Sounds of silence

Quando era criança, eu era uma nerd. Nos fins de semana, eu acordava cedo para ouvir os discos de música tradicionalista (quando morava em São Paulo), tentava entender aquele vocabulário estranho e, quando voltei à Porto Alegre, ficava ouvindo os discos estrangeiros de minha mãe — e tentando traduzir (é lógico que era um arremedo de tradução, ainda mais porque o dicionário bilingue disponível era do MEC, da década de 1950). Bem, daí veio minha paixão por música e por conhecer sobre música.

O primeiro disco que eu “traduzi” foi o da Tracy Chapman, que tinha dois hits “Fast car” e “Baby, can I hold you”. Eu odiava os hits, mas adorava todo o resto do disco. Logo depois, aos nove ou dez anos, “traduzi” “The concert in Central Park”, disco clássico do Simon & Garfunkel, que ainda hoje fazem um ou outro revival. Esse disco é muito bom, adoro, mesmo. Conheci folk ali e, se tenho algum apreço pelo estilo, veio dali.

Descobri a imagem poética através desse disco, cheio de hits, também. “The sounds of silence” é uma canção que me deu belas imagens poéticas — na época, uma descoberta muito interessante — e me permitiu perceber como poderia ser a experiência estética. Não que seja uma obra-prima, quer dizer, hoje não é mais para mim… Mas tem momentos, na canção, em que me sentia escutando sobre a alma.  Tipo, isso, para uma criança, é phoda.

Hoje estava com essa canção na cabeça e fui ver a letra, que não é tão mágica como me pareceu. É uma bela canção, é bem escrita, tem uma história bonita, só que a gente cresce e hoje não me diz tanto, quanto antes. Mas “The sounds of silence” foi um degrau muito valioso para que eu despertasse para a apreciação da arte.

“Hello darkness, my old friend,
I’ve come to talk with you again,
Because a vision softly creeping,
Left its seeds while I was sleeping,
And the vision that was planted in my brain
Still remains
Within the sound of silence.
[…]

When my eyes were stabbed by the flash of a neon light
That split the night
And touched the sound of silence.

And in the naked light I saw
Ten thousand people, maybe more.
People talking without speaking,
People hearing without listening,
People writing songs that voices never share
And no one dared
Disturb the sound of silence.”

As frases “Within the sound of silence”, “And touched the sound of silence” e “Disturb the sound of silence” eram as que eu mais gostava, porque materializavam o que não é palpável. Então eu achava essa percepção muito bonita.

Enfim, deixo o link para quem gostar:

6 comentários (+add yours?)

  1. Nathalia
    Fev 09, 2012 @ 18:57:36

    Adoro essa música! Me identifiquei muito com o que você falou… Da questão de materializar o que não é palpável…

    Responder

  2. Douglas Felipe
    Out 21, 2014 @ 01:03:24

    Essa música e demais,na parte People talking without speaking e People hearing without listening,eu entendo isso como uma previsão do futuro que nos vivemos,nos escutamos mas não ouvimos,vivemos com headphone na cabeça com musicas sem letra,nos não nos encontramos mas pra falar ao vivo com uma pessoa,tudo e feito via redes sociais ou msm.Essa e a realidade de muitas pessoas!

    Responder

  3. Victor Benjamin C. F. Soares
    Jul 01, 2015 @ 03:57:59

    Eu queria ver um estudo dessa musica, para entender melhor o que eles queriam dizer com ela, a época que ela foi feita foi na mesma época que o kennedy foi assasinado, acho que tem alguma conexão com esse fato, é sem duvida uma das musicas mais bonitas numa lista das 50 mais bonitas de todos os tempos!

    Responder

  4. João Camargo
    Mar 15, 2016 @ 01:49:59

    O interessante da poesia é que ela não possui significado próprio, é como um espelho em que cada pessoa ve a sua imagem refletida. A melodia de “The Sound of Silence” é realmente muito bonita. O som por si só ja tem um sentido poético e cada um expressa de uma forma diferente, quanto ao sentido da letra é bem mais profundo. Quando eu li a tradução pela primeira vez eu fiquei estarrecido. Eu tinha uma mania de gostar de ficar só, principalmente no escuro, algo que me ajuda sabe a refletir. E eu fazia isso muitas vezes quando era criança tanto que ficava horas da noite acordado pensando. Então quando eu li os primeiros versos dessa música (Olá escuridão minha velha amiga, vim conversar com você novamente) eu tive tipo uma epifania, e os versos seguintes dessa canção são incrivelmente poéticos.

    Responder

  5. Simplex Veritas
    Set 24, 2016 @ 16:33:29

    Interessante o estudo de Andrio R.J. dos SANTOS e Janaíne dos SANTOS pela
    Fundação Universidade de Cruz Alta, Cruz Alta, RS, ofertado pelo PontoFer. Mas a exegese e hermenêutica postada em: https://br.answers.yahoo.com/question/index?qid=20140712222224AApyhv7
    pelo transeunte da web, humildemente autodenominado “Luiz” (apenas), parece-me a mais acertada diante dos anos 60 hippies de contracultura e aversão ao capitalismo. Exegese e hermenêutica que transcrevo:

    “Olá, escuridão, minha velha amiga
    Vim conversar com você de novo”

    Só quem saiu para caminhar a noite, pensar e refletir sobre suas preocupações consegue sentir o que diz. É a solidão na escuridão, de falar com tantas pessoas e sentir que o único que está ouvindo é você mesmo.

    “Porque uma visão um pouco arrepiante
    Deixou sementes enquanto eu dormia”

    A visão é um pressentimento, na forma de pesadelo, sobre algo que está por vir, trazendo a tona preocupações a muito deixadas de lado. Uma pequena preocupação é como uma “semente” que cresce trazendo angústias.

    “E a visão que foi plantada em meu cérebro
    Ainda permanece dentro do som do silêncio”

    As angústias crescentes não são compartilhadas, pois ele permanece em silêncio, ou por mais que tente compartilhar, ninguém o ouve com atenção.

    “Em sonhos sem descanso eu caminhei só
    Em ruas estreitas de paralelepípedos
    Sob a luz de uma lâmpada de rua
    Levantei minha lapela para me proteger do frio e umidade”

    Esta estrofe apoia a anterior, o pesadelo, a solidão, “ruas estreitas” são angustiantes, nos deixa sem rumo. desorientado. Se ver sob a luz de uma única luz dando ênfase a solidão novamente. O frio, representa a ausência de calor humano e a umidade o choro contido, como quando a chuva não cai, ainda sentido-se sua proximidade.

    “Quando meus olhos foram apunhalados
    Pelo brilho de uma luz de neon”

    As luzes de neon eram a forma mais comum de se fazer placas comerciais. No caso ela aparece agredindo a solidão.

    “Que rachou a noite
    E tocou o som do silêncio”

    Novamente a solidão mascarada, e o silêncio até então resguardado é tocado por uma informação.

    “E na luz nua eu vi
    Dez mil pessoas, talvez mais
    Pessoas falando sem dizer
    Pessoas ouvindo sem escutar”

    Quando a luz mostra a cidade noturna, as pessoas nela transitam, falando coisas sem importância para elas mesmas, pessoas ouvindo sem se importam com os sentimentos das que falam.

    “Pessoas escrevendo canções
    Que vozes jamais compartilharam
    E ninguém ousava
    Perturbar o som do silêncio”

    Por mais que tentemos não nos importar, acabamos sentindo alguma coisa (todos fazemos canções, canções de sentimentos), amor, ira, saudade, angústia, solidão, não importa, pois não temos coragem de compartilhar com os outros o que sentimos. Mantemos silêncio.

    ” “Tolos” disse eu, “você não sabe
    Silêncio é como um câncer que cresce
    Me escute que eu posso ensinar você
    Pegue o meu braço que eu posso estender ele para você” ”

    Ele tenta falar aos outros que não precisamos continuar sem nos importar, pois quanto mais ignoramos os outros maior será o medo de sairmos da solidão. Ele tenta quebrar a falta de calor humano, com um simples abraço, desde que você mostre que precisa. Este é o legítimo pedido de socorro.

    “Mas minhas palavras caíam como gotas silenciosas de chuva
    E ecoavam nos poços do silêncio”

    Mas ninguém ouvia o pedido de socorro, chorou sem ninguém se importar.

    “E as pessoas se curvavam e rezavam
    Ao Deus de neon que elas criaram”

    “Deus de neon” é o capitalismo, sobrepujando o contato entre as pessoas, nós criamos esta forma de viver que agora rege nossas vidas.

    “E a placa mostrou o seu aviso
    Nas palavras que formava”

    As placas eram a principal forma de vender, inclusive o vinil em que esta mensagem foi colocada. Sem capital, a mensagem desta música não seria difundida.

    ” E a placa dizia:
    “As palavras dos profetas
    Estão escritas nas paredes do metrô
    E nos corredores dos cortiços” ”

    Estas palavras são as pichações, na época gritos por mudança, as palavras anônimas escritas nas paredes para que todos possam ver o que se sente sem atribuir a quem.

    “E sussurradas no som do silêncio”

    Muitas vezes, se prestarmos atenção nas pessoas, veremos que elas tem algo a dizer, mas não falam com a boca, apenas com um olhar ou ação discreta.

    Um abraço a todos.

    Responder

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