watson, o precursor destes estudos, seriam atualmente questionáveis em vários departamentos de ética de várias universidades. Nunca vi ninguém ofender o Watson. Mas é o Marx “superado” (segundo as “pessoas que acham coisas”) e tantos outros grandes pensadores (Paulo Freire, Darcy Ribeiro, só para citar dois brasileiros de orientação sinistra), que consideraram ideologia em sua teoria, que foram rotulados como vagabundos, inaptos, toscos.

Claro, boa parte da pouca visão de quem critica reside no fato de julgar essas pessoas à luz de nossa época, que é uma bobagem (a briga sobre o escravagismo do Monteiro Lobato cabe aí: ele era escravagista? sim, era. mas a sociedade dele era e, apesar de isso ser reprovável, não o exclui do cânone historiográfico da Literatura Brasileira; ou seja, vamos dar a importância devida para o que acrescenta e para o que cabe em cada momento, embora hoje, lógico, essas ideias em sua literatura não façam mais sentido).

Daí não dá para aceitar “eu acho que”. Não dá para aguentar “discordo e não aceito”. Não é possível desqualificar a pessoa em detrimento da sua orientação ideológica. Discorde do Marx, do Engels, do Trotsky, do Castro, do Freire, da mãe, de quem quiser. Mas não seja o idiota que acha e qualifica conforme sua ótica, sua vida, sua contemporaneidade, sua civilidade. Esses autores tão cedo não passarão. Tua opinião, assim como a minha, assim como tudo escrito aqui, não acrescenta nada; exceto, talvez, numa mesa de bar. É uma opinião, só isso; uma leitura parcial, limitada, importante para o debate, mas pouco ou nada para a sombra que esses nomes fizeram na História.

Ser adulto é ser inteiro e é ser feliz (ou tentar, pelo menos)

Esse texto é inspirado no texto do Piangers desse fim de semana. O texto AQUI.

Sempre digo para as amigas que querem um relacionamento (e não têm) que a culpa não é delas. Elas me olham meio virado. Acredito que, sim, uma parte das escolhas erradas é quem topa uma relação meia boca e que elas podem ter alguma responsabilidade, talvez, em não ter uma relação legal. Mas e o outro lado? E quem não é por inteiro?

Prefiro um amigo ou uma amiga sofrendo de solidão do que apoiado em um relacionamento que esteja capenga, que seja para não ser solitário, que tente tapar uma carência afetiva ou que se mostre, ao longo dos anos, como única opção possível (porque a pessoa já não conhece outra forma de viver). Ser solitário num relacionamento é uma grande derrota. Amar por dois é uma estupidez. Há muitas relações em que as pessoas parecem pela metade: não podem ser quem são, não fazem o que querem, acatam a vontade de outro em nome do tempo juntos ou do patrimônio que de alguma maneira organizaram (é difícil se separar do outro, descobrir a si mesmo, depois de filhos, gatos ou empresa montada, não é mesmo?).

Uma grande parte dos meninos (e um número grande de meninas, também) não entra em relacionamento, “superficializa” a relação. Há, por outro lado, uma porção de relações fortes e profundas que nunca foram chamadas de relacionamento, inclusive. Mas, de forma geral, os meninos podem fazer o que querem sem serem pressionados, até vendo vantagens maiores na vida de solteiro (individual) do que na vida dividida (VIDA DIVIDIDA: morar com amigos, ter relacionamento, viver num poliamor, etc.). Há muitas vantagens na solidão — não há dúvida — mas esse estilo fast food de ser solitário e comer qualquer coisa fácil é um modo de vida (de homens e mulheres) já consagrado. Tem sido, na maior parte dos casos que vejo, uma escolha comum de homens e uma resignação comum de mulheres.

Por um lado, mesmo as pessoas que estão em relacionamento parecem resignadas, sem muita voz, numa dupla opressão. Por outro lado, também muitas pessoas sem relacionamento parecem resignadas, sem muita voz, esperando um amor de filme — que não existe. É verdade, em casos heterossexuais (os que mais conheço), que as meninas estão mais superficiais, tentando se parecer aos meninos. E os meninos, que ainda não se resignaram numa relação, estão ainda mais superficiais, sem querer ser adultos. É feio dizer isso, mas embora os casais da minha infância e adolescência não fossem (ou parecessem ser) tão felizes quanto alguns casais que conheço hoje, também não lembro de achar que houvesse tanta gente infeliz, oprimida e superficial nos relacionamentos, como vejo agora. Pode ser só um ponto de vista pessimista.

Mas acredito que o que o Piangers diz no texto anexo é um pouco disso: nossa geração não quer ser adulta. Ser adulto é tomar a decisão de ser feliz ou ir tentando ser feliz a medida que dá. Ser adulto é assumir riscos. Ser adulto é fazer escolhas. Ser adulto é assumir as escolhas não feitas. Ser adulto é pagar contas e também guardar dinheiro. Ser adulto é se comportar como dono do seu nariz. Ser adulto é respeitar a pessoa que tu só quer por uma noite e fazer dessa noite espetacular — porque tem de ser bom para si mesmo. Ser adulto é escolher se relacionar se a pessoa vale a pena e é dar o passo em falso, para errar de novo e tentar outra vez ou para desistir para sempre. Ser adulto é tentar cultivar amores e amizades, tentando cuidar do que lhe cabe. Ser adulto é saber começar. Ser adulto é saber terminar. Ser adulto é se esforçar para recomeçar.

Piangers fala das “frutas ruins do mercado” e ele que me permita ampliar esse mercado, porque temos uma pá de gente que não sabe ser adulta. No caso do texto dele, é claro que há milhares de mulheres incríveis que escolhem homens ainda infantis e ele bem observa da imensa dificuldade em se relacionar aí. E não é culpa da mulher. Mas manter uma relação incômoda, viver desconfortável e aceitar isso é falta de maturidade para levar sua vida sozinha. E não é o homem que faz a menina imatura.

Para ilustrar esse texto, deixo para vocês algumas frases que me ajudam a pensar todas as vezes em que me sinto dependente, em que preciso escolher ou quando não acho que sou dona de mim:

“I know I was born and I know that I’ll die / The in between is mine / I am mine”
(Eddie Vedder)
(“Eu sei que nasci e sei que vou morrer / O que existe no meio disso é meu / Eu sou meu“)

“I can’t get a life if my heart’s not in it”
(Noel Gallagher)
(“Eu não posso ter uma vida se meu coração não estiver nela“)

“Caminante, son tus huellas / el camino y nada más; / Caminante, no hay camino, / se hace camino al andar.”
(Antonio Machado)
(“Caminhante, são tuas pegadas / o caminho e nada mais; / Caminhante, não há caminho, / se faz o caminho ao andar.“)

peterpancomplex

Feia, e daí?

Olá, amig@ feminista, sei que tu já vais dizer: “para com isso, o fato de não ser padrão não significa que você seja feia! se ame, você é linda!”. Entendo perfeitamente teu raciocínio e acho importante falar sobre isso com TODAS as mulheres. Todas somos lindas? Não. Somos fortes, interessantes, diferentes, uma infinidade de coisas. Bonitas, ou melhor, fisicamente bonitas, não. E tudo bem. Outro detalhe importante: esse post não é para pedir a vocês, leitores, elogio. Esse post é uma desmistificação da beleza como valor e vou usar meu exemplo para mostrar minha tese.

Minha primeira questão sobre o tema, para explicá-lo, é que beleza é uma seara muito particular. Se há padrões de beleza, eles são particulares e individuais; logo, não há padrão. O “meu” padrão para definir o que é bonito é bem fora da expectativa do senso comum. O Bon Jovi velho, com rugas e cabelos brancos me parece muito mais bonito e interessante aos olhos do que ele quando jovem, por exemplo. E não tenho interesse por grisalhos (ou quase nunca). E não estou considerando que, na juventude, ele usava roupas de metal farofa (hoje consideradas bregas para car***o). Estou dizendo que as feições atuais parecem mais naturais e harmônicas e acho isso bem bonito.

Falando sobre mim mesma: sim, me incomoda ser gorda. Sim, me incomodam meus traços. Sim, há vezes que gosto deles, mas são poucas. Sim, me maquio eventualmente e acho que muitas vezes a maquiagem melhora — afinal é para isso que ela existe. Se tu me conheces, pode discordar das minhas opiniões. Já expliquei que o julgamento de beleza é intangível. Acho que lidar com isso — me acho feia, mas gosto de mim — pode causar estranhamento, mas entenda o ponto de vista. Há algumas coisas que posso fazer para melhorar meu aspecto para mim mesma (estou fazendo exercícios regularmente e cuido minha alimentação, por exemplo, embora não ache que ser gordo ou magro sejam questões necessariamente ligadas à beleza física), mas o aspecto geral não me torna bonita, ou não me sinto bonita. Devo dizer, ainda, que não há complexos em ser feia, ou em não ser bonita. Nunca tive problemas para me relacionar ou nunca fui complexada com minha figura, seja para flertar, seja para ir à praia (dilemas tão difíceis para as meninas de outrora e de hoje).

Não gostar dos seus traços é uma questão de… gosto. E só. Para mim, para meus padrões, há uma gradação que vai dos extremos: de lind@ a horrível. Acho que isso é comum a todo mundo. No meio da minha classificação virtual, está o limbo, de pessoas normais, que não chamam atenção por nenhum dos extremos. É lógico que uma pessoa legal, divertida, aprazível vai ficando mais bonita à medida que convivemos com ela e o contrário também pode ocorrer. Mas na minha classificação virtual, fisicamente, estou no limbo para mais feinha. Me sinto até normal, embora com pouca harmonia. Acho que sou bem na média e, conseguindo comprar roupas que combinem (como encontrar uns vestidos frescos no verão e uns casacos interessantes no inverno — veja bem, isso nem sempre foi fácil), está de bom tamanho.

As vezes que me sinto mais bonita ou menos feia não têm relação com a roupa que visto, por exemplo. Já me senti melhor vestindo só moletom (ou andando como uma mendiga em casa) ou com jeans e camiseta, quase sempre de cara lavada. Quando vou a festas, me maquio e uso roupas de festa, mas aquela não sou eu. Não me reconheço ali. Pode ser que às vezes fique melhor do que seja naturalmente, pode ser que não. Bem, percebe-se que a vaidade não é minha marca. Mas a vaidade também não é condição para beleza ou para feiura. Em geral, a vaidade acaba sendo uma forma extra de cuidar de si, seja física, seja emocionalmente. A vaidade pode mudar a percepção que uma pessoa tem de si, mas, honestamente, conheço poucas pessoas que ficam muito mais bonitas porque são vaidosas.

Há algumas coisas em que me sinto muito bonita. Assim, como pessoa, sou imodestamente muito bonita. Acho que tenho empatia, que sou amiga dos amigos, que não meço ninguém pela minha régua, que sou acolhedora, que sou humana, que sou espirituosa, que sou humorada e um pouco piadista. Claro que nem tudo sempre, mas penso que sou assim, como descrevi, em muitas ocasiões na vida. Não sou essencialmente humilde, mas não me vejo melhor do que ninguém. Acho que tudo isso me faz bonita. Não fisicamente bonita, mas bonita. Não sou vaidosa com o que é palpável, mas sou orgulhosa da vida que levo. Essa beleza não física tampouco é tangível, é um jeito de ver beleza com um olhar particular, ora, como se vê qualquer beleza. Aqui não é uma compensação de mim comigo mesma, é uma forma de se julgar, apenas. Neste caso, é minha forma particular de avaliar minha beleza particular. Há pessoas lindas por dentro e por fora, há o contrário e há uma infinidade de possibilidades entre esses dois extremos.

Olhar fisicamente pessoas bonitas, lógico, é super bom. Pessoas bonitas são fisicamente interessantes e isso, para mim, não está diretamente ligado a flerte ou a sexualidade. Já vi homens lindos, de parar para ficar admirando, mas que não me via nem chegando perto para ser amiga, porque o interesse era apenas plástico. Uma pessoa bonita pode ser tão plástica e artística como uma obra do Picaso (sem piadas cubistas, por favor), uma sinfonia de Beethoven, uma peça de Shakespeare, um solo de Pepeu Gomes.

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LOTERIA

Estava me dando conta de que, desde que a vó faleceu, a MegaSena é um fenômeno totalmente inexistente da minha vida. Mesmo quando a vó não pedia, eu acabava jogando os números dela, numa insistente obediência burra. Quer dizer, por amor fazemos coisas insanas, mesmo. E chamo de insano não no sentido de criticar jogar numa loteria, mas de fazer uma coisa sem simplesmente saber por que faz e continuar fazendo.

Muito bem. A vó morreu e eu parei de jogar na loteria, como que magicamente.

E daí? E daí fiquei tentando achar significado para a vó querer passar a vida tentando ganhar na loteria e eu não. Bem, o sentido da loteria na vida da vó não tenho como precisar. Poderia divagar sobre isso, mas vou tentar divagar sobre por que isso já não faz parte de mim.

E descobri. Porque sou rica. Porque ganho um pouco na loteria todos os dias. Passei um finde ótimo, regado a risadas com amigos: ouvimos boa música, bebemos boa cerveja, comemos boa comida. Passei um dia com minha ex-aluna, que é minha amiga, que me conta a vida, que divide confidências, que entende que a vida é bonita apesar de tudo, que gosta de ficar perto. Mateei, cantei, amei e tenho feito muito disso nos últimos dias.

As pessoas têm me encontrado e sido generosas não porque perdi uma referência de vida e estão com pena (quer dizer, não quero acreditar nisso, na verdade, porque que de última para ambas as partes, né?), mas porque estão dando o que têm de melhor e tenho aprendido a receber. Citei esses últimos dias apenas porque lembrei de relacionar à loteria da vó, mas tenho sido acolhida imensamente, amorosamente e divertidamente. Há vários dias, de vári@s querid@s.

O bom humor, para mim, é a coisa mais deliciosa na vida e acho que as pessoas me entendem. Não adianta, para mim, querer me consolar do que não há consolo. Então dou e recebo o que se pode: bom humor, amor, sorriso. Tenho uma teimosia quase infantil em ser feliz.

Nenhuma situação incômoda ou desconfortável sobrevive no meu corpinho (corpanzil, melhor): o que não serve tem de ser mudado; se não consigo mudar imediatamente, aprendo a conviver até modificar e deixo de ser infeliz. A infelicidade e a tristeza não habitam minha vida: nem por escolha, por natureza minha, mesmo; por inatismo. Todo mundo nasce para brilhar e, como diz a canção, “this little light of mine / I’m going to let it shine”. Não que eu seja iluminada, mas há alguma coisa de bonito que eu, aqui, humildemente, posso compartilhar. E só quero se for bonito. E só quero se for feliz. Menos que isso não é para mim. Menos do que isso não serve para ninguém.

A felicidade está ao meu lado, a um toque de telefone, num abraço, a três horas de ônibus, numa lembrança, num vídeo, num timtim… E ela não me abandona, por teimosia, mesmo. Para que MegaSena?

É tempo de amor. É tempo de dor.

Bem, nem todo mundo acompanha a atividade do blogue e do Facebook e muita gente, que nem sabe quem sou, cai aqui.

Em primeiro lugar, seja bem vind@, não importa de onde, não importa quando.

Mas você não sabe — ou sabe — que ando tendo dias de adaptação. Minha avó faleceu há dez dias e estou aprendendo a viver sem um pedaço fundamental da minha vida. Ela, logicamente, é fundamental (é, assim, no presente, porque embora não seja física, continua presente) pela referência de caráter, de pessoa, de afeto, de apoio que me deu ao longo dos 34 anos que ora apresento. Perder alguém que é insubstituível e preenchia minha vida não tem sido fácil e, por isso, tenho reaprendido a viver. Sabe por que “reaprendido”? Vou explicar. Nos últimos anos, minha rotina era ver a vó quase diariamente. Ver, saber, ouvir, perguntar, me preocupar, me ocupar, organizar as demandas dela, cuidar, olhar, tocar, mexer, enfim, minha avó me enevoava e, mesmo que isso soe cansativo para quem lê, olha: que delícia que era! Não troco a responsabilidade com minha avó pela tranquilidade de viver (um pouco) menos preocupada hoje.

E daí aparecem os amigos para aliviar a vida. Tenho saído, encontrado e procurado pessoas que me fazem bem em todos os últimos dias. Já tenho compromissos de trabalho e outros extras que vão me encher de atividade para que a falta da vó seja mais sentida, mas menos sofrida. Está bom fazer isso, porque há uma dor que só será curada com o tempo; porém, mesmo que o luto tenha de aparecer, não pode dominar a minha rotina. Um chorinho diário pode, mas não posso paralisar a vida por quem me deu vida em abundância junto com minha mãe e família. Saber colocar isso em prática requer exercício, requer se forçar a não ceder para o péssimo humor e requer solidariedade de quem está ao redor.

E daí aparece a arte para aliviar a vida. Hoje, logo que pensei na vó, de manhã cedo, veio uma canção do Baden Powell, que adoro, mas que fez mais sentido hoje do que nunca: “Ah, bem melhor seria / Poder viver em paz / Sem ter que sofrer / Sem ter que chorar / Sem ter que querer / Sem ter que se dar […] / O tempo de amor / É tempo de dor / O tempo de paz / Não faz nem desfaz / Ah, que não seja meu / O mundo onde o amor morreu”. Quer dizer, onde há amor, há conflito, há dor, há coisas a serem resolvidas. Então, o eu-lírico diz que prefere o conflito e a dor do que a paz, que é o vazio e o nada. Que tristeza viver no nada! E acho que o Baden tem razão: tenho dor, porque tenho amor; mas bem que eu gostaria de viver sem ter de sofrer, sem ter de chorar. Quando tem de se dar, ou seja, quando tem amor, tem fragilidade e é nesse espaço incerto que nos damos a conhecer.

Estou preferindo não ter paz. Tendo de sofrer. Tendo de chorar. Tendo que me dar para um amor a mais.

“Ah, que não seja meu / O mundo onde o amor morreu”

Adoro essa canção original, porém acho a versão do Herbie Hancock com a Céu es-pe-ta-cu-lar. Essa é do Imagine Project, um disco com versões lindas. Vale conferir:

 

Ser feminista é uma urgência

Lá venho eu, (veja bem) de novo, escrever sobre o feminismo. E sempre escrevo como um fenômeno social e conjecturo e discuto como se ele tivesse a ver comigo, mas em tese. Não. Hoje vou escrever porque o feminismo é para mim, pessoalmente, é para me proteger. Sou feminista porque sou egoísta.

Queria escrever sobre o caso da Fabíola (que é óbvio que não assisti o vídeo e não tive maiores informações além de notícias), que é uma violência à mulher e, mais do que isso, a sua honra, já que ela foi denegrida nacionalmente, numa situação que poderia ter sido resolvida em família, com todas as dores e julgamentos que cabem, mas que não dizem respeito à vida social dos envolvidos. Aliás, ela e o homem que estava com ela eram comprometidos, mas ninguém sabe o nome do outro, só da Fabíola. Que merda. Mas hoje não vou defender a Fabíola. Não quero saber dela.

Quero saber de mim.

Uma pessoa próxima está sofrendo violência porque teve um relacionamento abusivo com um homem ignorante. Da relação, um filho. Desde o começo do namoro até hoje (separados há muitos anos), uma relação abusiva na potência dez. A mulher tenta reconstruir sua vida, mas vive com medo. Encontra outro parceiro — que não desenvolve um afeto totalmente saudável, mas ok, ele não a machuca fisicamente e isso já é vantagem — e esse parceiro não pode ter uma história linear com a mulher, porque afinal há um troglodita que pensa que pode mandar nela, que ela não deixou de ser sua propriedade.

É o horror. É O HORROR! Quem vive em volta, teme pela criança. Teme pela mulher. Teme pelo deboche que o homem tem da justiça. Teme o tempo inteiro e não consegue relaxar, porque a violência física, psicológica e simbólica rondam a mulher, a criança e as pessoas próximas. Mais triste é o quanto as pessoas julgam a mulher: “deveria ter feito isso”, “não poderia admitir aquilo”, “esperou tempo demais para entender que o relacionamento era abusivo” — e é lógico que todos estão certos — mas nada anula a doença da pessoa que acha que pode tratar a mulher como um ser humano inferior. Essa doença tem de ser combatida, denunciada, afetada. Nenhuma mulher tem de viver sob esse jugo, não importa o que tenham feito ou o que tenham negligenciado. Nenhuma, por mais errada que esteja, por mais vadia que seja, por mais mentirosa que seja. Nenhuma.

Fiquei chocada com a história da menina que foi estuprada por trinta homens no Rio. “Ah, mas ela era usuária de drogas”, “ah, mas ela tinha filho”, “ah, mas ela foi para o lugar onde esses meninos estavam” e não há nenhum “mas” que motive o estupro e a difamação da menina na internet. Ela poderia ser puta e poderia ter uma vida vacilante, isso não importa. Os problemas dela não explicam o estupro físico e simbólico. Ela foi violada porque existem violadores e o feminismo quer que violadores não existam.

Esses casos são extremos e, apesar disso, são comuns. Quase todos os homens que conheço já denegriram a imagem de uma mulher em algum momento, tenham saído ou não com ela. Quase todos julgam negativamente e em público, seja pela roupa, pela vida pregressa, pela forma que fala. Isso é ser abusivo e esse é o primeiro passo para que o violento exista. O exagero aparece onde a doença é naturalizada.

Que o caso próximo a mim e o caso do jornal sejam resolvidos com mais feminismo, o que significa mais igualdade e menos relação de poder. Que a gente fale mais sobre isso para conscientizar homens e mulheres e que todos entendam que são iguais em direitos e deveres.

Que eu pare de escutar esses casos. Que eu pare de viver no meio disso. Que isso pare de me afetar, porque é difícil. É difícil se sentir insegura e vulnerável, por uma escolha que sequer fiz: ser mulher.

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Monumento à Catia Abreu

Uma das coisas mais legais de morar onde moro é ter as vantagens de viver na Cidade Baixa, ter uma vida diurna e noturna relativamente vivas e, ao mesmo tempo, estar nos fundos de um prédio, bem no meio da quadra, onde se encontram os pátios dos térreos dos prédios ao redor, passando dias e noites em quase silêncio, não fosse o escarrador e sua vida afetiva exibicionista.

Meus vizinhos do térreo, senhores de muita experiência, têm um abacateiro frondoso, daqueles que a gente morre de inveja de não ter o pátio e a árvore e os frutos. A verdade é que o abacateiro até me dava certo medo, porque se um abacate caísse em um dos dois senhores, teríamos uma possível tragédia.

Mas a tragédia não vai acontecer. Acordei um feriado desses aí com o barulho de motosserras e pensei: “que bom que vão dar uma aparadinha”. Que nada. Fizeram um monumento à Catia Abreu, tosando a árvore e me tirando a primavera de passarinhos e caturritas (apelidadas de angry birds, por mim, dado seu canto idêntico ao jogo — ou seria o contrário?). Não que não tenham mais caturritas, mas elas estão distantes, agora, só escuto seus ecos. Não que o verde tenha sumido, ainda existe. Mas o abacateiro, não.

A Cidade Baixa tem deixado de ser a Cidade Baixa desde que me mudei para cá. Está insegura e, às vezes, não reconheço o perfil que havia logo que cheguei. Mas agora estão tirando meus passarinhos, quer dizer, de tudo, só está sobrando a pior parte — no caso, o escarrador.

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