Alalaô I (e Porto Alegre)

Sábado de carnaval e houve carnaval de rua por aqui (Cidade Baixa, Porto Alegre, RS, Brasil). Foi um amontoado de gente e blocos: na mesma rua, dois blocos. Os blocos têm de ser registrados na prefeitura, têm de passar por um crivo técnico (?) e precisam arrumar patrocínio, o que penso que é até ok (há problemas, mas enfim). Há algum policiamento e alguma organização. Esse “algum” não é à toa: é o suficiente para dizer que ali havia poder público (quase nada, mas havia), mas insuficiente para a limpeza do espaço, presença de um efetivo da prefeitura para serviços e disponibilidade de banheiros públicos, enfim, essas coisas que qualquer carnaval demanda.

No dia seguinte, sempre a mesma notícia: vizinhança irritada com os foliões, sujeira em todos os lugares, barulho para o moradores e o poder público não faz a mediação de nada disso. As pessoas que frequentam a CB (Cidade Baixa) no carnaval não são os frequentadores do resto do ano, ou até são frequentadores eventuais, mas essas pessoas vêm para cá por um único motivo: não tem mais nada em Porto Alegre nesse período. Não tem. Os bares, os restaurantes, os raríssimos eventos ao ar livre, enfim, tudo, tudo, tudo fecha ou não existe. Só tem a CB. Só tem carnaval na CB, no período oficial de carnaval, sábado e terça, ou seja, não pode ter carnaval no domingo e na segunda de carnaval na cidade. As outras datas do carnaval de rua são os fins de semana entre fevereiro e março, mas não no carnaval. Não sei explicar os motivos disso, desculpa.

O que essa montanha de gente que quer se divertir faz no domingo de carnaval? Vai para a CB. E na segunda de carnaval? Vai, de novo, para a CB. Mas não tem programação oficial e não pode ter carnaval, então eles vão fazer botellón (na Espanha, grupos de jovens que não têm muito poder aquisitivo e juntam dinheiro entre si para comprar bebida em mercearias e dançam e bebem na rua, a noite inteira). Veja bem, a pessoa gostaria de ir ao bar da moda, mas ele está fechado (porque tudo, tudo, tudo fecha) ou porque não tem grana para os únicos dois abertos (e caros, lógico), então fica na porta de um bar mais ou menos que está fechado, dividindo bebida barata e de péssima qualidade com os amigos, para poder se divertir. Tudo justo e certo, se o poder público existisse e regulasse isso; se organizasse os espaços e fizesse mediação com a vizinhança. Mas não faz e acha que as pessoas não vão para a rua porque não tem evento “oficial”. Claro que a gurizada que não pôde sair da cidade fica na rua e faz botellón. E é claro que a vizinhança reclama para a polícia, que vai jogar gás de madrugada nas pessoas dispersas no meio da rua, que vai causar mais baderna e, enfim, todos se ferram.

O primeiro problema é não haver poder público. Não precisa ser esperto para prever que domingo e segunda de carnaval (sem nenhuma atividade de carnaval e com as mesmas pessoas de sábado e terça na cidade) serão dias de aglomeração na CB. Mas o poder público municipal não sabe, só manda avisar que não vai ter nada. E o único poder público que fica sabendo e age, só resolve na hora que o conflito está instaurado, usando bomba de gás (de efeito moral, adoro esse nome “efeito moral”).

Há outros problemas: uma porção de adolescentes menores de idade bebendo até cair no centro da cidade é uma situação gravíssima, porque não afeta só o desconforto do vizinho, mas se configura em um crime. O poder público municipal não se mete a debater isso, embora seja de sua competência. Os adolescentes não sabem (pasmem, isso é verdade) da proibição de que menores comprem e ingiram bebida alcoólica [anedota sobre o tema: uma vez avisei para alguns alunos que a escola não participaria de festa “open bar” de formandos de ensino fundamental, porque escola pública não poderia sequer apoiar uma festa em que está implícito que haverá consumo de bebidas por menores e um aluno começou a falar grosso comigo, dizendo que os pais dele autorizavam e ele ia levar autorização e ele queria ver eu barrar isso, daí mandei ler o ECA e entender que a professora não era coleguinha dele e tals, enfim, acontece]. Não há atividade de conscientização ou blitz para barrar menores ou atividade com conselhos tutelares. A prefeitura não se importa que sejam menores, não se importa que bebam na rua de madrugada, não se importa que vão passar mal com gás. Nem se importa com a reclamação dos vizinhos. Só quem se importa com os vizinhos é a Brigada Militar (polícia).

Esse ano, um dos jeitos para resolver foi mandar quase todos os blocos para a orla (fora do carnaval, lógico, porque, como já disse, blocos de carnaval, no carnaval, só sábado e terça, e são bloquinhos pequenos, de moradores, praticamente). Não é a solução ideal, pois gentrifica (gentrificar significa criar ordenadamente segregação urbana ao “expulsar” de regiões tradicionais seus moradores) o bairro cultural e carnavalesco da cidade. A CB é berço de todos os primeiros blocos de carnaval que existiram em Porto Alegre, especialmente pela quantidade de terreiros e quilombos presentes nessa região e esse é o motivo pelo qual o carnaval na orla deveria complementar o que a CB não suporta, não o contrário, ou seja, manter na CB os blocos menores e apenas organizados pelos moradores, como está fazendo a prefeitura. Existe, nesse meio, um robusto grupo de frequentadores do carnaval da CB que não é necessariamente morador do entorno, que está vinculado ao bairro e que deveria (eu acho) se manter no bairro (vide Bloco da Laje e Bloco da Diversidade).

Eleger a orla como o ponto de carnaval (sem discussão prévia) me parece um desrespeito pela história do carnaval e da cultura na cidade. A vizinhança tem razão em muitos motivos e, em vários casos (blocos muito grandes, por exemplo), a orla pode ser a melhor saída. Mas o cerne do problema não é o carnaval, a vizinhança, o botellón. O núcleo do problema é não haver poder público para intermediar os pontos de vista durante o processo e participar só na hora de jogar bomba de gás.

No caso espanhol, alguns botellones foram proibidos. Mas as prefeituras organizaram espaços adequados para que outros pudessem surgir com segurança, atendendo os lugares frequentados pelos jovens e de fácil acesso (nossa “gestão” da prefeitura pretendia fazer isso aos sábados de madrugada no Largo Glênio Peres — como chegar até lá?). A CB é o espaço para o carnaval e para o botellón, é onde os jovens podem se encontrar mais democraticamente. O que custa atender às demandas das populações da cidade, através de diálogo e sem esse viés totalmente segregador?

ADENDO (05/03/2019, terça-feira): Estou lendo os grupos virtuais de vizinhos da Cidade Baixa e só reclamam: barulho de gurizada, barulho de bomba e barulho de banheiro químico. Pedem um bairro calmo, sem festa, sem gente na rua, em que possam “tomar chimarrão na rua com sua família” (não inventei, juro). O que fica meio perdido nessa história é que a Cidade Baixa é mais segura porque TEM gente na rua, porque TEM festa e porque TEM movimentação, ou seja, toda essa função atrai mais policiamento e mais segurança de maneira mais coletiva. Se não, seria a Auxiliadora, a Glória ou o Teresópolis sem as ruas e avenidas principais e seus moradores estariam muito mais vulneráveis. Lógico que tem de organizar a bagunça. Mas a CB é a CB por causa dessa “bagunça”. Gente chata para C#$%2LHO!

Autor:

Dinda, tia e "sora". Uma mulher ordinariamente comum, que tem qualidades simples e defeitos reles.

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