Che, Veja e afins

Bem, para os leitores do blogue, antes de começar a falar do assunto, explico: sou uma mulher de esquerda. Uma mulher de esquerda que pensa com a cabeça do século XXI. Depois dessa pré-explicação — que serve para alguns e, para outros, não — posso comentar sobre Che Guevara e a reportagem da Veja (de 30 de outubro de 2007) sobre ele, sem medo e sem dó de me contradizer.

O assunto surgiu quando li a Veja comemorativa aos 40 anos de morte do Che, que além de ter uma péssima reportagem (reportagem?), não reconhece o sujeito como figura mais que importante do século XX. Eu não sou guevarista, porque não acredito nessa filosofia de pegar armas para lutar pela revolução. Nem acredito numa possível revolução num futuro próximo, sinceramente. Mas o cara era, sem dúvidas, comandante e guerrilheiro; sujeito que acreditava tanto no que estava fazendo que foi para a Bolívia em missão suicida (em relação às utopias, retomo o que diz Saramago: utopia não serve para nada; o sonho precisa ser plausível e realizável para ser sonho… As utopias, segundo Saramago, não existem, não se realizam, por definição).

Nada disso é motivo de orgulho, mas é o tipo de figura política que foge a quaisquer padrões. E o que deve ser considerado admirável, nessa atitude, é o poder de realizar coisas que esse homem tinha. Quer dizer: como político, um fiasco; como ser humano, um visionário. Isso foi deturpado gravemente na reportagem de Veja. Aliás, tudo o que a Veja fez foi arrecadar dados que interessavam a extrema direita, sem nenhum tipo de reportagem. Do ponto de vista jornalístico, nem de longe havia isenção ou interesse pelos fatos reais vividos pelo personagem da vez. Além disso, as opiniões iam contra vários relatos sobre quem foi Che Guevara, chamando-o, praticamente, de um gurizinho de meia-pataca.

Não acho que ele era um sujeito honesto, correto ou verdadeiro. Talvez ele tenha sido verdadeiro para si mesmo; mas, numa guerrilha, métodos de espionagem, clandestinidade e mentira têm livre acesso nas ações. Che, então, como guerrilheiro, era ladrão, mentiroso, clandestino. Com esse monte de falácias e exageros, Veja constitui seu argumento por quatro, cinco páginas. Enfatizam a arrogância de um homem que parece ter tido muita lucidez titubeando com muita utopia cega. Não, Che Guevara não foi um herói. E, nisso, Veja está corretíssima.

Mesmo assim, era elogiado pela franqueza na mesa de negociações — inclusive do lado estadunidense –, pela tranqüilidade, timidez, reserva, essas coisas tão burguesas. E tudo isso não podia ser diferente, afinal ele veio de uma família rica, mesmo. Che tinha cultura, ou pelo menos era muito mais informado do que a média. Quando ele disse ao seu algoz que valia mais vivo do que morto, tinha noção do que já representava, mas não imaginou que sua figura de quase um Cristo morto viria a se tornar. Hoje sua figura morta vale milhões de dólares na publicidade.

O que quero, aqui, não é elogiar ou enxovalhar a figura de Che Guevara, mas tentar percebê-lo muito além do mito. Quer dizer: tão burro quanto torná-lo mito, é demonizá-lo. Porque ele era humano, assim, igual a qualquer um de nós. E essa besteira de a Veja querer mostrar um homem derrotado, vil, mentiroso é só uma maneira de destruir o mito e substituí-lo por outra burrice. Ou ainda: ele foi vil, mentiroso e derrotado, mas foi, também, muito além disso.
Ele teve derrotas, vitórias, alegrias, tristezas, amores e desamores, frustrações e certezas. Assim, como qualquer pessoa tem. E, parece que nos custa muito vê-lo assim. Preferimos vendê-lo como souvenir ou como bandeira de esquerdas.

Infelizmente ele não está aqui para discernir sobre o que deva ser feito com sua imagem. Mas, se estivesse vivo, não seria mártir, hoje. Nem venderia milhões servindo de inspiração para o CD da Madonna.

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madonna-american-life-del-2003-delantera.jpg

versus

che_guevara_01.png

8 comentários (+add yours?)

  1. Alexandre Martinazzo
    Dez 23, 2007 @ 16:10:02

    Realmente, esquerda com cabeça de século XXI. Você devia propagar esse conceito.

    Só não sei se rio ou se choro com essa imagem da Madonna; ainda mais com o título do álbum.

    Responder

  2. washington luis prudencio
    Dez 23, 2007 @ 17:23:35

    A construção de identidades passa pelo famoso crivo do formador de opinião. De qualquer modo, a consistência ou representatividade histórica é definida à revelia da figura que é consagrada, para o bem ou mal. Fica a cargo do nosso conjunto de valores a maneira como se realiza o embate, o debate.

    ¿Quando uma informação fura o bloqueio e passa a ocupar o espaço de contestação àquela que mais agrada a quem dirige o mundo? Temos alimentado que existe esquerda e direita. Existe?

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  3. marcos corbari
    Dez 26, 2007 @ 17:26:25

    Pode ser um comentário menor frente a um texto lúcido, embora discorde em alguns pontos, mas devo te dizer que minha tendência maior é concordar com Galeano e não com Saramago ou contigo. Creio que a utopia serve para algo sim, nem que seja para ao menos nos fazer caminhar. Seríamnos pequenos, resumidos à mediocridade materialista, caso nos propuséssemos somente sonhos possíveis.

    Saravah!

    Responder

  4. Rodrigo
    Dez 30, 2007 @ 01:10:48

    Lucidez é a palavra. Texto e blog inteligentes; interativo e convidativo. A respeito do assunto, esse tipo de texto (artigo da veja) só torna o jornalismo mais medíocre um tanto mais. Somos péssimos redatores, críticos e propagadores de opinião. Estamos mal representados e tudo isso é muito perigoso. Aquilo foi um arremedo de matéria. Indiferente à discrepância ou concórdia, é o lixo textual que me assusta.

    Caros amigos deve se esbaldar no riso. Enfim, esta revista, ao menos traz alento…

    Abraço a todos e leiam também os meus…

    http://www.faganello.blogspot.com

    Responder

  5. Brown
    Nov 16, 2009 @ 14:28:23

    Não vo nem falar nada

    So Digo Uma Coisa

    Hasta la Victoria Siempre!

    Responder

  6. nelo
    Nov 27, 2009 @ 16:13:32

    este hombre es el maximo criador de la humanidad sus hechos tienen
    valor

    Responder

  7. Julio Cesar
    Dez 09, 2009 @ 14:32:03

    Acho equivocada a crítica ao album da Madonna . o mesmo foi lançado em 2003 no auge da Era Bush, e é repleto de críticas ao imperialismo americano, ao establishment, ao sonho de vida americana, e à Guerra, e até conta com uma regravação da música pacifista de John Lennon, “Imagine”. ela afirma que se inspirou em Che, em John Lennon e Michael Moore pra realizar essa obra. No final das contas, o CD foi boicotado pelo governo, que interferiu nas vendas, obtendo fraco sucesso nos EUA.
    Pode Não conter a essência do pensamento de Che, mas não é uma tatuagezinha pra se dizer revoltada e da moda como está ironicamente citado… Ela é muito mais que um produto.

    Responder

  8. Anderson
    Dez 31, 2009 @ 01:18:45

    hasta la victoria sienpre!

    Responder

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