Precious e o Fome Zero

Na semana passada fui  — FINALMENTE!!! — ao cinema. Daí o filme que tinha na hora que fui se chamava Precious. É um filme muito bom, mas é um filme à moda daquele filme da Björk, Dançando no Escuro; ou, mesmo daquele com a Nicole Kidman, o Dogville. Precious, a personagem-título do filme, é praticamente a Polyanna, mas quase sem aparecer a realidade idealizada. Em outras palavras, ela é uma desgraçada (no sentido de excessivamente azarada e todas as desgraças acontecem com ela). A realidade da Precious é um soco no estômago. Para saber mais e ler a sinopse do filme, clica AQUI.

Mas queria comentar sobre a relação do filme com os controversos programas de transferência de valores, os ditos programas assistencialistas do governo brasileiro. A mãe da personagem Precious recebe benefícios do governo dos Estados Unidos: bolsa-isso, bolsa-aquilo. E coloca todo o dinheiro fora, além de matratá-la moralmente, sem gastar a renda que recebe com a filha ou com o bem-estar da “família”. O julgamento da classe média a respeito desses programas, aqui no Brasil, é o pior possível, já que o governo está “tirando dinheiro dos impostos da classe média” e dando dinheiro para pessoas que não fizeram nada para recebê-lo. Eu não acho isso um pensamento ilógico ou equivocado, porque realmente muitas pessoas que recebem o benefício vão comprar cigarro, ao invés de se preocuparem com a família.

Mas daí a gente vê no filme que esse tipo de benefício é comum nos países europeus e nos Estados Unidos. Essa tranferência de renda, por mais que soe como uma esmola, garante dinamismo na economia, menor desigualdade social e um pouco mais da sensação de dignidade para o sujeito. Além disso, no filme, Precious conseguiu usufruir desses benefícios para criar os filhos e seguir os estudos. Ou seja, por mais que haja muita gente que não use bem o benefício, existem, também, pessoas que aproveitam a oportunidade para serem melhores.

O Fome Zero, o Bolsa-Família e o Bolsa-Escola são programas que não são questionados nem pelo PSDB, atualmente. Tem total aprovação dos economistas mais ortodoxos e dos esquerdistas mais ferrenhos. A Europa respeita o Lula sobretudo por promover esse tipo de política. E a própria Europa, além dos Estados Unidos, tem programas semelhantes. Quer dizer, olha como nós, brasileiros, somos retrógrados nesse assunto, ainda, e malhamos as políticas de tranferência de valores! Não tenho dúvidas de que esse tipo de programa deve obrigar contrapartidas por parte do beneficiado, além de haver um controle e uma fiscalização mais rigorosa em relação aos beneficiados. É óbvio que não queremos subsidiar vagabundos com nossos impostos!

Mas é importante refletir sobre a validade desse tipo de programa e entender por que até mesmo o berço do capitalismo adota o protecionismo social. Quer dizer, se as potências mundiais valorizam esse tipo de política, por que justamente o Brasil tem de rejeitá-las?

O dia seguinte

Bem, o post anterior foi publicado pela Rosane de Oliveira no seu blogue.  Tenho de reconhecer que ela foi extremamente solícita e educada, inclusive confrontando as informações que recebeu. O fato foi que a SEC respondeu a ela. O email dizia que:

Quem é Nina Antonioli? Não tem nenhum professor com esse nome, oras. (Agora, querido leitor, imagine eu explicando que meu nome é Janina, que é polonês, por isso a pronúncia é “ianina”, porque é o nome de minha bisavó… Nina, ok? Mais fácil.)

A SEC prefere professor atendendo aluno do que aluno sem aula. (Nossa, eu também! Mas na falta de professores, esse argumento é corretíssimo! Mesmo que seja de extrema importância ter professores melhor qualificados. Além disso, o vídeo que nos mandaram para o início do ano letivo orientava que os professores dedicassem tempo para se especializarem.)

A SEC garante que não há falta de professores. Tem mais de 17 mil professores a disposição numa lista de contratos temporários. (Tá, se tem tantos profes assim a disposição, por que algum aluno ficaria sem aula em função de eu sair para uma licença?)

A SEC diz que 80% dos professores que pedem licença para estudo não voltam à sala de aula. (Sim, é verdade. Mas nesses casos a licença concedida é a licença interesse, que desobriga a volta pós estudos e não é remunerada. A licença que peço exige que eu volte a trabalhar tempo igual ao da licença, sob pena de ter de pagar o investimento para o Estado. Quer dizer, se a licença de qualificação profissional — LQP — estivesse sendo concedida, não haveria abandono dos professores no fim da licença.)

Recebi essas respostas da SEC, porque a Rosane gentilmente me encaminhou. De toda a sorte, reescrevi para a Rosane e disse que, ao contrário da SEC, eu não tinha estatísticas sobre os fatos citados acima. Mas expus o outro ponto de vista, bastante parecido ao que escrevi entre parênteses acima, mas bem mais polido.

Me alertaram que eu poderia sofrer algum tipo de perseguição ou represália na Secretaria, já que tinha “metido a imprensa” no meu problema. Mas eu tenho menos de trinta anos, então, não achava que tinha muito a perder e estava — literalmente — cagando para tudo isso: minha revolta era tal, que se me chutassem da SEC, como fizeram com o Voltaire Schilling na Secretaria da Cultura, eu não ficaria triste. Todas as vezes anteriores que eu tinha ido à SEC para saber sobre LQP, era desencorajada a fazer o processo. As explicações mais comuns eram ligadas ao fato de não haver professores para sala de aula. Além disso, a possibilidade que os funcionários da SEC me davam era tentar ajeitar um horário alternativo, uma exceção com meu diretor.

Daí fui à SEC na sexta fazer o bendito processo para conseguir LQP. Pela primeira vez não me impediram de fazer o processo, espantoso! Incrível, mesmo, foi ver uma cópia de um decreto proibindo LQP no Governo Yeda na mesa da responsável por processos de LQP (que praticamente não deve trabalhar, já que não tem processos para fazer). A governadora, junto com o Luís Fernando Záchia, sancionou um decreto que proibia a concessão de LQP desde 5 de janeiro de 2007. Quer dizer, ela assumiu o governo e, cinco dias depois, cancelou as LQP’s. Ok, é lei e não posso questionar isso. Mas o grande problema dessa questão é que tive de esperar a movimentação da imprensa para me mostrarem por que eu não posso conseguir a LQP. Tive de ir três vezes e telefonar outras cinco, até que surgisse um papel oficial e me desse um argumento de “e por que não?”. Não posso dizer que estou conformada, mas o mais revoltante nesse engodo é o desrespeito e descaso com o professor. Se não pode LQP e tem lei para isso, queria essa explicação desde o início. Bem, o que me resta nesse momento é torcer para que a governadora não se reeleja e que o próximo secretariado seja formado por pessoas mais informadas e mais dedicadas ao trato com os professores.