Criolo ou Como é emocionante ver um artista entregue

Eu já rasguei elogios ao Criolo nesse blogue e terei de fazê-lo novamente, mas, agora, com mais propriedade: fui no show dele.

Um aspecto legal do show era o fato de que havia muita gente que conhece o Criolo e gosta do trabalho dele com hiphop, então “os mano” estavam lá. Mas, ao mesmo tempo, tinha um monte de gente indie, que viu o Criolo no VMB ou faz parte do pessoal alternativo da cidade e estava gostando bastante. Tinha eu, também, que simplesmente gosto de música, ali no meio. Enfim, quem foi para esperar hiphop viu muito mais do que isso, viu muito além de rótulos e apreciou muito mais do que um gênero. Aliás, ele tocou tantos gêneros, tantos juntos em cada canção, que classificar o Criolo e a banda dentro de um nicho até pecado é.

A banda é ótima, ele está completamente sintonizado com a banda e tecnicamente tudo funciona lindamente (o microfone da flauta, não, mas daí era culpa do Opinião, não dos músicos). A direção do Daniel Ganjaman e do Marcelo Cabral são irretocáveis. Daniel, inclusive, não participou como um coadjuvante do teclado, ele foi o show junto com o Criolo e com os demais músicos. Aliás, era uma festa bem ensaiada, mas não foi pouco aproveitada. Sabe quando se vê uma banda com vontade de tocar? Pois é, aquela estava e as pessoas estavam muito felizes assistindo. Do ponto de vista da banda, fiquei muito contente em ver o pessoal tocando hiphop com banda, não só com pick-up. Como a  música fica rica e se pode extrapolar! Bah!

O Criolo? Nossa! Ele não é um cara que pode ser chamado de showman. É um cantor que se envolve com a música, não com a cena. E acho que nunca vi um artista tão envolvido com sua música, como vi o Criolo. Suas letras são lindas, mesmo que algumas não sejam facilmente inteligíveis, mas são poéticas, profundas. E a força do show, as pessoas cantando, o clima de festa não foram fatores que tiraram a beleza e a intensidade do que o Criolo tinha de ser e fazer. A gente elogia um cantor quando ele canta com alma. Criolo canta com alma, vísceras, corpo, coração, com tudo. Quando ele canta, ele é a música.

As letras dele são ótimas, também. É claro que há denúncia social, ele é um MC, oras. Mas ele tem um olhar mais humano do que denuncista, o que faz dele um autor mais interessante, lógico. Um exemplo forte disso é a canção “4 da manhã”, que é, eu acho, um samba. Olha só:

Às 4 da manhã ele acordou
Tomou café sem pão
E foi a rua
Por o bloco pra desfilar
Atravessou o morro
E do outro lado da nação
Ficou com medo ao ver
Que seu bolco talvez não pudesse agradar
As contas a pagar
Fila pra pegar
Senha pra rasgar
Fantasia…

Que às 4 da manhã ele bordou sem pão
Junto a estandarte
Pôs a alma pra lavar
Atravessou o morro
E do outro lado da nação
Levou um susto ao ver
Um povo que não tem
Com o que se preocupar
As contas a pagar
Fila pra pegar
Senha pra rasgar
Fantasia…

Quando vi tocar “Não existe amor em SP”, putz, que coisa bem linda! Música ao vivo que ficou MUITO mais forte do que a versão do estúdio. Estava comovidíssima. Aliás, Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral merecem horas de aplausos de pé, porque que arranjo!

Eu paguei o ingresso e fui ao show. Mesmo assim, saí do Opinião com a impressão de que devia algo ao Criolo e a toda sua banda. Sua arte me fez olhar internamente. Não foi um show, foi uma grande catarse. Saí muito emocionada e, acho, que esse espetáculo não tem grana que valha. Bem, mas essa é só uma impressão. Vê o vídeo e diga, depois a tua:

Como ir pro trabalho sem levar um tiro
Voltar pra casa sem levar um tiro
Se as três da matina tem alguém que frita
E é capaz de tudo pra manter sua brisa

Os saraus tiveram que invadir os botecos
Pois biblioteca não era lugar de poesia
Biblioteca tinha que ter silêncio,
E uma gente que se acha assim muito sabida

Há preconceito com o nordestino
Há preconceito com o homem negro
Há preconceito com o analfabeto
Mais não há preconceito se um dos três for rico, pai.

A ditadura segue meu amigo Milton
A repressão segue meu amigo Chico
Me chamam Criolo e o meu berço é o rap
Mas não existe fronteira pra minha poesia, pai.

Afasta de mim a biqueira, pai
Afasta de mim as biate, pai
Afasta de mim a coqueine, pai
Pois na quebrada escorre sangue,pai.

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