Poema do Bruno Cardoso de Melo
10 Fev 2012 Deixe um Comentário
Meu amigo Bruno, de Marília-SP, é um garoto muito jovem e escreveu uma poesia bem bonita. É um poema simples, cotidiano, mas muito bem feito, ainda mais considerando sua pouca idade. Tem uma “licença poética” no texto, já que ora ele conjuga com “tu” e ora com “você”, mas ok, como professora de português, os aspectos gramaticais me parecem discretos como um carro alegórico de Carnaval e nem deveriam ser tão chamativos assim, já que o texto é bom.
O poema me lembra o filme “O tempero da vida”, que é bem bonito e mistura a gastronomia com as questões existenciais e essenciais da vida. Bruno faz isso, de outra forma: alia a palavra “temperamento” à palavra “tempero”, o que é uma associação muito interessante, olha só:
O temperamento é o fomento
que tempera nossa relações.
Há dias que é tão doce quanto um sorriso.
Há dias que fica indegustável quanto uma indiferença.
Há dias que é amargo e há pessoas que apraziam.
E também há dias que tu provas
pensando em outro condimento.
Há dias, que não há alimento e
então você acaba misturando os sobejos:
Pica umas amizades, espreme alguns desejos
gratina uns pensamentos e cozinha tristezas.
Juntando em um único prato: come com tanta igualdade
que não há possibilidade
de não se encher de amor.
Release do filme, para quem se interessar:
“O Tempero da Vida” é a história sobre um menino que cresceu em Istambul, cujo avô, um filósofo culinário e mentor, o ensina que tanto a comida quanto a vida, requerem um pouquinho de sal para adicionar-lhe sabor… Ambas precisam de um toque de tempero. Mas por causa da guerra, sua família se muda novamente para a Grécia. Fanis cresce e se torna um grande cozinheiro. Trinta e cinco anos depois, ele deixa Atenas e volta para Istambul a fim de rever a vizinhança onde cresceu e seu primeiro grande amor. Então ele percebe que sua vida precisa de um pouco de tempero também.O Tempero da Vida é a história sobre um menino que cresceu em Istambul, cujo avô, um filósofo culinário e mentor, o ensina que tanto a comida quanto a vida, requerem um pouquinho de sal para adicionar-lhe sabor… Ambas precisam de um toque de tempero. Mas por causa da guerra, sua família se muda novamente para a Grécia. Fanis cresce e se torna um grande cozinheiro. Trinta e cinco anos depois, ele deixa Atenas e volta para Istambul a fim de rever a vizinhança onde cresceu e seu primeiro grande amor. Então ele percebe que sua vida precisa de um pouco de tempero também.
(Texto retirado de: http://www.2001video.com.br/detalhes_produto_extra_dvd.asp?produto=12147)
Sounds of silence
09 Fev 2012 1 Comentário
Quando era criança, eu era uma nerd. Nos fins de semana, eu acordava cedo para ouvir os discos de música tradicionalista (quando morava em São Paulo), tentava entender aquele vocabulário estranho e, quando voltei à Porto Alegre, ficava ouvindo os discos estrangeiros de minha mãe — e tentando traduzir (é lógico que era um arremedo de tradução, ainda mais porque o dicionário bilingue disponível era do MEC, da década de 1950). Bem, daí veio minha paixão por música e por conhecer sobre música.
O primeiro disco que eu “traduzi” foi o da Tracy Chapman, que tinha dois hits “Fast car” e “Baby, can I hold you”. Eu odiava os hits, mas adorava todo o resto do disco. Logo depois, aos nove ou dez anos, “traduzi” “The concert in Central Park”, disco clássico do Simon & Garfunkel, que ainda hoje fazem um ou outro revival. Esse disco é muito bom, adoro, mesmo. Conheci folk ali e, se tenho algum apreço pelo estilo, veio dali.
Descobri a imagem poética através desse disco, cheio de hits, também. “The sounds of silence” é uma canção que me deu belas imagens poéticas — na época, uma descoberta muito interessante — e me permitiu perceber como poderia ser a experiência estética. Não que seja uma obra-prima, quer dizer, hoje não é mais para mim… Mas tem momentos, na canção, em que me sentia escutando sobre a alma. Tipo, isso, para uma criança, é phoda.
Hoje estava com essa canção na cabeça e fui ver a letra, que não é tão mágica como me pareceu. É uma bela canção, é bem escrita, tem uma história bonita, só que a gente cresce e hoje não me diz tanto, quanto antes. Mas “The sounds of silence” foi um degrau muito valioso para que eu despertasse para a apreciação da arte.
“Hello darkness, my old friend,
I’ve come to talk with you again,
Because a vision softly creeping,
Left its seeds while I was sleeping,
And the vision that was planted in my brain
Still remains
Within the sound of silence.
[...]
When my eyes were stabbed by the flash of a neon light
That split the night
And touched the sound of silence.
And in the naked light I saw
Ten thousand people, maybe more.
People talking without speaking,
People hearing without listening,
People writing songs that voices never share
And no one dared
Disturb the sound of silence.”
As frases “Within the sound of silence”, “And touched the sound of silence” e “Disturb the sound of silence” eram as que eu mais gostava, porque materializavam o que não é palpável. Então eu achava essa percepção muito bonita.
Enfim, deixo o link para quem gostar:
Resultado da semana de Couch: um estudo quantitativo
30 Jan 2012 Deixe um Comentário
1 toalha no pátio da vizinha do térreo
1 xampu meio cheio ou meio vazio
1 pulseira de recordação do Acampamento da Juventude
1 recado fofo
1 porta emperrada
1 camiseta na garagem do escritório vizinho
1 sms querido
1 casa organizada
dezenas de milhares chimas feitos e tomados e compartilhados (nós, gaúchos, não somos exagerados, cof, cof)
1 mateador oficial
1 pedra linda
1 bandeira mapuche
5.478.451 sorrisos + abraços + beijinhos — tudo respeitoso, afinal, sou professora e (cof, cof, cof) preciso dar exemplo
1 chute para fora da cama
e 12 novos lindos amigos ♥
(estava *quase* esquecendo dos que não ficaram na minha casa e do que ficou parcialmente em casa)
As bobagens todas juntas e reunidas
07 Jan 2012 1 Comentário
Estava eu hoje no aniversário da Edninha e começamos a comentar as coisas dantescas da internet. E, olha, tem coisa bagaceira! Apesar de muitas serem a degradação humana, há que rir. Porque se é o horror, pelo menos foi engraçado.
Então vou fazer um “The best of” nesse post, sem necessariamente serem os melhores. Nos comentários, coloquem as pérolas faltantes, por favor!
1. O mais recente: Lasier Martins feat. Michel Teló em “Ai, se eu te pego”
2. Vanessão (repare, aos três minutos, que começa a cair a peruca de Vanessão)
3. Lohane Vekanandre Sthephany Smith Bueno de Hahaha de Raio Laser Bala de Icekiss
4. “Garota na chuvaaa / Ou no verão / Garota na chuvaaa / São as quatro estaçããão”
5. Garrafa entalada em Curralinho
6. Jeremias, multado por não estar com habilitação e ter documento atrasado (?!?!?!?!)
“e diga a minha mãe que eu tarra matanu mil!”
7. Morre, diabo!
8. Forró do “Ninguém me tucuta no Facebook!”
9. Ronei: o ídolo, o deus, o mestre — cantando “Solidão”
“abracei com desejo a minha coberta / … / ando malu-u-uco de-e-e-e sauda-a-a-a-ade”
10. Vera no Chevetão
=)
Presentes para uma balzaquiana
06 Jan 2012 4 Comentários
No último dia 2, completei 30 primaveras. Tá, para eu não parecer velha com essa frase — ora, quem conta a idade com primaveras é minha avó! — vou refazê-la.
Fiz trinta no dia 2 de janeiro.
E inesperadamente foi legal. Nasci num dia bonitinho, par. Mas, mesmo no dia par, não fiz minha mãe completamente feliz. Ela queria que eu nascesse no Dia Mundial da Paz, dia 1º de janeiro, mas eu provei que a preguiça é congênita e atrasei o plano de minha mãe. A preguiça não é culpa minha, é a minha natureza.
A verdade é que não curto muito fazer aniversários, porque, né?, nascer nesse dia é meio cruel, mas enfim, esse ano quis comemorar. Quis porque me lembrei do imaginário que os trinta anos causavam quando eu era pequena. Eu escutava que a pessoa era balzaquiana, então era uma mulher acabada, esperando a morte ou a aposentadoria — o que viesse primeiro — chegar. Quando minha mãe e minhas tias fizeram 30, eu as olhava e pensava: “coitadas!”. Sentia pena, mesmo. Achava que carreira, filhos, relacionamentos, estava tudo acabado para elas. Que elas fariam trinta e chegaria magicamente a menopausa e elas ficariam feias e enrugadas. Mas não: elas são ágeis, inteligentes e super dispostas até hoje. Por isso decidi comemorar: se a genética fez tão bem a elas, por que não faria a mim também, que nasci da mesma árvore genealógica? Além disso, carreira, relacionamentos e filhos ainda não aconteceram na minha vida, então acho que há muita juventude a ser vivida. Com quase trinta, até essas coisas de criança, os aparelhos nos dentes, coloquei. Então acabei rindo de mim e da condição de balzaca.
Mas o presente mais legal dos 30 anos não foi descobrir que a genética é generosa com minha família. Foi, sem dúvida, reencontrar fisicamente (porque virtualmente já fazia bastante tempo que falávamos) um aluno bem querido do meu estágio de Magistério, o Bruno Moura. Quando fiz o estágio, tinha recém completado 17 anos. Era um crime me deixar responsável por alguma sala de aula! Mas eu estava lá e as outras crianças (porque eu era uma) também e tinha de dar aula. É lógico que foi uma experiência muito marcante e lembro os rostinhos dos piás desde sempre. Mas eu era uma tamanca pois não sabia muito bem como ser professora, então achava que eles teriam uma recordação de mim assim como alguém lembra que conhece uma pessoa mas não sabe nem de onde.
O Bruno me deu um abraço tão carinhoso, quando nos vimos no bar, que nossa! Que alegria! É realmente reconfortante que alguém te olhe nos olhos e lembre de ti pelas melhores lembranças. Em seguida, Bruno colocou nossa foto no Facebook e algumas das “minhas crianças” se manifestaram. E falaram as melhores coisas para mim. A mensagem da Maria Aline, olha, foi bem arrepiante. Porque ninguém precisa dizer nada de especial e profundo, mas voluntariamente dizem, sabe? Se eu ganhasse todos os salários que tive até hoje, juntos todos em um montão, não pagaria nenhum desses momentos especiais.
O Bruno se tornou um homem querido, honrado e está estudando num lugar legal! Olha só e percebe como o Bruno está um chuchu com sua linda namorada! E eu estou muito feliz por ter ganhado esse presente tão querido de trinta anos!
=)
Pouco alcance
03 Dez 2011 1 Comentário
Há uns meses fiz um comentário em um outro blogue sobre o caso do Rafinha Bastos, defendendo a liberdade de expressão, ainda que sua prática acarrete processos contra a pessoa que disse o que quis (repare que não é uma defesa ao Rafinha). Eu entendo que, quando a pessoa ofendida tem o direito de reclamar e exerce esse direito, as condições da liberdade de expressão estão satisfeitas — a expressão é livre e pode sofrer represália, processo, contraditório –, portanto, não há vitimização das partes nessa história. Bem, até aí é uma opinião, apenas. Posso estar vendo a situação com muitos limites. E estou bem disposta a ouvir quem discorda de mim e está com vontade de debater com argumentos mínimos. Acho bem saudável. Mas esse post não é bem sobre isso.
No referido blogue, um sujeito decidiu expor seu pensamento contrário ao meu comentário — o que me pareceu extramemente interessante, pois eu veria o outro lado do meu argumento. Mas o sujeito que escreveu passou a me ofender grosseiramente, pois, segundo ele, eu não deveria poder falar o que penso. Então eu pensei: “ok, ele também tem o direito de se sentir mordido e explicar seu lado de um jeito mais rude”. Para mim, era um sujeito anônimo, mas, ao que parece, a criatura procurou sobre minha vida no Facebook, ou no blogue ou no raio-que-o-parta para tentar encontrar ofensas a meu respeito. Não acho que seja um conhecido que se escondeu atrás do anonimato, porque das pessoas que eu conheço, não consigo lembrar de nenhuma que mencionaria as coisas que o tal sujeito mencionou.
As opiniões que o cara expôs, achei legítimas. Ele queria expressar sua contrariedade em relação ao que eu penso e ele tem o direito de fazer isso sempre que quiser. Sobre as ofensas, se incomoda quem quer e eu quero ser feliz; não me vejo discutindo com um anônimo e que, justamente por ser desconhecido, não tem importância. Mas duas coisas me deixaram um pouco desconfortáves na referida situação. A primeira, é constatar (mais uma vez) que as pessoas não sabem dizer suas ideias: quando discordam, elas são estúpidas (no sentido de não pensar com algum cuidado a respeito) e não têm argumentos. Fiquei um pouco incomodada com o fato de uma pessoa precisar ofender para esconder que não sabe argumentar. Tá, isso não chega a ser uma surpresa, mas sabe o Programa do Ratinho? Pois é…
O segundo desconforto é o fato de o sujeito se valer de sua liberdade de expressão, o que é ok, mas fazer uma das coisas que eu condeno em nome dessa mesma “liberdade de expressão”, que é faltar com responsabilidade de quem fala. Eu acho que tudo pode ser dito e comentado, mas tudo tem de ter uma assinatura. O cara esse chegou até mim pois eu assinei o post, linkei o post e dei pistas de quem eu era; afinal, se eu emito uma opinião, tenho de ser responsabilizada sobre ela. O sujeito que replicou, não. Ele colocou um nome genérico, não escreveu o sobrenome e não deixou link nenhum sobre como achá-lo. Não vou atrás dele para pedir explicação, mas, se eu quisesse — se qualquer um quisesse — deveria ter o direito de fazê-lo.
Acho que a visibilidade da internet é quase sempre positiva. O direito de saber com quem está falando e o quanto essa pessoa é responsável pelo que diz deveria estar em todas as instâncias, inclusive no jornalismo (que seguidamente publica mentiras e não se responsabiliza / não responsabiliza o autor da “notícia” pelo que foi veiculado). Já tive situações ruins pela exposição na internet, como no caso de um funcionário da Secretaria de Educação que, para me depreciar profissionalmente, buscou informações pessoais nesse blogue, ou seja, um despropósito. Mesmo assim, prefiro o despropósito ao anonimato.
Bem, minha intenção não era dizer que fui ofendida na web, mas quis ilustrar esse caso para ver que a liberdade de expressão é um sonho de consumo, ainda, e todo mundo quer. Mas a contrapartida da responsabilidade sobre quem fala e o que se fala, parece, ninguém quer.
Criolo ou Como é emocionante ver um artista entregue
02 Nov 2011 Deixe um Comentário
Eu já rasguei elogios ao Criolo nesse blogue e terei de fazê-lo novamente, mas, agora, com mais propriedade: fui no show dele.
Um aspecto legal do show era o fato de que havia muita gente que conhece o Criolo e gosta do trabalho dele com hiphop, então “os mano” estavam lá. Mas, ao mesmo tempo, tinha um monte de gente indie, que viu o Criolo no VMB ou faz parte do pessoal alternativo da cidade e estava gostando bastante. Tinha eu, também, que simplesmente gosto de música, ali no meio. Enfim, quem foi para esperar hiphop viu muito mais do que isso, viu muito além de rótulos e apreciou muito mais do que um gênero. Aliás, ele tocou tantos gêneros, tantos juntos em cada canção, que classificar o Criolo e a banda dentro de um nicho até pecado é.
A banda é ótima, ele está completamente sintonizado com a banda e tecnicamente tudo funciona lindamente (o microfone da flauta, não, mas daí era culpa do Opinião, não dos músicos). A direção do Daniel Ganjaman e do Marcelo Cabral são irretocáveis. Daniel, inclusive, não participou como um coadjuvante do teclado, ele foi o show junto com o Criolo e com os demais músicos. Aliás, era uma festa bem ensaiada, mas não foi pouco aproveitada. Sabe quando se vê uma banda com vontade de tocar? Pois é, aquela estava e as pessoas estavam muito felizes assistindo. Do ponto de vista da banda, fiquei muito contente em ver o pessoal tocando hiphop com banda, não só com pick-up. Como a música fica rica e se pode extrapolar! Bah!
O Criolo? Nossa! Ele não é um cara que pode ser chamado de showman. É um cantor que se envolve com a música, não com a cena. E acho que nunca vi um artista tão envolvido com sua música, como vi o Criolo. Suas letras são lindas, mesmo que algumas não sejam facilmente inteligíveis, mas são poéticas, profundas. E a força do show, as pessoas cantando, o clima de festa não foram fatores que tiraram a beleza e a intensidade do que o Criolo tinha de ser e fazer. A gente elogia um cantor quando ele canta com alma. Criolo canta com alma, vísceras, corpo, coração, com tudo. Quando ele canta, ele é a música.
As letras dele são ótimas, também. É claro que há denúncia social, ele é um MC, oras. Mas ele tem um olhar mais humano do que denuncista, o que faz dele um autor mais interessante, lógico. Um exemplo forte disso é a canção “4 da manhã”, que é, eu acho, um samba. Olha só:
Às 4 da manhã ele acordou
Tomou café sem pão
E foi a rua
Por o bloco pra desfilar
Atravessou o morro
E do outro lado da nação
Ficou com medo ao ver
Que seu bolco talvez não pudesse agradar
As contas a pagar
Fila pra pegar
Senha pra rasgar
Fantasia…
Que às 4 da manhã ele bordou sem pão
Junto a estandarte
Pôs a alma pra lavar
Atravessou o morro
E do outro lado da nação
Levou um susto ao ver
Um povo que não tem
Com o que se preocupar
As contas a pagar
Fila pra pegar
Senha pra rasgar
Fantasia…
Quando vi tocar “Não existe amor em SP”, putz, que coisa bem linda! Música ao vivo que ficou MUITO mais forte do que a versão do estúdio. Estava comovidíssima. Aliás, Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral merecem horas de aplausos de pé, porque que arranjo!
Eu paguei o ingresso e fui ao show. Mesmo assim, saí do Opinião com a impressão de que devia algo ao Criolo e a toda sua banda. Sua arte me fez olhar internamente. Não foi um show, foi uma grande catarse. Saí muito emocionada e, acho, que esse espetáculo não tem grana que valha. Bem, mas essa é só uma impressão. Vê o vídeo e diga, depois a tua:
Como ir pro trabalho sem levar um tiro
Voltar pra casa sem levar um tiro
Se as três da matina tem alguém que frita
E é capaz de tudo pra manter sua brisa
Os saraus tiveram que invadir os botecos
Pois biblioteca não era lugar de poesia
Biblioteca tinha que ter silêncio,
E uma gente que se acha assim muito sabida
Há preconceito com o nordestino
Há preconceito com o homem negro
Há preconceito com o analfabeto
Mais não há preconceito se um dos três for rico, pai.
A ditadura segue meu amigo Milton
A repressão segue meu amigo Chico
Me chamam Criolo e o meu berço é o rap
Mas não existe fronteira pra minha poesia, pai.
Afasta de mim a biqueira, pai
Afasta de mim as biate, pai
Afasta de mim a coqueine, pai
Pois na quebrada escorre sangue,pai.
Da modéstia
13 Out 2011 Deixe um Comentário
A modéstia é uma qualidade somente quando não é um cinismo. Bem, essa é apenas uma opinião. É lógico que é desejável que, no convívio, as pessoas sejam modestas e não fiquem enumerando todas as coisas que fizeram e fazem bem. O chato, mesmo, é quando só a família, o trabalho e o que a pessoa é e faz são melhores do que tudo no mundo e seus feitos se tornam o assunto de tudo. Inevitavelmente já tive uma ou outra vez essa atitude, principalmente quando bem mais jovem, e acho que é uma atitude de certa insegurança, que também é bem típica da juventude.
Então gente sem nenhum fiozinho de modéstia é chato, né? É.
Mas acho mais chato que isso o cinismo da modéstia. Gente que cria situações para que lhe elogiem ou faz uma cara de satisfação quando está dizendo “ah, imagina!”. Isso é mais chato de lidar, porque a pessoa não está — efetivamente — se auto-elogiando, mas está implicitamente fazendo isso e cria um ambiente meio complicado. Quer dizer, complicado para mim… Acho que outras pessoas podem conviver bem com isso, sei lá, mas sinto vergonha alheia.
O Rafinha Bastos e o Pepeu Gomes, por exemplo. Os caras não são modestos, sabem do seu valor no seu métier e reconhecem isso publicamente. Não há pedantismos (acho que nem no caso do Rafinha, apesar de parecer) ou estrelismos. Há, sim, um reconhecimento individual do que está fazendo (de relevante) em determinada área. Mas como reconhecer suas qualidades soa, na nossa cultura, como pedantismo, então penso que os lúcidos de si próprios são todos mal compreendidos. Esses exemplos são exemplos grandes, visíveis. Mas quando reduzimos esses exemplos ao dia-a-dia a coisa muda bastante de figura, mas não a incompreensão.
Parece socialmente feio dizer em primeira pessoa que fez um bom trabalho, que tem qualidades para determinada ação ou que entende de determinado assunto. Daí, quando outra pessoa reconhece, o elogiado responde: “ah, imagina!”. Às vezes, além do “ah, imagina!” vem um agradecimento que é igualmente cínico, pois a pessoa diz “obrigada!”, mas está fazendo uma cara de “sou foda, sei disso”. Seria mais bonito dizer: “nossa, fico feliz que tu tenha reconhecido [o que disse / o trabalho / etc]“, porque agradaria a todos, seria simpático e não haveria cinismo.
Tenho uma amiga que conheci no curso de Magistério e nós tínhamos de escrever um trabalho de fim de curso, contando como foi o crescimento individual durante o curso de Magistério. O professor orientou que deveríamos escrever, entre outros itens do trabalho, os agradecimentos. Essa colega levantou uma pergunta interessante, que lembro até hoje. Ela perguntou se ela poderia agradecer a si mesma. O professor, logicamente, achou a pergunta meio absurda,veja bem, quem agradece, agradece aos outros. Ela explicou que gostaria de agradecer aos pais, claro, mas, antes de tudo, queria agradecer a ela própria, por ter conseguido terminar com sucesso essa etapa dos estudos. Ela explicou que foi ela que fez os trabalhos, ela que estudou, ela que pensou em jogos e atividades, ela que planejou e estagiou. Ora, então se ela fez o curso com tanta qualidade, se ela sabe que fez o melhor como aluna, por que não reconhecer isso em seu trabalho? Obviamente outras colegas riram e acharam engraçado. Penso que acharam engraçado porque não foram tão boas como ela. Eu não fui tão boa como ela, mas admirei sua atitude, de saber quem ela é no mundo, de ter orgulho de si e de não precisar ser pretensiosa (nem fingir não ser).
Há coisas que fazemos sozinhos e que conseguimos sem ajuda de niguém. Às vezes, deveriam existir pessoas para nos ajudar e há algumas, inclusive, que querem fazer isso. Mas conjunturalmente há situações que estamos sozinhos, no limbo, mesmo. Que, mesmo com a melhor boa vontade, não há como resolver sem ser sozinho. Às vezes, quem deveria ajudar, atrapalha e perturba. E há situações quedevemos ser gratos e recebemos o presente de uma ajuda que surge do nada. Mas nas situações que estamos sozinhos, há de se valorizar o que conseguimos sozinhos e ver que fomos bem e que somos capazes. Não os melhores, não os imbatíveis, cheios de detalhes para melhorar, mas fomos bons, ora. Nos eventos de cerveja artesanal, em geral, não vejo nem falsos modestos, nem gente que se vomita auto-elogios gratuitos. E, veja só, esse ambiente me parece muito saudável, pois a pessoa faz a cerveja por lazer, o líquido pronto é um orgulho para ela, mas não trata como se tivesse descoberto a América. A modéstia hipócrita é tão feia quanto a insegurança da arrogância. Bonito, mesmo, é saber de si e saber o que há coisas que tu realmente é foda. E não deveria haver nenhum mal em saber disso.
Ingleses dominando meu Winamp
30 Set 2011 Deixe um Comentário
Polêmica do post: é… ainda uso Winamp. Todo mundo que eu conheço abandonou o programa faz tempo, mas eu uso e, para meus fins — ouvir mp3 — funciona que é uma maravilha.
Essa semana estou ouvindo freneticamente dois ingleses. Um é o James Blunt, com a canção “1973″. Eu era bem preconceituosa em relação a esse cara, já que aquela música dele — “You’re beautiful” — é chata e repetia aos quatro ventos mil vezes (fato que a deixou mais chata ainda). Mas “1973″ é simpática — não uma obra-prima –, bem feita e tem uma letra interessante.
O outro inglês é o Noel Gallagher. O cara saiu do Oasis fazendo um som ótimo, tocando um tipo de rock que adoro: rock para gente que está ficando mais velha. Não é rock para velhos, é rock para quem não é mais adolescente. O mais legal do Noel é que o single do álbum solo parece muito com o último hit do Oasis, “The importance os being idle”, que tem uma letra ótima e é uma canção realmente criativa. “The death of you and me”, da carreira solo do Noel, não é nova, criativa. Mas é boa e está valendo. A letra também é legal. Eu torço muito pela carreira do Noel, que é um ótimo guitarrista e compositor (porque cantor, né? enfim, serve…). Não lastimei (tanto) ele ter saído do Oasis, que é uma grande banda, mas prefiro ele fazendo esse som que faz agora.
Vendo o clipe do Noel, percebi que ele e o Ricardo Darín — fantáááááááástico ator argentino — devem ter sido separados no nascimento. Não é o Liam o irmão do Noel, é o Darín!
Criolo, uma descoberta
26 Jul 2011 1 Comentário
Vi domingo um programa da MTV chamado “Show Na Brasa“, eu acho. Nesse programa, tinha um cantor ótimo chamado Criolo. Eu tinha visto ele cantar uma ou outra canção no “Altas Horas”, mas fiquei muito surpresa com o repertório dele.
Criolo é um cantor com um timbre bem bonito e é muito, mas muito original no que canta. Suas letras são especialmente cuidadas e achei isso uma qualidade linda de seu trabalho. O que mais me pareceu interessante no Criolo é que nenhuma canção dele se assemelha a outra, apesar de ele ter vindo do hip hop e ter sua imagem associada ao movimento.
Enfim, recomendo que o povo saiba mais sobre esse cara tão talentoso. Deixo o vídeo de “Não existe amor em SP“, que não é sua melhor canção (eu acho que ela deveria ter umas guitarras sujas e pesadas no final, com mais pegada), mas é uma boa síntese de sua profunda interpretação aliada a boa letra e a uma canção interessante e diferente.






