O amor nesses tempos de cólera

O Tinder era visto da melhor maneira, por mim. Logo que soube do que se tratava, realmente pensei que fosse uma ferramenta de possibilidades de amor real e achava que fosse um aplicativo de muito impacto. Nas minhas mais esperançosas digressões, pensava que, rapidamente, mais pessoas se encontrariam e teriam amores mais racionais e mais pensados.

Minha lógica não era um erro em si. Não houve, nos últimos tempos, uma decepção do que pensava para minhas novas opiniões, propriamente. Mas, pouco a pouco, vi que minha percepção ingênua era muito rasa, não se configurava em romances melhores e não dava conta dos problemas reais dos afetos. A ferramenta aproxima pessoas, mas há alguns anos agências matrimoniais (que nome, ora!) já faziam isso e não sei se há alguma diferença nas experiências.

Comecei a compreender que não há problema no Tinder. Há problema nos afetos. E a culpa não é das pessoas que usam aplicativos, mas do capitalismo. E, nesse caso, eu que não gosto da palavra culpa, mas da palavra responsabilidade, uso culpa, mesmo. Porque a culpa que o capitalismo tem nas costas, meodeos, é sem fim.

Uma vez, fui a uma plenária em campanha política — e daí estou falando de eleição dos partidos de esquerda — e uma das pessoas que falou (camarada, parceiro, companheiro, colega, enfim) disse que o capitalismo nos tira a vida social. Depois ouvi o Saramago e o Galeano falando sobre isso também. E me intriguei com essa noção, porque eu era muito jovem. Como o capitalismo é um sistema econômico, entendia que a vida social era afetada pelo trabalho e tal. Mas as dimensões disso, e eu fui entendendo pouco a pouco, são maiores e não afetam “apenas” o mundo produtivo, o improdutivo e as dimensões afetadas pelo trabalho.

O Tinder surgiu quando o amor já tinha virado utilitarista. O Tinder não inventou nada; de certa forma, até acho que amenizou o que poderia estar um pouco pior. O capitalismo já tinha nos tirado a vida com amigos e nossos “amigos” acabavam sendo os colegas de trabalho. Nós passamos a nos gostar, principalmente, pela afinidade em fazer a produção. Essa é uma realidade que comecei a entender quando era pequena. Por causa do trabalho, minha família saía pouco, não era organizada fora da rotina trabalho-família e os assuntos, nos raríssimos encontros de amigos, era o trabalho, porque eram colegas. Conversar sobre trabalho segue sendo uma dimensão fundamental dos assuntos entre amigos, mesmo fora do ambiente laboral. Eu lia que grupos de amigos eram formados por interesses em comum, mas o “interesse em comum”, eu via, era o trabalho. E será mesmo que o trabalho é um “interesse”? E será que, entre nossos amigos, a gente não deveria, justamente, dar folga para si e esquecer o trabalho?

O trabalho, paulatinamente, foi, ironicamente, nos desorganizando coletivamente, especialmente nos ambientes mais urbanos. As associações de funcionários, mesmo aquelas cujo objetivo era ter uma sede campestre, por exemplo, foram diminuindo de quantidade e de importância. Os sindicatos — como forças de apoio ao funcionário — só seguem como entidade organizadora, significativa, de luta e de convívio em alguns setores de trabalhadores do setor público, fora uma e outra exceções. A precarização do trabalho nos separou em pequenos grupos de afinidade comum — cuja característica desse ou daquele grupo, ou da nossa “panela”, é, justamente, a forma com que encaramos a relação com o trabalho — e, fragmentados, criamos grupos de amigos, que são “colegas de trabalho” para, às vezes, tomar cerveja e desabafar. E desabafar é necessário. Em suma, é uma relação tautológica: me junto aos colegas que lidam com o trabalho como eu e uso o grupo para ter suporte para reclamações semelhantes. Claro que grupos de amigos não funcionam apenas para isso, mas funcionam, frequentemente, a partir desses parâmetros.

É claro que colegas de trabalho podem ser amigos. Devem, inclusive. Mas é muito melhor ter amigos em um espaço e colegas para pensar seu trabalho em outro. E tudo bem que esses grupos sejam formados pelas mesmas pessoas, às vezes, mas não obrigatoriamente. Mas aí tu ri. E pergunta, incrédul@: quando?? quando sair com amigos e ter um espaço?? Pois é. É isso. O capitalismo nos tira desse espaço de pensar, de lazer, de ócio, de debate, de comunhão, de compartilhar. Com isso, tira, também, o espaço de afetos, do riso, do gozo e do amor. Não à toa Deleuze diz que “o poder requer corpos tristes. O poder necessita de tristeza porque consegue dominá-la. A alegria, portanto, é resistência porque ela não se rende. A alegria como potência de vida nos leva a lugares onde a tristeza nunca levaria“. Desde a minha infância até o início da idade adulta, via as pessoas sem muita vida social, com a vida social reduzida à família e ao seu trabalho. É, nesse sentido, culpa do capitalismo que pessoas não se encontrem, não se articulem e, para ter vida social, tenham de ficar restritas a formar uma família e se dedicarem a ela.

Bem, isso foi há algum tempo. Já não é mais.

Hoje a falta de tempo é tanta, que nem formar um par está sendo fácil. Hoje somos sucumbidos pelo trabalho e por seu pragmatismo e assumimos essa lógica na vida. Já não está fácil se relacionar; formar uma família, então, é um desafio enorme. As famílias que se formam, pode perceber ao teu redor, frequentemente são casais que trabalham muito; os que têm filhos já não têm tanta influência na educação de suas crianças e o cansaço (de tanto trabalhar) nos tira convívio e ócio. Nos tira alegria e propósito. Nossos amigos, agora, são nossos colegas e tratamos boa parte deles a partir de uma competição (que a gente considera saudável), em que desconfiamos, em que não podemos nos sentir ferrados ou traídos por eles, embora eles sejam, às vezes, nossos confidentes, porque entendem o terror e a desumanidade que estamos passando no ambiente laboral.

A inserção nas redes sociais e a necessidade de mostrar (muitas vezes, eufórica e cinicamente) como estamos bem são sintomas de como a solidão nos afeta e é indesejável. Pepe Mujica fala muito sobre isso, sobre como nos afetamos com a solidão: “A vida se vai e a pergunta é: basta gastar sua vida pagando contas, e contas, e contas? E você vai ter tempo para os afetos, para o amor, para seus filhos e amigos ou vai ser escravo do mercado? Essa é a pergunta que você tem que fazer. […] Os seres humanos são gregários, não podemos viver em solidão, vivemos em grupos sociais. Tinha razão Aristóteles quando dizia que o homem é um animal político“. Quando leio os relatos corajosos de pessoas que sofrem com a depressão, com a ansiedade ou com síndromes, por exemplo, penso em como essa sociedade, que adoece e exige que a gente se pareça sempre bem, tem o poder de piorar esses quadros de saúde e de aumentar a sensação de impotência e de estar sozinho. Quer dizer, além de trabalhar desumanamente, o capitalismo exige que a gente pareça realmente estar bem o tempo todo.

O Tinder é o utilitário para “resolver” essa solidão: a de não conseguir sair com ninguém, nem sequer alguém do trabalho. E, com alguma frequência, há pessoas que parecem não saber utilizar, pois estou segura de que há expectativas altíssimas para uma relação entre pessoas comuns, que não são uma checklist de atributos (seja para encontros sexuais, seja para encontros afetivos). Uma vida atribulada, como temos tido, em que é fácil sucumbir ao trabalho ininterruptamente, não dá espaço para amores idealistas e sinuosos. O Tinder é uma possibilidade de encontro no meio dessa vida que é casa-trabalho-casa (e alguma loucurinha para espairecer no fim de semana). O Tinder é, em alguns casos, a esperança sonhadora do ócio de fim de semana com seu par, seus gatos e/ou seus cachorros na cama do domingo. E, mais do que isso, é uma possibilidade de encaixe de requisitos de ambos os lados, sem esforço e sem trabalho (porque o trabalho não aguentamos mais).

Nunca fiz um perfil no Tinder e acho que nem sei mais como se flerta, apesar de achar bonitinho o ritual da paquera (minha experiência mais próxima é ouvir histórias adolescentes, que adoro!, e — acredite! — aos 16 eles e elas já estão desesperados por Tinder, porque sentem que precisam mostrar que não falharam em ter alguém, sentem que não podem ser solitários, sentem que flertar dá trabalho e trabalho é ruim, necessariamente ruim). E, se posso recomendar algo para alguém que deseja ter um encontro, sempre recomendo o Tinder. Não há mais flerte nos bares, nem nas festas, nem em nada. Não se conhecem mais pessoas e não há mais tentativas de aproximação pouco a pouco. Nosso tempo é escasso. Nossa relação com “ter algum trabalho” para fazer algo é ruim. A gente precisa de aplicativos para se humanizar.

Tudo isso é culpa do capitalismo. O capitalismo nos tira a vida, não apenas nos matando, mas tirando os brilhos possíveis da existência. O capitalismo nos exige viver para produzir e ganhar mais para viver minimamente. Viver minimamente deveria vir sem esforço. Deveria ser o normal, o comum, o básico. Tudo que eu queria era poder viver uma vida comum sem esforço, ter mais tempo livre, ter uma rotina mais leve e não viver para pagar boleto. O Tinder (e seus assemelhados, é lógico) é um depósito de esperança de gente que quer ser um pouco mais gente. E tu pensa: tá, Nina, e o monte de macho escroto que só entra nessas redes para catar gostosa e pagar de comedor? Bem, esse é o cara que já perdeu a esperança e que deixou o capitalismo o imbecilizar (e vale para mulheres, também, só fiz uma ilustração estereotípica para fins didáticos).

O capitalismo não nos quer juntos, não nos quer amando, não nos quer rindo, não nos quer coletivos, o Deleuze, já explicou isso. O capitalismo só nos quer produzindo aquilo que não vamos poder usufruir (e isso disse o Marx). E solitários, e infelizes, para não ter ânimo para nos organizarmos e criarmos algo além dele.

 

Autor:

Dinda, tia e "sora". Uma mulher ordinariamente comum, que tem qualidades simples e defeitos reles.

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