Ser feminista é uma urgência

Lá venho eu, (veja bem) de novo, escrever sobre o feminismo. E sempre escrevo como um fenômeno social e conjecturo e discuto como se ele tivesse a ver comigo, mas em tese. Não. Hoje vou escrever porque o feminismo é para mim, pessoalmente, é para me proteger. Sou feminista porque sou egoísta.

Queria escrever sobre o caso da Fabíola (que é óbvio que não assisti o vídeo e não tive maiores informações além de notícias), que é uma violência à mulher e, mais do que isso, a sua honra, já que ela foi denegrida nacionalmente, numa situação que poderia ter sido resolvida em família, com todas as dores e julgamentos que cabem, mas que não dizem respeito à vida social dos envolvidos. Aliás, ela e o homem que estava com ela eram comprometidos, mas ninguém sabe o nome do outro, só da Fabíola. Que merda. Mas hoje não vou defender a Fabíola. Não quero saber dela.

Quero saber de mim.

Uma pessoa próxima está sofrendo violência porque teve um relacionamento abusivo com um homem ignorante. Da relação, um filho. Desde o começo do namoro até hoje (separados há muitos anos), uma relação abusiva na potência dez. A mulher tenta reconstruir sua vida, mas vive com medo. Encontra outro parceiro — que não desenvolve um afeto totalmente saudável, mas ok, ele não a machuca fisicamente e isso já é vantagem — e esse parceiro não pode ter uma história linear com a mulher, porque afinal há um troglodita que pensa que pode mandar nela, que ela não deixou de ser sua propriedade.

É o horror. É O HORROR! Quem vive em volta, teme pela criança. Teme pela mulher. Teme pelo deboche que o homem tem da justiça. Teme o tempo inteiro e não consegue relaxar, porque a violência física, psicológica e simbólica rondam a mulher, a criança e as pessoas próximas. Mais triste é o quanto as pessoas julgam a mulher: “deveria ter feito isso”, “não poderia admitir aquilo”, “esperou tempo demais para entender que o relacionamento era abusivo” — e é lógico que todos estão certos — mas nada anula a doença da pessoa que acha que pode tratar a mulher como um ser humano inferior. Essa doença tem de ser combatida, denunciada, afetada. Nenhuma mulher tem de viver sob esse jugo, não importa o que tenham feito ou o que tenham negligenciado. Nenhuma, por mais errada que esteja, por mais vadia que seja, por mais mentirosa que seja. Nenhuma.

Fiquei chocada com a história da menina que foi estuprada por trinta homens no Rio. “Ah, mas ela era usuária de drogas”, “ah, mas ela tinha filho”, “ah, mas ela foi para o lugar onde esses meninos estavam” e não há nenhum “mas” que motive o estupro e a difamação da menina na internet. Ela poderia ser puta e poderia ter uma vida vacilante, isso não importa. Os problemas dela não explicam o estupro físico e simbólico. Ela foi violada porque existem violadores e o feminismo quer que violadores não existam.

Esses casos são extremos e, apesar disso, são comuns. Quase todos os homens que conheço já denegriram a imagem de uma mulher em algum momento, tenham saído ou não com ela. Quase todos julgam negativamente e em público, seja pela roupa, pela vida pregressa, pela forma que fala. Isso é ser abusivo e esse é o primeiro passo para que o violento exista. O exagero aparece onde a doença é naturalizada.

Que o caso próximo a mim e o caso do jornal sejam resolvidos com mais feminismo, o que significa mais igualdade e menos relação de poder. Que a gente fale mais sobre isso para conscientizar homens e mulheres e que todos entendam que são iguais em direitos e deveres.

Que eu pare de escutar esses casos. Que eu pare de viver no meio disso. Que isso pare de me afetar, porque é difícil. É difícil se sentir insegura e vulnerável, por uma escolha que sequer fiz: ser mulher.

fear

Anúncios

Monumento à Catia Abreu

Uma das coisas mais legais de morar onde moro é ter as vantagens de viver na Cidade Baixa, ter uma vida diurna e noturna relativamente vivas e, ao mesmo tempo, estar nos fundos de um prédio, bem no meio da quadra, onde se encontram os pátios dos térreos dos prédios ao redor, passando dias e noites em quase silêncio, não fosse o escarrador e sua vida afetiva exibicionista.

Meus vizinhos do térreo, senhores de muita experiência, têm um abacateiro frondoso, daqueles que a gente morre de inveja de não ter o pátio e a árvore e os frutos. A verdade é que o abacateiro até me dava certo medo, porque se um abacate caísse em um dos dois senhores, teríamos uma possível tragédia.

Mas a tragédia não vai acontecer. Acordei um feriado desses aí com o barulho de motosserras e pensei: “que bom que vão dar uma aparadinha”. Que nada. Fizeram um monumento à Catia Abreu, tosando a árvore e me tirando a primavera de passarinhos e caturritas (apelidadas de angry birds, por mim, dado seu canto idêntico ao jogo — ou seria o contrário?). Não que não tenham mais caturritas, mas elas estão distantes, agora, só escuto seus ecos. Não que o verde tenha sumido, ainda existe. Mas o abacateiro, não.

A Cidade Baixa tem deixado de ser a Cidade Baixa desde que me mudei para cá. Está insegura e, às vezes, não reconheço o perfil que havia logo que cheguei. Mas agora estão tirando meus passarinhos, quer dizer, de tudo, só está sobrando a pior parte — no caso, o escarrador.

img_20161002_181157944

A moda da paternidade

Estou ensaiando escrever esse post há muito tempo, pois gosto de abordar as questões feministas pela ótica do homem. Veja bem, o feminismo não é o contrário do machismo, ou não é uma tendência que entende que mulheres devem ser contra homens. Entendemos — as feministas — que homens e mulheres devem compartilhar direitos e deveres, respeitados seus limites e diferenças físicas. Acreditamos que todos devemos ter o poder na cidadania tão igual quanto possível.

Compreendido esse pressuposto inicial, começo o texto, enfim. Com a moda da maternidade tão forte nos últimos tempos (ou simplesmente eu que cheguei na idade alvo e acho que todos procriam ao meu redor, mas é só um fenômeno da minha geração), não vejo muita gente falando sobre paternidade. Ao contrário, blogues com mulheres dando depoimentos sobre a maternidade tem aos baldes. Num mundo mais feminista, precisamos saber o que, então, o homem poderia fazer, especialmente nos espaços que nunca foram deles, ou ainda, está na hora de os homens ocuparem os lugares que eram, antes, apenas das mulheres.

Graças a uma tendência por metodologia, percebi que, ao longo das gerações, existiam, principalmente, três tipos de pais (os que não participam nem in praesentia da vida dos filhos não estarão na categoria “pais”, nesse texto): os provedores, os que ajudavam e os que dividiam as tarefas de cuidado. Geracionalmente, os provedores eram os mais comuns na época de minha avó e os mais “pra frentex” na época de minha mãe ajudavam. Cortando um pouco a linearidade que eu esperava, não observo como tendência atual o cara que divide as tarefas com a mãe. Na verdade, tenho a impressão de que houve uma estagnação entre essas gerações e o mais comum é um pai bobo, que não decidiu sobre a paternidade (a decisão de ter filhos é da mulher emancipada) e que “ajuda” quando a mulher, sei lá, precisa tomar banho.

Bem, aqui já deu para perceber que o tipo “que ajuda” é, para mim, o mais problemático, pois o que divide, ok, está de acordo com como penso e o provedor surge de um acordo machista entre ele e a mulher (e ninguém nesse caso parece se incomodar com esses papéis bem definidos). Para mim, o cara “que ajuda” é um idiota ou um cara idiotizado (sem ofensas), é um cara que foi escolhido para “quebrar um galho” e se acomoda em ser segundo plano, mas verbaliza outra coisa. Sempre tenho pena do cara quando escuto alguém perguntar para uma mãe: “e como fulano é como pai?” e ela responde: “nossa, ele me ajuda muito!”. Sinceramente, parece, para mim, que o cara vai lá ocupar seu lugar de coadjuvante e a mulher como responsável pela criança continua fazendo praticamente o mesmo que a mulher do provedor, mas com ares de modernidade e com a bobice de pegar no colo, jogar no ar uma vez e levar para a mãe, pois não sabe mais o que fazer com a criança.

O argumento para essa “ligação fortíssima” entre a mãe e o bebê é a amamentação. É verdade que é fácil gostar do seu alimento, principalmente quando se tem dias de vida. Mas a amamentação não precisa ser realizada apenas pela mãe: se o cara quiser, dá um incremento à natureza e participa do momento da alimentação. Daí falam que é uma relação primitiva a de mãe e bebê e fico procurando os tacapes da casa, por que, né? Acredito que a ligação fortíssima tem uma explicação, sim, e se chama “licença maternidade”, em que a mulher fica 24h com a criança nos seus primeiros seis meses e o pai fica esse tempo apenas na primeira semana. Mas para uma pessoa que “aceitou” ser o segundo plano na geração de uma nova pessoa e não decidiu exatamente sobre isso, essa falta de maturidade ou falta de ser adulto é, até, esperada; então, não será o tempo o único marcador de que o cara será um ajudante, não um co-protagonista.

Daí o cara vai ser pai. E quer ser tão protagonista dessa aventura quanto a mãe. O que fazer? Tem de aprender a ser pai. Nós somos ensinadas desde pequenas. Fico impressionada do quanto sei sobre gestações e questões relacionadas, só por ouvir dizer. Se ficasse grávida, mesmo que fosse tudo novo — e, provavelmente seria, pois as vivências são bem particulares — eu já teria tateado, ou já teria “ouvido falar” dos fenômenos relacionados. Homens não. Homens precisam de manual de instruções (se não quiserem ser ajudantes ou provedores), porque ninguém diz a eles o que acontece, o que fazer ou como fazer.

Para isso, louvo alguns trabalhos de divulgação da paternidade. Isso soa estranho, pois a paternidade existe desde que mundo é mundo. Ah, mas a paternidade ativa precisa fazer sentido, assim como a maternidade já faz há muito tempo. Por mais que muita gente ache piegas, o blogue português “Duas para um” é um bom exemplo de um cara que conta qual é esse negócio de ser pai e de querer participar da vida da criança. O link está AQUI. O Piangers fez livro, TED e faz grande divulgação de seus textos sobre a paternidade, evitando maniqueísmos e colocando dilemas reais (eu acho, sei lá) na vida do cara que decide dividir a tarefa de educar e criar um piá. O link do Piangers está AQUI.

Não sei o que é ser mãe e nunca saberei o que é ser pai. Mas acredito que o pessoal que deseja procriar deveria pensar ativamente em como ser um adulto efetivamente influente na vida da criança. Deve ser uma tarefa muito difícil. Hercúlea. Mas quem topa estar junto e não ser estátua só na formatura e nos aniversários diz que é uma experiência muito profunda e emocionante.

Fui encontrar os meus

Eu e tu, que fomos ao manifesto no último dia 18, estávamos lá para nos encontrar. Principalmente, para saber que não estávamos sozinhos. Porque temos passado dias difíceis.

Após o episódio do mensalão — que sabemos que não era prática isolada, que sabemos que caiu no colo do PT, que sabemos que o PT poderia (e deveria) ter dado outra volta no caso, que sabemos que não governaria se apertasse, enfim –, começamos a ficar acuados. Nossos parentes e conhecidos passaram a nos provocar e abaixamos nossas cabeças. Se levantávamos, era para defender o Bolsa Família ou o Minha Casa Minha Vida. E fomos nos cansando. E fomos nos afastando.

Sabíamos que não éramos do PT, mas de esquerda, e entendíamos que criticar era preciso. Não queríamos ser a Venezuela — embora a respeitássemos. Simpatizamos com o PSOL, analisamos a conjuntura e fomos ficando mais acuados. Assumimos que a luta tem de ser pacífica, não somos fascistas, somos democráticos, temos de ouvir o contraditório, aceitar o contraditório e cansamos de argumentar. Quisemos, enfim, ser ponderados e equilibrados. Nos afastamos mais. Nos desiludimos uns com os outros.

Até que veio a eleição de 2014. A direita já se impôs em “nós” e “eles”. Os contra e os a favor da corrupção. E passamos a não admitir Aécim apontando o dedo. Descobrimos que o problema era o sistema político, que no sistema atual não existem éticos. Entendemos que reforma política era necessária. Enfim concluímos que empresa não dá doação para campanha, ela investe (ou por que será que a Friboi doou 5 milhões para a Dilma, mais 5 para o Aécim e outros milhões para o Eduardo Campos?). Votamos na esquerda só para evitar o PSDB, mas demos mais um passo longe de nós mesmos. Votamos dando explicação. Caímos no jogo da direita.

O (não) pensamento fascista ou o reducionismo de direita é um movimento latente no mundo. Parece que estamos numa crise brasileira, mas estamos conectados. Também a direita quer que a gente pense que “isso só acontece no Brasil”, pois é mais fácil achar um salvador da pátria à moda antiga com cara de moderno. Não estamos sós, mas achamos que estamos.

Desde 2014, baixamos a cabeça e custamos a entender que éramos muitos. Quando Dilma tentou negociar, espinaframos. Não éramos base, não éramos militância. Aliás, só entendemos alguma coisa quando a situação do tudo ou nada — que vem desde 2013-2014 — passou a depender de jogadas finais. Cansamos de ver arbitrariedade atrás de arbitrariedade judicial. Vazamentos seletivos ad eternum. Aceitamos, finalmente, que política não é de bons e maus, é de gente boa e ruim ao mesmo tempo. Estamos acuados, não falamos mais nada na internet, queremos ficar de bem com todos, brigamos com os amigos. Chegou o momento do tudo ou nada. Polarizou. Todos perdemos. Pronto, vem o impeachment.

Foi por tudo isso que fomos encontrar os nossos na sexta, dia 18. Nos tornamos lulistas e dilmistas novamente porque a alternativa a isso é muito mais sacrificante, porque acaba com a Constituição, porque dá vitória à perda de humanidade e de cidadania. Cansamos ao longo dos anos, mas nos cansamos, também, de estarmos acuados. Pode ser que tenhamos acordado tarde, mas nos olhamos, sexta, sem medo, e percebemos que, se houver a concretização do golpe, haverá reação. Não estamos dispostos a aceitar qualquer coisa que fira a democracia. O golpe só não foi concretizado porque ainda somos resistentes, ainda vigiamos. Lula, se resolver, não vai resolver como gostaríamos, mas é nosso braço de luta, é, junto com Dilma, nossa jogada final para a manutenção da democracia. Não há meio termo, não há equilíbrio. Dia 31 vou, novamente, encontrar os meus. Porque sentia saudades.

 

Enquanto escrevia o post, fiquei pensando em uma canção: “Caçador de mim”, do Milton. Principalmente por causa desses versos: “Por tanto amor / Por tanta emoção / A vida me fez assim / Doce ou atroz / Manso ou feroz / Eu, caçador de mim […] Nada a temer senão o correr da luta / Nada a fazer senão esquecer o medo / Abrir o peito a força, numa procura”. Achei que fizesse sentido. se não fizer, podes ficar com o Milton, que é um chuchu e dispensa comentários.

 

365 perguntas

Há bastante tempo tenho notado que não passo praticamente NENHUM dia sem responder a pergunta:
— Quando tu vai ter filhos?

A verdade é que só não escuto esse tipo de pergunta nos dias que não saio de casa. Com o tempo, comecei a pensar que tinha de saber responder a essa pergunta e passei a tentar saber o que quero. Pensar sobre a maternidade é mais ou menos como pensar em religião — dadas as devidas proporções e dadas as devidas confusões –, pois, à medida que se pensa a respeito, menos tenho respostas.

No início, comecei a entender que as pessoas te perguntam esse tipo de coisa sem ter nenhuma intimidade. Perguntam sobre minha vontade de ter filhos, mas não perguntam se tenho vontade de fazer doutorado, por exemplo. E acho que perguntar sobre carreira é menos invasivo do que perguntar sobre um desejo ou projeto de vida, que, em alguns casos, pode não ser realizado e/ou independe da mulher.

A revolução sexual trouxe consigo a possibilidade do controle gestacional. Não, o controle gestacional não foi obra do advento da TV. As mulheres e os homens puderam se empoderar sobre a concepção e acho isso genial. Mulheres e homens conhecem a regra e podem manipulá-la. Pois é. Não. Na prática, muitos anos depois da liberdade sexual, mulheres manipulam a regra e homens parecem ser uns bobalhões, porque a eles nem o direito de escolher a paternidade é dado. Não estou diminuindo os homens, tampouco desconsiderando que escrevo uma generalização (que é sempre falha e não vê as particularidades), mas tento retratar como o papel masculino é dado, não como é realizado pelos homens.

O Luis Fernando Verissimo escreveu uma crônica em que ironicamente criticava o casamento gay. Não é que ele fosse contra o fato de gays casarem, mas ele diz que nos anos 1970, as vanguardas acreditavam que os gays seriam a força capaz de debochar da ideia tradicional de casamento e, com isso, romperiam alguns tabus que essa geração não conseguiu dar conta. Estamos nos anos 2010 e o casamento (ou a pompa e circunstância dele) está mais forte do que nunca, inclusive entre os gays. Para mim, o sonho do casamento é absolutamente legítimo e, diante do que temos e do que vivemos, mais legítimo ainda para os homossexuais, sobretudo se pensarmos nos direitos civis. Essa legitimidade se dá individualmente, pelos sonhos e desejos de cada um. Porém, pensando coletivamente, concordo com a linha de raciocínio do Verissimo. Sabe por quê? Porque frequentemente perguntam às garotas dos casais que vivem juntos: “e quando vocês vão casar?”, como se casados já não fossem, como se lhes faltasse algo, como se esse fosse um desejo feminino. Quem somos nós para questionar o que falta ou não em um casal ou em um amalgamado de relações? Nesse sentido, tenho percebido que, num casal heterossexual comum, o homem é a pessoa sem vontade, que (na maioria dos casos) topa fazer uma festa de casamento para realizar o sonho da mulher. Como disse o padre de uma cerimônia que eu fui, “essa é a realização de UM sonho” (o sonho da mulher).

Essas imposições e papéis ficam piores a medida em que a idade da mulher avança. Hoje em dia, na classe média, é aos 30 anos. Não importa se a pessoa tem ou não um relacionamento — e isso é bom, do ponto de vista de empoderamento feminino — ou se a pessoa está financeiramente estável. “Quando tu vai ter filhos?” Então, parece que todo o feminismo vai para o saco e o que sobra é algum primitivismo onde só constituem papéis importantes na sociedade as que “conseguem” parir. Geralmente, essa pressão é feminina, mesmo, o que parece ser uma certa crueldade entre as iguais. As pessoas podem pensar que estou exagerando por muitos motivos, mas peço a reflexão: é natural que pessoas diferentes, com intimidades diversas contigo, te perguntem todos os dias sobre tua reprodução e suscitem argumentos biológicos para opinarem em tua vida? Se tu pensas que sim, pode trocar de texto, que o meu não vai contribuir com esse argumento.

De toda a sorte, descobri que tenho respondido o que há de pior, porque causa certo estranhamento nas pessoas, mesmo.
— Quando tu vai ter filhos?
— Não sei.
— Mas tu quer ter, né?
— Não sei.

Passei dos 30 anos e não tenho o direito de não saber. Quando eu dizia “SIM”, ok, sou uma mulher aceita, sou maternal e tal, tudo normal. Quando eu dizia “NÃO”, causava algum desconforto, mas todos tinham algum bom argumento: “Ah, já sei. É porque tu trabalha com criança e já passa tempo demais cuidado das crianças dos outros…” E eu fazia cara de “Âhn?”

Nessas de tentar ser mais honesta comigo, comecei a responder a verdade, que não sabia, que não me sentia responsável o suficiente para decidir e que não tinha uma necessidade biológica e psicológica por passar por uma gestação (a verdade é que tenho certo medo, até). As pessoas já têm filhos demais, já erram demais (esse assunto é para outro post) e não sei se quero seguir o mesmo caminho, embora cada caminho seja único, seja particular. Bem, não saber sobre a maternidade parece pior, porque parece que desdenho essa “maravilha tão divina e fantástica” na vida das mulheres, parece que não sei que há tantas tentando, sofrendo e não conseguindo. Sei que as pessoas não se arrependem de ter filhos, mas sei que muitas os têm em momentos equivocados de suas vidas. Então, me dou o direito de não saber se quero filhos, apesar de ter 33 anos e a “idade pesar”, como tanto me falam. Se um dia decidir ter filhos e o corpo não permitir, posso adotar e meu desejo maternal vai ser realizado no momento certo. Ou se decidir não ter filhos, posso levar uma vida com menos rotina do que uma criança exige. Posso também decidir ter filho num ímpeto e carregar um rebento até o fim do ano. Mas não respondo hoje, que não sei realmente o que quero.

Aos homens, o direito à paternidade também é dado. Mais ou menos. Ninguém pergunta quando o homem — solteiro ou não — quer ter filhos. Se ser pai solteiro também é possível, por que poucos realizam? Por que poucos são encorajados? Por que a procriação é responsabilidade feminina — assim como o casamento? O Ricky Martin e o Cristiano Ronaldo queriam filhos oriundos de sua genética. Os dois contrataram barriga de aluguel e, por isso, foram rotulados de homossexuais (como se ser gay fosse defeito e/ou fosse condição para a “maternidade/paternidade”). Ricky Martin é gay e Cristiano Ronaldo, parece (não sei sobre sua vida afetiva, na verdade), não é, embora isso não importe. Importa que os dois se empoderaram (eita palavra da moda!) e decidiram eles mesmos sobre a paternidade, como tem de ser, como conquistada pela revolução sexual.

Aos que me perguntam sobre minha vontade de ter filhos, podem continuar perguntando. A pergunta não é ofensiva, nem me faz mal. Não acho que ninguém queira julgar as outras através dessa pergunta. O contexto, os implícitos e as imposições de papéis que a pergunta suscita, sim, esses acho que não fazem mal a mim, mas fazem mal à condição feminina. Sei que para muitos é difícil que alguém da minha idade não saiba sobre sua própria reprodução, mas não saber é o que tenho de mais honesto para responder.

Não vou responder a essa pergunta [sobre ter filhos estar entre as suas prioridades]. Não estou furiosa por terem feito essa pergunta, mas já disse diversas vezes: duvido que alguém faça esse tipo de pergunta a um homem.” (Zooey Deschanel)

Esse texto foi inspirado em alguns outros textos:

Felizes sem filhos

Não ter filhos por opção

10 coisas que toda mulher sem filhos já ouviu” (e é tudo real!)

O amor (qualquer amor) é esforço

Hoje eu li um artigo do El País que dizia uma coisa bem interessante: “Para se apaixonar por qualquer um, faça isso” [AQUI, na versão original]. Só de ler o título, o povo já pensa bobagem, desde “Oba, vou desencalhar facim” até “Não me meta nessa psicologia barata de jornaleco”. Como pensei nas duas bobagens — e nas variações entre os extremos — achei que valia o click e li.

A autora, Mandy Len Catron, explica como usou um experimento que promete amor fácil em sua vida. É bobo, mas ela faz alguns insights interessantes sobre as relações humanas. Primeiro, ela conhecia o desconhecido (o que o experimento não sugeria), embora só conhecesse, mesmo, não tinha nenhum tipo de proximidade. Depois, ela foi cheia de curiosidade científica sobre o experimento (vai saber qual era a intenção do outro, não é?) para saber se, POW!, o amor acontece. O experimento sugeria que o casal se fizesse 36 perguntas (que iniciavam de forma genérica e evoluíam para perguntas bastante pessoais) e, depois, se observasse, em silêncio, por quatro minutos, se encarando, mesmo. O fato é que estão namorando e blablabla whiskas sachê (para quem quer encurtar a história). Como na maior parte dos textos, o que me interessou nesse foi justamente o conjunto de observações que a pesquisadora fez, detalhando suas reflexões sobre esse desconhecido, o amor.

Se meu texto não te interessa mais, beleza, podes imprimir as 36 perguntas e ir à luta [AQUI as 36 perguntas].

Se ainda estás dispost@ a saber minhas considerações sobre o amor, ou a explicação, enfim, do título, senta aí, que vamos continuar a brincadeira. Mas com um pouco mais de prolixidade (sou eu, afinal).

Vamos começar com uma premissa: ao contrário da garota escrevente ao longo desse artigo, o amor, para mim, é necessariamente algo maior do que uma relação de casal; isso significa dizer que vou falar de AMOR(ES), porque amamos muito e amamos muit@s.

A primeira reflexão que a garota encontrou sobre o experimento é que o amor é ação. Ela disse isso em função de que havia uma predisposição dos dois em avaliarem o “experimento” e que a curiosidade e a vontade de se relacionarem com alguém motivou a ação do amor. Nesse sentido, o amor é voluntário, eles foram buscar conscientemente, com suas escolhas, o amor. Se apaixonaram porque quiseram.

Ao longo das perguntas e respostas do experimento, ela se deu conta de que, em pouco tempo, o nível de intimidade era alto e os dois se comportavam como adolescentes, ou seja, sem filtros. Parece que a falta de abertura que temos é, pouco a pouco, imposta pela idade e, pela minha observação, nossa tendência é limar a possibilidade de se dar a conhecer e de ser generoso e acessível aos demais. O estudo também sugere que, em algum momento, as duas partes envolvidas revelem três coisas que agradaram no outro, ou ainda, sugere que exista admiração, mesmo que provocada.

É lógico que ela se deu conta que eles “pularam etapas” de forma rápida, mas isso favoreceu o surgimento do relacionamento. No texto, a parte mais bonita é quando ela descreve o olho-no-olho, falando que as pupilas emocionam (e colocou o cronômetro, para fechar os quatro minutos do experimento). O sentimento dela é assim descrito: “Me sentí valiente y en un estado de asombro“. O cronômetro tinha motivo: olhar nos olhos aterroriza e, provavelmente, não haveria quatro minutos nessa brincadeira silenciosa — eu diria até que, num suposto caso brasileiro, as perguntas poderiam ser reduzidas pela metade e o olho-no-olho poderia ser de trinta segundos, já que (parece que) temos mais facilidade de nos apaixonarmos.

Agora, falando sério e retomando esses entendimentos de Dona Mandy, quando olhamos nos olhos? Quando nos damos a conhecer? Em geral, nos vejo como bobos, estúpidos e medrosos, em se tratando de nos mostrarmos abertos aos amores da vida. Somos, quase todos, aquela canção do Erasmo, “Minha fama de mau”. De outra forma, parece que nos enchemos de filtros ao conhecer as pessoas ou a medida que vamos ficando mais velhos. Não importa se nas relações de casal, de amigos, de família, de colegas; temos de ser duros na queda!

Cabe ressaltar que não sou exemplo para ninguém e, por ser meu blogue, faço minhas considerações sobre uma leitura reduzida às minhas experiências e absolutamente parcial. Vale dizer, ainda, que, para mim, todos os afetos são potenciais amores, embora poucos desses afetos tenham pesos e profundidades. Mas prefiro chamar de AMOR mesmo, porque as outras nomenclaturas estão (ainda mais) banalizadas e o AMOR ainda conta com um quê de sagrado (“está sacramentado / em meu coração“, como diria o Djavan).

Pessoalmente, sou bastante afetiva e, como qualquer pessoa, tive alguns reveses e acabei tentando manter minha fama de má. Com um pouco mais de idade, decidi ser honestamente eu, o que já era bem difícil. Embora ainda um pouco reticente, tento fazer com todas as pessoas que conheço o que diz o artigo de nossa querida Mandy: “esa especie de intimidad acelerada que recuerdo del campamento de verano […]. Con 13 años, […] parecía natural conocer a alguien tan deprisa”. Em outras palavras, tento me dar a conhecer e mostrar às pessoas que elas parecem divertidas (sim, pessoas bem-humoradas me fazem um bem!), legais, admiráveis, amáveis e isso é alegria para mim. Esse é o primeiro passo para qualquer amor, com qualquer pessoa que venha a fazer parte de minha vida.

É lógico que algumas vezes as pessoas confundem minha falta de filtros (ou simpatia gratuita) com puxa-saquismo barato e fogem de mim. Mas depois penso que, se não é para compartilhar, que não fique mesmo. Quero pessoas que não tenham medo de pessoas e que não tenham medo de ser gente. Às vezes, a falta de uma ou outra pode ser cruel, mas estar de bem consigo ainda é a melhor experiência de vida, pelo menos para mim.

Enfim, acho que o amor é fácil (e o experimento prova isso), mas as pessoas não. hearts unbrella

Caça às bruxas. De novo?

(AVISO: texto longo)

É, parece que a mídia não aprende e nós seguimos essa mesma lógica. Por quê? Proponho uma pequena digressão para aprender com os erros, assim como fazem os jogadores.

Em 2010, tínhamos um time campeão. Campeão, mesmo, porque em quatro anos de Dunga, não havia nenhum tipo de derrota, o time  seguia um técnico posto em dúvida e, em sua primeira derrota, nas quartas de final (se erro, me corrijam), Dunga é o “burro”. Se vocês se lembram, o time de Dunga era o Kaká (vindo de lesão) e mais dez. Daí tinha o Felipe Melo, que já não era questionado, mas todo mundo estava esperando ele se descontrolar e fazer uma falta. Bem, isso, de fato, aconteceu. Ele viu a Holanda mandar no jogo e se passou. Daí o Dunga virou burro, o Felipe Melo — que até então tinha servido ao time — era o marginal e o Kaká não tinha jogado nada. A seleção de 2010 tinha ido muito longe, se considerado que era uma seleção média (o Kaká vindo de lesão e mais 10) e foi longe porque tinha raça. Bem, raça sozinha não ganha Copa. Todo mundo sabe. E o Dunga, de capitão do tetra (e que capitão!), passou a “burro”.

O que aconteceu depois? A CBF não segura a pressão e coloca o Mano Menezes no comando. Um técnico que só se credencia porque tira times da segundona. Certo. Isso é um mérito, de fato. Mas diante da possibilidade real de um Muricy, que estava em seu melhor momento e vinha ganhando com técnica, tática e motivação, ganhamos um técnico que nem no “Curinthia” ia bem, apesar de a mídia paulista (corinthiana) (Obrigada, Ale, pela elucidação!) achar que ele fosse “o cara”.

Enquanto isso, a Alemanha, que tinha ido bem na Copa de 2010, mas não tinha levado a taça, estava SATISFEITA em ir para as cabeças e preparar um time de verdade para a Copa do Brasil. Entrosamento, adaptação tática e organização técnica (inclusive melhora de fundamentos de forma coletiva) foi o que eles fizeram. Trabalharam por seis anos e o país não ficou chamando o Joachim Löw de burro ou coisa parecida. Ninguém falou em renovação e o escambau (e o time nem era tãããão jovem: olha o Klose, hoje, com 36 anos!).

Daí, aqui no Brasil, alguém se deu conta de que o Mano não estava muito confiante e estava “renovando” por renovar, afinal era o clamor da “população”. Mentira. Era o clamor da mídia, que se tornou do povo por total convecimento. A CBF decide, então, parar com o discurso de renovação e chama o Luís Felipe, mas com o Parreira (?), porque dois campeões vão dar conta em um ano e meio. Quer dizer, todo mundo se planejando bem, mas o Brasil teria campeões e motivadores. O talento seguraria a taça. O hexa viria em casa.

A Copa das Confederações foi ótima e vamos considerar: poucos jogos e o melhor momento físico e de carreira dos jogadores. Era a Copa do Neymar. Nomes como Oscar, David Luís, Thiago Silva, que são, agora, “sensações” eram quase desconhecidos na Copa das Confederações. O fator motivação foi importante e perder a Copa das Confederações não seria um horror: era um time recomeçando. As outras seleções também não jogaram “às ganha”, vamos assumir. Porque esse torneio é quase um amistoso bem pegado.

Quando chegamos à Copa, “às ganha”, tínhamos um time que não estava 100%. O Luís Felipe estava tendo uma lua de mel com a imprensa, porque aprendeu com 2002 e com o Dunga — o que, hoje sabemos, não adiantou nada. Vamos falar a verdade: a CBF inicia tarde os treinamentos porque quer ficar de bem com os times da Europa, coloca o Luís Felipe e o Parreira a falar com todo mundo para dar boa imagem, mas não fez aquela receitinha da parábola da cigarra e da formiga, a mesma receitinha da Alemanha.

Estamos entre as quatro melhores seleções da Copa de 2014 e acho que fomos bem longe. A Alemanha estava orgulhosa de seus jogadores e de seu técnico com essa colocação em 2010; os alemães sabem que uma seleção vencedora demanda tempo e trabalho. O talento é inerente ao jogador brasileiro, mas, hoje, meu amigo, ninguém é mais bobo e ninguém vive de Amarildo. Vamos voltar a chamar o técnico de “burro” e os jogadores de sem talento? O Chile e a Colômbia receberam seus jogadores como heróis. Vamos envergonhar David Luís e Thiago Silva?

Honestamente, gostaria de mais quatro anos de Luís Felipe na seleção, assim como em 2010 queria mais quatro de Dunga. Muitos podem dizer: o técnico é culpado, então tem de sair. A culpa do técnico é real. Joachim Löw perdeu o jogo e não ganhou a Copa de 2010, bem ele foi o culpado. Mas ele formou uma equipe, preparou jogadores, deu cancha para esse time, disputou eliminatórias (enquanto o Brasil fazia amistosos ou peladas entre amigos). O Brasil chegou à semifinal por seus jogadores, que são ótimos, e porque tem/tinha Luís Felipe. Ele é o responsável pelo sucesso da equipe, foi ele quem ganhou o jogo contra o Chile e ele soube impostar-se em relação à Colômbia — que até pegar o Brasil era um timaço, confesse.

A verdade é que, para o jogo de hoje, senti mais falta do Thiago Silva, que, além de ser um monstro na zaga e ter uma liderança linda, ajuda a orientar o posicionamento do time, do que do Neymar, que é super individual. O time, lógico, estava com medo da Alemanha e meio preocupado porque faltavam peças importantes. Não era para ter renovação a qualquer custo? A renovação veio com imaturidade, mesmo que cheia de talento. Além disso, os guris precisaram assimilar em quatro dias a perda do capitão, a vértebra quebrada do outro colega, a favorita e a possibilidade de perder — porque, para a mídia, ou é o vencedor da Copa, ou é a derrota em forma de time. A seleção de 1998 foi o segundo lugar e perdeu para uma França com um dos maiores craques já vistos. Poxa, que honra perder para o Zinedine Zidane e seu lindo futebol, ainda mais com um “Fenômeno” passando mal ao longo da partida e os demais dez jogadores cuidando, como babás preocupadas, do nosso craque.

Não sei se Luís Felipe escalou mal ou posicionou mal. Não sei se a motivação ficou balançada e essa foi a razão de terem aberto as pernas num jogo vexatório. Os guris precisam passar pela dor: ser campeão depende do gosto amargo da derrota. A Alemanha pode nos contar mais sobre isso. Mas a derrota, mesmo a vergonhosa, não serve para nada se a gente não a usa como bagagem.

Parece que a mídia vai fazer novo desserviço chamando outro técnico de “burro” (não quero, eu, aqui, eximi-lo de sua responsabilidade pela derrota, é claro, mas avalie o contexto), a CBF vai tentar achar outro técnico para renovar o time e ninguém vai aprender com os erros e formar uma seleção mais madura com os talentos que aí temos.

Poderia ser diferente. Thiago Silva terá 33 anos em 2018: olha que lindo seria um zagueiro experiente ao lado de David Luís. Oscar vai tentar deixar de fazer o que faz Neymar para ter um espaço mais claro no seu time e na seleção, também. Seria ótimo, excelente: teríamos aprendido com os alemães que o trabalho é de formiguinha, que a derrota só aumenta o “sanguenozóio” e que essa seleção, já vitoriosa, seria coroada com a Copa de 2018. Mas a tendência não é essa: vamos viver de entre-safra de talentos e vamos continuar confiando em messias da bola.

Ninguém é infálivel e é por isso que agradeço ao Luís Felipe e aos 23 garotos por terem dado tantas alegrias nesse tempo e falhado UM jogo. Infelizmente, a voz da mídia é confundida com voz do povo e a CBF tende a acreditar na pressão dos jornalistas, que teimam em nos chamar de derrotados, quando poderiam fazer um serviço ao futebol e dizer que estamos com uma equipe jovem, em formação; e que deveríamos saudá-los porque foram guerreiros e porque têm talento e podem, se bem trabalhados, nos trazer o hexa em 2018. Eles merecem o hexa. Nós merecemos o hexa.

Previous Older Entries Next Newer Entries