Reflexão hospitalar

Há umas duas semanas estou ensaiando para escrever aqui sobre um assunto delicado, mas muito presente, que é a vida. O assunto não surgiu do acaso, surgiu em função de eu ter estado uma semana com minha avó no hospital. Como meus horários são flexíveis, eu fiquei um bom tempo fazendo companhia a ela ao longo da semana que ela ficou lá.

O ambiente do hospital — por mais acolhedor que tente ser — é ruim. A sensação de estar no hospital em si é muito chata. Além disso, tinha pouco ou quase nada para fazer, o que também é entediante. Mas, mesmo assim,  tentei tirar alguma boa lição da situação e acho que, de certa forma, consegui.

No hospital, consegui me dar conta de que minha avó está velha. Sim, é o óbvio, eu sei. Mas a gente não consegue se dar conta de que as pessoas próximas são finitas. Minha avó tem 86 anos e tem problemas típicos de velho, como insuficiência cardíaca, pressão alta, enfim, essas coisas que basta chutar uma árvore e caem dez velhos com  a mesma situação, de tão comum que é. Em função dessa obviedade, era para eu ter me dado conta de que a vó está velha faz um tempo. E pior: ela vai ficar MAIS velha ainda!  Mas a gente não vê. A gente (eu, pelo menos) acha que ela será eterna e vai continuar me cuidando, como fez até hoje.

Dar-se conta de finitude da vida é, por um lado, horrível, porque é naturalmente triste. Mas tem um ladinho bonito e bom. Vendo pelo lado menos triste, é possível conseguir modificar uma ou outra atitude. Não sei quanto tempo minha avó terá comigo, mas quero que seja um tempo bonito. Não quero ter a sensação de que não aproveitei e não fui legal com ela. Quero conseguir rir dos exageros da minha avó e saber que esse tempo compartilhado foi legal para nós duas. Minha avó é uma pessoa especialmente difícil, com um temperamento muito complicado e, nos últimos dias, isso não tem me irritado mais. Eventualmente ela fala umas aberrações, como se vivesse não no início do século passado, mas no século XIII. Mas até isso tem sido mais simples de conviver. Com minha mudança de atitude não só eu tenho sido uma neta mais legal, ela tem sido uma avó melhor.

E, quando a gente se dá conta da possibilidade (da certeza, mais ainda) da morte, a gente também pode entender um pouco mais sobre a vida. Então, ao invés de chorar a sua futura morte (que eu espero MUITO que demore!), quero celebrar a vida ao lado dela. Ainda mais que agora ela está bem e em casa!

Quando ela voltou para casa, ela disse que estava me devendo uma, já que eu fiz companhia bastante tempo a ela. Daí eu disse que não quero essa cobrança de quem deve o quê, para quem. Afinal, imagine se vou conseguir pagar pelos (quase) trinta anos que ela tem dedicado a mim!

1 Comentário (+add yours?)

  1. Madame Li Li
    Jun 18, 2011 @ 11:41:36

    O que posso dizer desse testemunho de escancarado amor e de reflexão? Nina ama sua avó que também ama Nina e as duas bobinhas acham que estão devendo algo uma para a outra.Amam-se e curtem-se sendo como são, especialmente a Nina que certamente carrega em si MUITO da avó formadora.

    Responder

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: