O passado é uma roupa que não me serve mais

Hoje vesti um vestido curto. Reclamei das minhas pernas. Fingi que não me ouvi. Reclamei de novo. E saí de casa cômoda, porque eu não ia me atrasar problematizando os culotes.

Comecei a usar vestido curto, short e saia, sem preconceito de mim, depois dos trinta anos. A primeira minissaia que comprei foi esse ano. Tive algumas na infância e a última aos treze anos que usei só uma vez, em casa. Nunca fui feliz com meu corpo, sempre tive pudores, mas mais encabulada com as pernas. Cabe dizer que não tenho necessidade exibicionista de querer ser notada. Quase sempre o apelo é o conforto ou o calor. Por isso usar shorts ou saias.

Esse post conta uma experiência que reverbera por muito tempo na autoimagem. Esse post é sobre identidade.

Quase no meu aniversário de treze anos, por qualquer motivo, meu pai, que morava conosco, brigou comigo. Estávamos apenas nós dois em casa. Parece que ele se irritou com alguma teimosia minha, parece que ele se alterou, eu estava tranquila, dizendo que ele poderia dar conta do que eu podia fazer, mas eu continuava achando que ele estava errado. Foi uma banalidade, um confronto entre o adulto e a recém adolescente. Sua raiva passou dos limites e ele me espancou com uma vassoura. Eu não disse nada depois. Não falei para a mãe, mas não quis assunto com ele. Talvez ele estivesse nervoso, talvez ele estivesse sob efeito de alguma substância, talvez ele tivesse alguma crise de alguma doença que nunca soube. De madrugada, o pai foi pedir desculpas, falou que eu não poderia ser mais teimosa — “olha como o pai fica!” — e eu não tinha nada a falar; ele disse que não poderia dormir sem meu perdão e sem saber que eu tinha aprendido a lição e respondi dizendo que estava desculpado e poderia dormir.

Um dia depois os hematomas vieram e eram enormes. Fiquei com muitos hematomas, alguns cujo tamanho superavam minha mão. Os vergões eram grossos e por todas as duas pernas. As ancas, as coxas, as panturrilhas tinham marcas da raiva do pai. Um ou dois dias depois era o fim de semana e fui para a casa da minha avó. Ela e minha tia mais nova repararam que eu estava estranha e perguntaram o que houve, disse que tinha brigado com o pai e elas tentaram contemporizar. Não falei do espancamento. Achei que era algum confronto de gerações e o episódio acabou. Isso era dezembro.

Passei o verão usando vestidos e saias compridas, calças jeans. Por muitos anos — até quase os trinta — só usei roupa curta na praia, geralmente para ir para o mar (era um sacrifício, de alguma forma, já que adoro mar). Na casa de praia, usava biquíni e canga como se fosse uma saia comprida. Por alguns anos, enxergava os hematomas que já tinham cicatrizado há anos nas minhas pernas.

A raiva de meu pai — um sujeito comum e pacífico — se transformou em trauma. O corpo poderia ser normal, mas desde então passo a vida tentando aceitar um corpo em que, por um lado, não me adapto; e, por outro lado, era, na minha fantasia, feito de um machucado. Um ano depois do episódio, antes de nos abandonar, o pai me levou para sair e pedir desculpas por qualquer coisa que eu não entendia. Talvez, até, um pedido antecipado de desculpas pela ausência que hoje dura mais de vinte anos. Não havia mais nada a desculpar. A relação com meu agressor nunca foi positiva ou de confiança desde a violência.

Anos depois, tentei recuperar alguma mágoa a superar e, não havia mais nada. O pai se tornou um estranho e isso está bom como deve ser. Sua escolha de não ser pai foi respeitada e ficamos com quem nos quis como família. Não há dores e problemas com sua ausência. Não há alívio tampouco. Sua lembrança já não suscita nada.

Esse episódio, ao contrário, ainda eclode porque lida com minha imagem. Durante anos, minhas pernas foram aqueles hematomas que chamei de varizes, celulites, culotes, pele seca, desbotadas. Chegar aos trinta anos e finalmente optar por vestir o que era mais cômodo não é uma vitória, é apenas conseguir enxergar a realidade e lidar com ela e com seu tamanho.

Agora, com quase 36 anos, vejo que há uma essência de mim que aceita a pessoa que fui na adolescência e está disponível a viver essa essência, boa e ruim. Os vinte e poucos, em alguma medida, vieram com alguma vergonha de mim, com alguma tentativa de ser aceita. Era muito calor e eu ainda usava calça jeans.

Não estou alheia à idade, a minha história, a minha imagem. Posso mostrar as pernas. As celulites, os culotes, a pele seca, tudo isso está lá. Mas os hematomas cicatrizaram e não voltam mais.

Sobre a violência de meu pai, posso dizer que não há monstruosidade nisso. Há impulso. A raiva pode consumir qualquer um de nós. A civilidade e a humanidade é que nós fazem parar. É uma pena que ele tenha perdido ali sua filha, no dia que, por impulso, a tratou como sua coisa.

É lógico também que o pai não premeditou nada, ele não quis machucar para que eu não gostasse de meu corpo; ele agrediu porque sentiu sua autoridade e sua masculinidade feridas. O que faço com essa memória também é problema meu. Embora não pudesse fazer nada na hora, elaborei a situação como pude. Queria usar a circunstância para ilustrar que nossas emoções e percepções sobre nós mesmos pode melhorar ou deformar em apenas uma experiência.

Esse foi o dia que entendi que eu e meu corpo não somos coisa. O processo de compreensão, porém, não terminou ainda. Pode parecer que estou só preocupada com o invólucro, com o corpo, com o exterior. Esse é o invólucro que desaparece nas multidões, que me leva aos lugares e que sinaliza — mesmo superficialmente — quem posso e consigo ser.

Autor:

Dinda, tia e "sora". Uma mulher ordinariamente comum, que tem qualidades simples e defeitos reles.

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