Tabacudos

Existem palavras que usamos sem saber o porquê e, até mesmo, sem conseguir definir, exatamente, após anos de uso. Algumas palavras do nosso vocabulário gauchesco são bastante peculiares, até porque, elas crescem conosco. Um exemplo bastante típico de palavra inusitada e muito particular, para mim, é a palavra “tabacudo”, em que a definição até hoje é vaga. Ou melhor, é uma definição polissêmica para mim, rica em conotação.

Minha experiência com a palavra tabacudo começou na infância, onde descobri, não acidentalmente, que todas as pessoas são tabacudas. Meu avô chamava a mim e a meus tios de tabacudos. Sabíamos que éramos tabacudos desde pequenos – talvez desde o dia em que nascemos –, mas não sabíamos até que ponto isso nos ofendia. Pensei até que fosse um palavrão, mas não consta no dicionário de palavrões. Era uma gíria que, talvez, poderia ser substituída por “bocó” ou “coió”, mas ainda assim, sabíamos que o valor semântico não era exatamente o mesmo de “bocó”, nem de “coió”. Tabacudo é ser muito mais pateta que isso.

Mas mesmo sendo tabacudos, não somos tristes, nem nos sentimos inferiorizados. Não é um adjetivo depreciativo. Porém, tabacudo, assim mesmo, é usado nos momentos em que alguém tenta (e consegue) satirizar outra pessoa. O próprio som da palavra já nos dá um prenúncio do seu significado. Eu acredito, até, que falar que “fulano é um tabacudo” já diz tudo, ou seja, não precisa dar explicações. Talvez, por isso, há muitos anos, quando fui amansar minha dúvida, descobri que a palavra não está no Aurelião (nem, tampouco, no dicionário gauchesco): porque sua pronúncia já é engraçada o suficiente para que nosso interlocutor compreenda do que se trata. Pensei até em procurar no Houaiss o significado da palavra para escrever esse texto; mas resolvi não abandonar meu conceito polissêmico e continuar ignorante. Afinal, qualquer conceito, agora, mataria o sentido lúdico mantido durante anos.

Tabacudos somos quando nos enganamos ou quando cometemos algum erro divertido, sem nos darmos conta. Qualquer “boca-abertice” é feita por um tabacudo. E mais, há os tabacudos por excelência: os desastrados por vocação.

Tabacudos são os que derrubam o café no paletó justamente no dia da reunião com o dono da empresa. Ou são aqueles que esbarram num prato bonito na casa da sogra, e o prato cai e quebra. Tabacudos são os que trocam letras: já ouvi uma tabacuda dizer que caiu dos “negraus” da escada e um outro tabacudo dizer que apanhou de “protósito”. E, tabacudos são, também, os que confundem significados de “palavras difíceis”, montando um palavrório pedante.

Se ser tabacudo não é um conceito com definição exata, pode-se dizer que está pleno de multissignificação. Todos nós somos tabacudos e temos dias tabacudos. Basta estar vivo para vivenciar esse adjetivo. Enfim, ser ou não ser tabacudo não é uma questão pertinente: é uma certeza diária.


*** Esse texto foi escrito em 2003, para uma cadeira de Leitura e Produção Textual. Estou guardando online os textos que me sobraram, pois perdi quase todos os que fiz. Há coisas engraçadinhas e outras muito ruins. Mas era o meu primeiro semestre na UFRGS.

2 comentários (+add yours?)

  1. Alexandre Martinazzo
    Maio 23, 2008 @ 23:54:17

    Outra vez (ainda que o texto seja de antes de nos conhecermos) você atenta para a sonoridade.

    Não me lembro de ter ouvido alguém dizer isso na minha estadia aí… acho que é um bom sinal, não?

    Responder

  2. Alisson
    Mar 13, 2013 @ 03:28:23

    é uma palavra pernambucana!

    Responder

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