Não tenho uma vida instagramável

Sim, existe esse termo. Em inglês, pelo menos: INSTAGRAMMABLE. E mais: há eleição de lugares mais instagramáveis para postar fotos, por exemplo, AQUI.

Quando falo sobre solidão e tristeza na adolescência com os alunos, explico que a vida da gente está cada vez mais feliz. Mas feliz para fazer o vídeo ou a foto para postar nas redes sociais. Digo sempre que suas festas e seus encontros são, muitas vezes, entediantes e que só riem, falam alto e se animam quando aparece uma câmera. E eles sempre confirmam: é isso mesmo. A felicidade é instante para o Instagram.

 

Ano passado, desfiz meu Instagram. Comecei a usar mais o Twitter. Passei, pouco a pouco, a entender que, assim como a maioria, estava usando o Instagram para ganhar biscoito. Fazia publicações brincando com alguma coisa minha, debochando ou fazendo um texto que era mais do que uma foto e isso nunca foi compreendido. Porque o Instagram não é para isso — parece óbvio, mas não foi, para mim. Um dia, fiz uma maquiagem para sair e parecia que, intencionalmente, eu tinha usado referências sessentistas no rosto. Fiz uma foto, postei no Instagram e brinquei com as palavras e as dimensões de seus significados: “a maquiagem está vintage, antiga, ou de velha?”. Ninguém leu. Mas um monte de curtidas — linda! gata! amei! — que não tinham nada a ver com a proposta, estavam lá. Entendi, ali, que queria ser lida, não vista.

A noção de rede social foi, aos poucos, ficando mais clara na minha vida. Gosto delas, uso-as. Mas elas são sociais. E, socialmente, tenho tido vontade de publicar esse e outros textos do blogue, de manter meu ativismo e minha crítica político-social, de divulgar arte e atividades coletivas. Minha vida pessoal é outra coisa.

Há alguns dias, fiz aniversário e comemorei. Tinham cerca de cinquenta pessoas na festa, nem sabia muito como lidar com todo mundo, porque era muita gente (para mim, pelo menos) e acho que, apesar de mim, super mocoronga, deu tudo certo. Várias pessoas mandaram fotos e vídeos da festa e eu os adorei. Não publiquei nenhum e estou feliz que me mandaram registros de um dia tão feliz. Mas alguém perguntou por que não fiz uma postagem no Facebook e eu disse que a festa estava tão boa, estava um clima tão legal que a rede social não fez falta.

Tenho feito algumas coisas e tirado fotos. Tenho feito fotos afetivas, ternas, de momentos felizes e de momentos especiais. Essas fotos são compartilhadas, claro. Mando para quem gosto e quem está no meu entorno. Algumas pessoas poderiam e deveriam ter também essas fotos, mas esqueço de enviar e, pensando bem, elas têm a mim, ou deveriam saber que têm a mim, que me sinto bem mais importante do que uma imagem. A rede social não é para isso. Não tenho uma vida instagramável, não preciso de biscoito. A vida precisa de privacidade e da gente mais inteira dentro dela, cuidando dela, vivendo ela, com sua pouca preciosidade e sua alegria sem euforia. Não preciso de curtidas. Nesse mundo, cada vez mais maluco, preciso curtir.

Claro que cada pessoa faz o que quer da sua rede social. Longe de mim cagar regra para o que fazer com o seu Instagram. E exibir sua ida ao cabeleireiro, ou sua tarde na academia, ou seu fim de semana no Nordeste são opções que devem ser respeitadas. A pessoa dimensiona o que quer que os outros saibam dela e é natural que ali fiquem os melhores momentos, não o dia em que se derruba a caixa de ovos no mercado ou a entrada no ônibus às 7h da manhã. No meu caso, a rede social perdeu a graça porque não acho que minha vida seja de melhores momentos — não tinha “melhores momentos” para compartilhar — e os melhores momentos que, de fato, existem são muito particulares para serem postos numa vitrine. E assim funciona para mim; para os outros, não tenho nada a ver.

Tenho me preocupado, por outro lado, em como a rede social — mais o Instagram — dão a sensação de que a vida da pessoa é realmente sem graça. A gente vê um monte de gente feliz, eufórica, linda e maquiada e nossa vida sempre parece menos do que isso. O pior é que essa sensação não é errada; não para mim. Nossa vida é mesmo sem graça, ou há algum glamour em trabalhar um monte para conseguir esticar as pernas no fim do dia ou em pagar boleto na virada do mês? Mas a vida pode ter sentido assim, também, sendo comum, sendo igual, sendo simples. O sentido deveria ser único de quem a vive. Minha vida não pode (nem deve, nem seria certo) servir de modelo ou de exemplo para ninguém. Que cada um, portanto, ache seu jeito comum e sem graça, aprenda a amar esse seu jeito e viva bem consigo. Porque a vida é isso mesmo, não é muito mais do que isso. E que a pessoa encontre beleza, amparo e brilho no meio dessa existência simples e nada idílica, tão igual a qualquer um. Não digo, com isso, que a gente deva aceitar a mediocridade como régua, mas apreciar a vida comum, porque é a nossa. Não estou propondo passividade sobre uma existência sem graça, mas de criar sentidos que não sejam instagramáveis e moldados para apenas parecer.

A vida é mais, muito mais do que rede social. Fomentar a rede social gasta nosso tempo, dá muito trabalho e me tira da rede real, do mundo orgânico. Estou dizendo isso porque realmente gasto tempo com minhas redes sociais; mas, quando esse tempo estava relacionado à exposição pessoal, sentia que, além de gastar tempo, gastava energia e, mesmo que só recebesse “elogios”, sentia tudo um pouco vazio. A rede é social, então, é para “coisas” sociais. Estou usando diferente, agora: publico o que não é íntimo (ou até é, mas fica o tão íntimo quanto eu quero), o que é coletivo, as raivas político-sociais que gostaria que fossem compartilhadas, o que quero que leiam de mim.

Assim como Tavito e Zé Rodrix, na voz da Elis Regina, na vida que não é virtual, desejo o luxo da sensação de privacidade (o tanto que é possível, já que a privacidade não existe mais), quero uma casa no campo (e o campo pode ser esse meu entorno), “onde eu possa ficar no tamanho da paz / e tenha somente a certeza / dos limites do corpo e nada mais […] onde eu possa plantar meus amigos / meus discos e livros e nada mais“.

“Olha lá, quem acha que perder
É ser menor na vida
Olha lá, quem sempre quer vitória
E perde a glória de chorar
Eu que já não quero mais ser um vencedor
Levo a vida devagar pra não faltar amor”
(Marcelo Camelo)

Autor:

Dinda, tia e "sora". Uma mulher ordinariamente comum, que tem qualidades simples e defeitos reles.

Uma opinião sobre “Não tenho uma vida instagramável

  1. Nina, me senti entusiasmada com essa sua postagem, me fez sentir alegria física hahaha… Entendi completamente essa sua percepção e mudança de ideia a respeito das suas postagens. É quase catártico se reconhecer nessas reflexões instigantes e honestas.
    Eu em geral não posto muito porque me sinto de maneira semelhante a essa que você descreveu, não gosto de me sentir no jogo pouco personalizado que rola por aí e acredito/gosto do sem gracismo com graça do meu dia a dia e de toda essa poesia do compartilhar cuidadoso que você traz. Adoro crítica que consegue ser poesia…

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