Meu querido diário

Nunca tive um diário. Tentei ter no início da adolescência, mas não havia nada naquele caderno que fosse “escondido” ou “secreto”, como quase tudo na minha vida, aliás.

Mas estou pensando muito nos últimos dias em como tem sido esse meu ano. Sucintamente, posso dizer assim: uma merda. Mas vou esmiuçar e expor, mesmo achando que não é importante, não vale nada mais do que uma elaboração (para mim). O texto, em última análise, é uma materialização. Talvez precise materializar para conseguir superar.

Nessa época do ano, há um ano, minha avó estava voltando do hospital a partir de um milagre. Descobrimos que ela estava tendo um AVC isquêmico importante e corria altíssimo risco de vida em função de um pneumonia. A febre dela começou na sala da emergência do hospital e esse foi o gatilho para que a cor de sua pulseirinha de triagem fosse laranja. Passei os dez dias com a vó e sua alta foi inesperada: ela voltou melhor, muito melhor do que antes de entrar no hospital. Muitos médicos falaram em milagre. Emocionada, escrevi um depoimento no Facebook de propósito, pois sabia que precisaria elaborar a morte, que estaria chegando.

O vinte de setembro do ano passado foi alívio. Fui encontrar pessoas, fui rir, fui beber e espairecer. De alguma maneira, entendi que precisaria respirar, já que estava exaurida. Os dias seguintes foram horríveis. A vó estava muito melhor, mas outra situação gravíssima estava se impondo. Uma pessoa de minha família estava há tempos sofrendo ameaças, mas, nesses dias, o teor da violência tinha agravado a um ponto que não sabíamos lidar. Tínhamos medo e pavor por nós todos. De toda sorte, tínhamos também de cuidar das pessoas mais frágeis da família.

Não estava com muito medo por mim, mas estava com aquela sensação de injustiça: o que eu, as pequenas, a vó temos com isso? Por que com a gente? Tinha entendido que precisava ser forte, que precisava olhar para frente, que não adiantaria alterar a voz. Fiquei numa frieza comigo mesma que me desumanizava. Claro, não era eu a pessoa que mais sofria; vamos ser empáticos com quem está mais ferrado, então, já que eu não era vítima de nada específico, estava envolvida pelas bordas, vivia o terror indiretamente. De todo modo, acho que fiz o que tinha de ser feito.

Com a situação se agravando mais e mais, dia a dia, houve um dia que fiz uma coisa muito estúpida e ridícula, que é tentar falar de mim, me abrir bem egoísta, dizer “que merda, estou desesperada, mesmo!” para uma pessoa querida, mas não próxima. Não queria conversar com as pessoas da família — todos mais nervosos do que eu — e não queria falar com os amigos porque tinha vergonha da situação chegar onde chegou (independentemente de não ter envolvimento direto). Claro que a pessoa que me ouviu se assustou. Claro que fui inadequada. Claro que o sigilo foi “a medias”. Claro que, acuadinha, eu não conseguia olhar adiante. Claro que tentei ser forte o quanto deu e transbordei da forma errada. Fico com pena do amigo que prestou ouvidos e só, mas enfim, essa era o que pude ser no referido momento, foi vexatório, e cada um só consegue ser o que pode.

Nesse ínterim tinha a saúde da vó. Precisava marcar médico, que era reconsulta após a alta e ficava esperando o tempo melhorar (chovia e estava friozinho, ainda), os ânimos melhorarem, todo mundo virar gente. Esse momento não aconteceu.

No início de outubro, a vó demonstrou ter compreensão de tudo que estava acontecendo, do risco que corriam, do medo que sentíamos, do terror que estávamos envoltos. Nunca falamos nada com ela. Nunca demonstramos nada a ela. Ela sabia de tudo. E nem fui capaz de lhe pedir colo. Quis ser — veja só — uma mulher forte. E ela estava ciente de tudo e nos orientou imponente.

Um dia depois, três de outubro, em torno das 18h, a vó pediu para deitar no sofá, estava cansada e queria tirar uma soneca. No fim da tarde, pouco antes, tinha começado a tossir forte (nunca sabíamos o teor das tosses da vó, fumante por setenta anos). Ela deitou, dormiu, convulsionou, entrou em coma, a ambulância não demorou sete minutos. Sem saber de nada que estava acontecendo (tudo tão rápido!) com ela, fui a sua casa sem avisar, porque achava que tinha de ir. Logo que vi a situação, chamei os filhos que estavam fora da cidade. Levei-a ao hospital. Disse a ela, desacordada, que tinha entendido, que ela havia se cansado. Tudo o que sabia, assim que falei com a plantonista: talvez AVC, mas seguramente pneumonia. De novo.

Dia quatro foi estranho. Sumimos com minha sobrinha, para que ela não visse o agravamento da situação violenta que rondava a casa. Vivi uma tarde de sonhos e diversão. Uma sandice no meio do caos. Isso até a hora da visita ao hospital, é claro. Isso até falar com um médico estúpido que disse que era grave e não tinha muito a falar.

Quarta-feira, dia cinco, fui ver a vó. Os valores de referência (já conhecia todos: pressão, oxigenação, temperatura e a porra toda) todos alterados. Eu perguntei a enfermeira o que aconteceu, por que o médico não fez isso ou aquilo e ela respondeu: “ele sabe como está, tá bom?”. Não. Não está bom. Como posso reclamar? Por que não fizeram ressonância? Onde está esse médico para eu xingar? E nada. Voltei para casa, almocei com o Dindo e a Bi, que tinham vindo de fora, e fui chamada para ir ao hospital com urgência. “Entuba ou não entuba? Não há mais nada o que fazer”. Assim, com essa cavalice que nem um equino faz.

No mesmo momento, a situação de violência tinha sido resolvida e punida. Estávamos salvos, por um lado.

A morte da vó foi questão de poucas horas.

Está tudo apaziguado agora, um ano depois. A situação não está periclitante, não há agitação e medo. Mas não há vó. E essa falta tem sido muito difícil. Não é só saudade, falta um pedaço meu. Para mim é isso: é quase uma falta física, como se fosse do meu corpo. Acho que, conforme a idade aumenta, a gente sabe lidar menos com a falta. Passamos muito tempo da nossa vida com a presença, daí a ausência se torna inexplicável, incompreensível, difícil.

Tentei desopilar nos dias que seguiram. Fiz festa, ia ao parque, saía de casa por qualquer motivo. Só me enganei. Quase todos os dias eu ia a casa da vó e, quando comecei a chegar em casa sem ter de ver a vó, um vazio me assombrava. Não era solidão. Não era incômodo. Era falta.

Ainda chego em casa à noite e fico perdida. Entendo o fenômeno e arrumo algo para fazer. Ainda dói. Não tenho esperança de que passe, sinceramente. Acho que estou resolvendo o mais dignamente possível tudo isso, até. E a palavra “tudo” não é por acaso, porque o tamanho dessa coisa chata que a gente carrega depois da perda é imensa, quase sempre maior do que a gente.

Minha sorte é que há algo em minha personalidade que teima em ser feliz, que teima em olhar para frente; até mesmo quando não sei para onde ir. Ainda que haja muita dor, não há remorso, não há arrependimentos, não há culpa.

Talvez tentar lidar com tudo isso seja parte do pacote de ser adulto. E não sei se estou pronta ainda.

 

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Essa foto fizemos em 26/04/2015, um dia após sua festa de 90 anos. Eu estava caindo de sono, como se pode perceber…

 

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