A primeira vez

Acordei já pensando na noite que estava por vir, na mentira que teria que inventar e no trabalho que teria ao longo do dia. Esse era um dia especial; pelo menos, eu tinha idealizado que seria. Tinha escolhido a roupa ainda pela manhã, estava escondendo a euforia desde que tinha acordado. Eu ainda não tinha nenhuma garantia de que meus planos dariam certo – aliás, nenhum dos meus planos funciona –, mas estava segura de que teria uma noite surpreendente.

Almocei e fui trabalhar, assim, como em um dia normal. E, depois do trabalho, cheguei em casa, fiz um agrado para minha avó, pedi comida e notei que a mentira teria de ser bastante convincente, pois minha casa estava cheia de parentes; não era só a minha avó que eu deveria enganar. Além de inventar uma bela história e uma bela desculpa, deveria ter que garantir a reputação que me era confiada.

Cogitando muitas hipóteses, considerando minha inabilidade em contar histórias, resolvi não mentir. A alternativa encontrada foi sair de casa correndo, no meio de algum bloco da novela em que todo mundo só quer silêncio para ver aquilo que já foi lido no resumo do capítulo, do jornal de domingo. Pois é… não funcionou. Quando eu coloquei a chave na porta, o bloco da novela tinha acabado.

E a pergunta inevitável, feita por mais de uma tia, além da minha avó: “Tu vais sair acompanhada essa hora, não é?” Pois, então, não ia. Mas lembrei da maldita reputação. “Acho que encontro alguém, sim.”, respondi. Não encontraria, nem tinha vontade nenhuma de encontrar; talvez só se fosse no fim da noite, se a noite fosse de sorte para mim. Sem conseguir sustentar por muito mais tempo a cara deslavada, saí quase correndo, até porque tinha que garantir o meu lugar.

Cheguei no Beira-Rio e não tinha fila. Nem era um clássico, mas era essa mesma razão que me levava a ir, pela primeira vez, em um estádio de futebol sozinha. Junto com a ida ao estádio pela primeira vez, eu estava quebrando um dos poucos resquícios machistas da minha família – de fato, um matriarcado – que estava tão grudado nos valores comuns dos parentes. Infelizmente, nessa família saiu uma apaixonada por futebol, que, até então, só assistia aos jogos pela TV. E, sim, tinha que dizer que iria acompanhada, com qualquer suposto protetor, nesse caso. Mas, aquela noite eu tinha apenas um encontro, com o  arquiinimigo da vez: o time do Caxias.

O Inter tinha que ganhar. E mesmo que não tivesse, deveria ganhar. Eu tinha esperado aquele momento por muito tempo. Tinha ponderado em relação à minha segurança e à autoridade da minha mãe durante muitos anos. E, como em um rito de passagem tribal, tinha chegado a minha hora. Já tinha me fardado de moleque, carregava uma camiseta rubra, e levava um orgulho bem feminino: o de contrariar uma regra (sem fundamento) de entrar nesse ambiente cheio de homens.

Cheguei muito cedo. Estava garoando, mas consegui um bom lugar na arquibancada inferior. Liguei o meu rádio a pilha e fiquei escutando os mesmos radialistas que estava acostumada a ouvir em todos os jogos. Só que naquele dia eu estava com a mesma visão que eles.

Começou a partida. Consegui, de fato, aprovar o desempenho do Gavilán. Pude ver que o Cleiton Xavier gosta de fazer o papel de enceradeira do time. E vi, vi muitas vezes, mesmo pedindo muitas faltas, o jogo do Daniel Carvalho. Como dizia o radialista: “É bom esse Daniel Carvalho!” E era mesmo! Ele dançava com a bola e, assim, me fazia sentir saudade daquele futebol-arte que eu via na televisão quando era pequena, em reprises da TV Cultura.

Não posso desmoralizar o meu rival da noite, o SER Caxias. Eles tinham o Lê, que me deu muito medo. Mas foi esse mesmo Lê que contribuiu para que a minha noite saísse mesmo perfeita. Ele foi derrubado na área, e isso, para quem não sabe, é sinônimo de pênalti. O Clemer defendeu. Aliás, o Inter só não fez muitos gols porque o Caxias tinha um ótimo time de retranca e a defesa deles era invejável.

Mas o Internacional não tinha feito gol. E eu queria ver gol, feio ou bonito, não importava. Meu objetivo era ver a partida ganha. Os jogadores, que estavam comprometidos com minha ansiedade e demonstraram valorosa cumplicidade, não fizeram o esperado gol no primeiro tempo. Foram demonstrando habilidade ao longo do jogo, fazendo valer o suor de suas camisas, e o dinheiro investido naquele ingresso. O gol, então, saiu. E foi aos 38 minutos do segundo tempo. Exatamente como eu tinha idealizado: com muitas defesas do meu goleiro, com muitas tentativas do meu atacante, com muitos bailados daquele Daniel.

Foi uma noite maravilhosa, voltei para a casa com o orgulho da vitória. Senti-me absoluta: eu ganhava um jogo do Campeonato Gaúcho, ao mesmo tempo em que ganhava o prazer de poder freqüentar um meio masculino, que, segundo minha família, não era para o meu bico.

*** Esse texto foi escrito em 2003, para uma cadeira de Leitura e Produção Textual. Estou guardando online os textos que me sobraram, pois perdi quase todos os que fiz. Há coisas engraçadinhas e outras muito ruins. Mas era o meu primeiro semestre na UFRGS.

1 Comentário (+add yours?)

  1. washington
    Jun 17, 2008 @ 21:22:26

    que bacana isso. resgatar a memória, o mathias, as mãos cheias de suor frio, o recinto com trinta e poucos calouros, os desatinos de qualquer missão cheia de consertos pra fazer. os anos da faculdade à frente. bons tempos, bons tempos. aquela guria cheia de marra, a esconder a timidez. hehe. belo texto. belo texto.

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