A rejeição é um desgosto que sentimos quando não temos aprovação social. Querendo, ou não, sempre sofremos a aprovação social. Passamos a vida sofrendo pré-conceitos e nos adaptando com as rejeições que sofremos. Mas algumas rejeições são traumatizantes por si só; por exemplo, a rejeição advinda da pessoa querida e amada. Essa rejeição é proporcional ao sentimento despendido no querer o outro, e é popularmente chamada de pé-na-bunda.
O famoso “tomar um pé-na-bunda” é traumático por si só. Não adianta tentar melhorar; não adianta tentar amenizar. E, é claro, quem menos sofre é aquele que entra com o pé, nunca com a bunda. Mas existem alguns tipos de pé-na-bunda: desde os trágicos, até os irreparáveis.
Existe o pé-na-bunda que vem com a frase clássica “vamos continuar amigos, porque eu gosto ainda de ti”. O dono da bunda, nessa ocasião, sabe que se o dono do pé gosta mesmo, então porque não quer mais saber de relacionamento? Hein? Hein? Essa história do casal se desfazer e surgir uma bela amizade é balela. Não existe. E, se o dono do pé decidir investir na amizade, de trágico, o pé-na-bunda será irreparável, paulatinamente. E o dono da bunda decidirá, mesmo que por alguns instantes, que não desejará mais se relacionar com ninguém.
Outro tipo de pé-ne-bunda é aquele que surge a partir de brigas, gritos e pontapés. Não exatamente nessa seqüência lógica, mas concomitantemente. Esse pé-na-bunda é complicado, porque depois que o dono da bunda se dá conta do que aconteceu, ele tenta desfazer os mal-entendidos, esquecer e fazer o dono do pé esquecer as maledicências e implorar desculpas. Como o dono do pé está por cima nesse momento, ele usa de humilhação para tornar a situação trágica, graduando para irreparável à medida em que deixa o dono da bunda perdido e fora da realidade. É um assassinato ao coração, com requintes de tortura, para ser mais exato… E o dono da bunda decidirá, mesmo que por alguns instantes, que não desejará mais se relacionar com ninguém.
Além desses dois tipos clássicos, há o tipo de pé-na-bunda em que os envolvidos se mostram espertos e independentes, afirmando socialmente que não houve pé-na-bunda. Ou seja, falam que tudo foi em comum acordo. Aí é que eles se enganam e enganam os outros. O “moderninho”, que propõe o “tempo”, entrou com o pé, e o “bem-resolvido”, que aceitou dar uma arejada na cabeça, entrou com a bunda. Trancados no quarto, os dois ficam com o coração apertadinho, pequenininho. Mas o dono do pé se sente regozijado e/ou aliviado, enquanto o dono da bunda chora baixinho e sofre a rejeição. Se o dono do pé mostrar que quer reconstruir sua vida, aí será o desespero, chegando a tragédia, e, aos poucos, o dono da bunda confessará o quanto sofreu. Mas aí, já será tarde, e o mal será irreparável. E o dono da bunda decidirá, mesmo que por alguns instantes, que não desejará mais se relacionar com ninguém.
Há um tipo de pé-na-bunda que não é tão óbvio como os outros. Esse tipo ocorre quando o casal continua o relacionamento sem manter a reciprocidade de sentimentos. Ou seja, a “relação de fachada”. Em algum momento, um dos dois começa a se afastar discretamente, o outro começa a forçar a imagem de felicidade do casal, dexando, assim, sua bunda fora da reta. Mal sabe ele que sua bunda já foi chutada. Discretamente, claro. Mas tão discretamente que só ele não notou. Até que um dia o dono do pé resolve comunicar explicitamente o processo ocorrido. O dono da bunda não enxerga o óbvio, chora muito e faz com que o dono do pé sinta-se culpado. Até aí a situação é trágica. Quando o dono do pé confirma sua posição cruel, o dano é irreparável. E o dono da bunda decidirá, mesmo que por alguns instantes, que não desejará mais se relacionar com ninguém.
Em alguns casos, ocorre uma junção de todos os tipos supracitados. Não ao mesmo tempo, mas com uma ordem que desgraça os corações. Primeiro, o casal resolve dar um tempo, e o dono do pé se culpa, se compadece e resolve “dar mais uma chance” ao dono da bunda, dizendo que estará dando mais uma chance ao nosso amor. Ele diz nosso, mas não é mais dele. Depois, terminam de novo e tentam ficar amigos. Não dá certo, porque o dono da bunda exige que a amizade seja mantida (não, não adianta dizer que era uma mentirinha, nem que o dono do pé mentiu para poupar o dono da bunda…) e começa a convidar para sair todos os finais de semana. O dono do pé vai ficando de saco cheio e faz de conta que tudo está bem. Cria-se, então, uma “relação de fachada”, em que nenhum dos dois se suporta mais. Mas isso já foi explicado. Depois de tudo isso, o dono do pé, com sua paciência frágil, briga, grita e dá pontapés. Pronto, o inevitável aconteceu. E o dono da bunda decidirá, mesmo que por alguns instantes, que não desejará mais se relacionar com ninguém.
O pé-na-bunda é terrível. É uma situação em que o rejeitado se sente abaixo do plâncton. Passa algum tempo achando que ninguém nunca mais vai gostar dele. E que o mundo todo está contra ele. É, de fato, um momento frágil da vida em que o dono da bunda ficará se preguntado aonde foi que errou e como consertar toda a desgraça. Não há receitas para diminuir a dor ou paliativos cientificamente aprovados. Mas antes de o dono da bunda decidir, mesmo que por alguns instantes, nunca mais se relacionar com ninguém, deve pensar que o pé-na-bunda pode até ser útil: ele pode chutar o dono da bunda para frente.
*** Esse texto foi escrito em 2003, para uma cadeira de Leitura e Produção Textual. Estou guardando online os textos que me sobraram, pois perdi quase todos os que fiz. Há coisas engraçadinhas e outras muito ruins. Mas era o meu primeiro semestre na UFRGS.

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21 Janeiro, 2009 às 2:37 pm
HUMBERTO CAMPOS
Foi assim, mais ou menos, que aconteceu comigo em um passado recente (08 de abril de 2008), quando minha ex-esposa (dona do pé) investiu contra a minha pessoa(dona da bunda), sem piedade; mansinha, calma, determinada. Sentou-se na mesa da cozinha, onde eu estava tomando um café, e disse: “conversei com os filhos e eles disseram que não se incomodam… resolvi que quero a separação… quero viver livre, chegar em casa a hora que quiser… conhecer outras pessoas interessantes… dançar…, você pode ficar aqui em casa… uns três dias… aí você arruma um lugar para morar, porque não quero causar constrangimento a você, quando eu aparecer aqui com algum amante…” (!!!).
Isso foi a sentença final, depois de 25 (vinte e cinco) anos de casados!!
E, veja bem: me expulsou de casa – imóvel que construí sozinho, com o meu dinheiro!!!
É… essa vida é engraçada.
Anos a fio investindo, financeira e socialmente, na célula familiar… comprando imóveis, carros novos (inclusive para a dona do pé), dando educação de primeira qualidade para os filhos, sendo bonzinho, honesto, fiel, companheiro, prestativo (e muito mais).
Resultado: pé na bunda!
Homem tem de ser infiel, safado, sem vergonha, vagabundo, mentiroso e portador de outros atributos de semelhantes qualidades. A mulher gosta é desses.
Homem bonzinho tem uma bunda muito atrativa ao pé da mulher!
Mas é a vida.
Mas tem cura!
O tempo é o senhor da razão.
Razão de ser e razão de ter.
De ser homem e de ter paz.
O tempo não passa;
Não deixa avisos;
Só nós passamos nesta vida;
Vida de imprevistos e de improvisos;
De amor e de decepção;
Naquilo que acreditamos ser e não é.
Naquilo que depositamos confiança;
E também a fé;
Mas é a vida, pelo menos isso.
Se vivo é porque há uma razão maior;
Maior que eu mesmo;
Idealizada por alguém a esmo, melhor;
Que busco a todo instante;
Mesmo inconsciente;
Porém distante;
Mas ele está presente.
Aonde eu não sei;
Ninguém, na verdade, sabe.
Mas existe.
Sua fisionomia, desconheço;
Só vejo suas obras;
Em prol de tudo e de todos os mortais;
E todos também pensam nele;
E ele vê todos, de algum lugar, iguais;
Mas poucos lhe creditam o ser e o saber;
E, de forma desigual, o trata como igual.
BOLA PRÁ FRENTE!!!